Estudo com mais de 1.800 cavalos mostra que a troca constante de cavaleiros afeta a resposta aos comandos e pode gerar frustração no animal.
Uma dúvida comum entre criadores, treinadores e praticantes de equitação ganha respaldo científico: cavalos podem, sim, sofrer impactos comportamentais quando são montados por muitos cavaleiros diferentes. Uma pesquisa conduzida por uma equipe da Universidade de Sydney aponta que essa prática, bastante comum em centros de treinamento e escolas de equitação, pode gerar confusão, frustração e até perda de resposta aos comandos básicos.
O estudo lança luz sobre um comportamento frequentemente observado no dia a dia do manejo equino: cavalos que aparentam calma, mas que, na prática, estão “desligando” como forma de lidar com estímulos inconsistentes.
De acordo com os pesquisadores, cavalos submetidos a trocas frequentes de cavaleiro podem apresentar dificuldades na interpretação dos comandos. Isso ocorre porque cada pessoa aplica sinais diferentes — intensidade de perna, uso de rédeas, equilíbrio e postura — criando uma comunicação inconsistente.
Como consequência, o animal pode desenvolver um comportamento típico:
parar de responder ou reagir de forma tardia, o que muitas vezes é interpretado como teimosia.
Na prática, porém, trata-se de um mecanismo de adaptação.
Os estudos indicam que:
- O cavalo pode ficar confuso diante de comandos contraditórios
- Surge um estado de frustração comportamental
- O animal pode se tornar “insensível” aos estímulos, optando por não reagir
Esse fenômeno se alinha ao que outras pesquisas já apontaram sobre o comportamento equino: mudanças frequentes no ambiente e nas interações humanas podem gerar comportamentos anormais ou estereotipias, ligados ao estresse e à adaptação do animal.
A pesquisa avaliou 1.819 cavalos, com foco em dois pontos principais:
- Capacidade de aceleração e desaceleração
- Resposta geral aos comandos de diferentes cavaleiros
Os resultados foram claros:
- Cavalos com maior rotatividade de cavaleiros tiveram menor resposta aos comandos de perna
- Também responderam menos ao uso leve de chicote
- Apresentaram maior dificuldade para iniciar o movimento
Segundo os pesquisadores, isso pode indicar que esses animais foram expostos, ao longo do tempo, a uso inadequado ou inconsistente de auxiliares de montaria.
Um dos pontos mais críticos destacados pelo estudo é a formação de um ciclo negativo de treinamento.
Funciona assim:
- O cavalo não responde imediatamente
- O cavaleiro aumenta a pressão (perna, rédea ou chicote)
- O cavalo se torna ainda mais resistente ou confuso
- A pressão aumenta novamente
Esse processo pode levar a uma escalada de tensão, resultando em:
- Risco para o cavaleiro, especialmente iniciantes
- Desgaste físico e mental do cavalo
- Comprometimento do desempenho e da aprendizagem
Um ponto importante da pesquisa é que cavaleiros iniciantes não são necessariamente os principais causadores do problema.
No entanto, quando se desconsideram sinais claros de estresse, os pesquisadores observaram que iniciantes podem influenciar o comportamento do cavalo por fatores como:
- Mãos instáveis nas rédeas
- Equilíbrio corporal limitado
- Aplicação inconsistente da pressão de pernas
Essas variações contribuem para que o cavalo desenvolva respostas mais lentas ou imprecisas, especialmente quando combinadas com múltiplos cavaleiros.
Fatores biológicos
O estudo também identificou que fatores biológicos impactam a forma como os cavalos respondem à montaria:
Idade
- Cavalos mais velhos tendem a ser mais eficientes na leitura dos sinais
- Com o tempo, tornam-se mais precisos ao responder comandos
Sexo
- Éguas jovens demonstraram melhor resposta inicial às rédeas
- Essa diferença tende a desaparecer com a idade
Raça
- Cavalos da raça Standardbred apresentaram maior dificuldade para acelerar, mas paravam com mais facilidade
- Raças mais robustas, como ibéricas, quarto de milha e sangue quente, mostraram-se:
- Mais fáceis de parar
- Mais responsivas às rédeas
Além disso, os Standardbred, por serem treinados inicialmente para tração (arreios), demoram mais a desenvolver resposta aos comandos de perna.
Os resultados reforçam um ponto central para a equinocultura moderna: a consistência na comunicação entre cavalo e cavaleiro é essencial para o desempenho e o bem-estar animal.
Ambientes com alta rotatividade de cavaleiros — como escolas de equitação — exigem ainda mais atenção, já que:
- O cavalo precisa lidar com múltiplos estilos de comando
- Há maior risco de confusão comportamental
- Pode ocorrer queda na sensibilidade e na resposta do animal
O estudo da Universidade de Sydney reforça que o cavalo não é apenas um executor de comandos, mas um animal sensível à forma como esses sinais são transmitidos.
Trocas frequentes de cavaleiro podem comprometer a clareza da comunicação, levando a respostas mais lentas, resistência e até riscos na montaria.
Por outro lado, quando há consistência:
- O cavalo aprende mais rápido
- Responde com mais precisão
- Apresenta melhor bem-estar
Em um cenário onde o desempenho e a segurança caminham juntos, a mensagem da ciência é direta:
não é apenas o que se pede ao cavalo — mas como, e por quem, que faz toda a diferença.
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