A produção de etanol de milho no Brasil, apesar da recente história, já atingiu 6,3 bilhões de litros em 2024, com expectativa de atingir entre 13 e 15 bilhões de litros em 2032, segundo a EPE e pela revista científica Nature
Um recente estudo publicado na revista científica Nature destaca a relevância e o potencial de crescimento da produção de etanol de milho no Brasil, com foco no milho de segunda safra, também conhecido como “safrinha”. O país, que já figura entre os maiores produtores globais de biocombustíveis, pode atingir a marca de 15 bilhões de litros de etanol de milho até 2032, consolidando-se como referência mundial nesse setor.
A pesquisa, realizada pela consultoria Agroicone em parceria com instituições renomadas, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e a UNICAMP, abordou os impactos socioeconômicos e ambientais da produção de etanol de milho no Brasil, utilizando avançados métodos de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) e modelos de equilíbrio geral computável (CGE). O estudo é inovador ao integrar os impactos dessa produção com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), traçando um panorama detalhado sobre os efeitos positivos e desafios do sistema.
Produção de Etanol de Milho no Brasil Pode Alcançar 15 Bilhões de Litros Até 2032
Crescimento Acelerado e Sustentabilidade
A produção de etanol de milho no Brasil, embora recente, já alcançou 6,3 bilhões de litros em 2024, com previsão de dobrar nos próximos oito anos, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Esse avanço é impulsionado pela adoção do milho safrinha, que tem aproveitado áreas cultivadas sem necessidade de expansão agrícola. O estado do Mato Grosso, por exemplo, é responsável por 73% dessa produção, fortalecendo a economia regional e nacional.
Produzir etanol a partir de milho de segunda safra em terras que antes produziam apenas soja no Brasil é o exemplo de crescimento mais rápido da estratégia de matéria-prima de bioenergia de dupla safra no mundo hoje e também deve ser a primeira aplicação de bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) no Brasil.
Na última temporada (2022/23), quase 100% do etanol de milho brasileiro foi produzido na região Centro-Oeste.
Sofia Arantes, uma das pesquisadoras do estudo, destaca a importância da segunda safra no modelo de produção sustentável. “Os 15 bilhões de litros que projetamos até 2032 não exigem novas áreas agrícolas. A produção de milho safrinha tem um impacto mínimo no uso da terra, maximizando o aproveitamento das colheitas”, afirma.
A produção de culturas duplas, que permite colher duas safras em uma mesma área de terra, tem se destacado como uma estratégia auxiliar no uso do solo, trazendo vantagens significativas. Na região Centro-Oeste do Brasil, especialmente no estado do Mato Grosso, essa prática levou a uma rápida expansão na produção de grãos, com a área destinada ao milho de segunda safra crescendo de 3,2 milhões de hectares em 2013/14 para 7,4 milhões de hectares em 2022/23. Praticamente toda essa produção é realizada após a colheita da soja, utilizando a mesma área e aproveitando as condições climáticas favoráveis.
Esse aumento expressivo na produção de milho de segunda safra é impulsionado pela adoção de novas tecnologias e melhores práticas agrícolas, que têm melhorado a eficiência e a produtividade no campo. Ao otimizar o uso da terra, o sistema de culturas duplas permite que o Brasil expanda sua produção de bioenergia e grãos sem a necessidade de desmatamento ou ocupação de novas áreas, contribuindo para a sustentabilidade agrícola e a segurança alimentar global.

Impactos Ambientais Positivos
O sistema produtivo do etanol de milho tem se mostrado benéfico em termos de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Estima-se que, até 2030, as emissões possam ser reduzidas entre 9,3 e 13,2 milhões de toneladas de CO2e, contribuindo significativamente para os esforços globais de mitigação das mudanças climáticas. A adoção da tecnologia de captura e armazenamento de carbono (BECCS) pode aumentar ainda mais essa contribuição, com a expectativa de remoção de até 15,9 milhões de toneladas de CO2e.
Essa abordagem coloca o Brasil na vanguarda da transição energética global. Segundo Angelo Gurgel, do MIT, “a combinação de bioenergia com captura de carbono oferece ao Brasil uma oportunidade única de não apenas reduzir emissões, mas de gerar energia com uma pegada de carbono negativa.”
Produção Sustentável e Segurança Alimentar
Além dos benefícios ambientais, o etanol de milho contribui para a segurança alimentar. O sistema produtivo gera cerca de quatro milhões de toneladas de insumos para ração animal, garantindo alimento para o gado e evitando pressão sobre a produção de grãos voltada para o consumo humano. Esse equilíbrio é fundamental para manter o bem-estar das populações mais vulneráveis, tanto no Brasil quanto em outros países que dependem das exportações agrícolas brasileiras.
Desafios Locais e Globais
Apesar dos avanços, a pesquisa ressalta a importância de monitorar os impactos do etanol de milho sobre os recursos hídricos, especialmente em regiões produtoras. A atenção ao ODS 6 (água limpa e saneamento) é crucial para evitar a degradação de bacias hidrográficas. Marcelo Moreira, da Agroicone, destaca que “políticas públicas devem ser alinhadas para garantir que a expansão do etanol de milho aconteça sem comprometer a qualidade da água.”
A produção de etanol de milho no Brasil também deve ser acompanhada por um debate mais aprofundado sobre os impactos econômicos da tecnologia BECCS e seu papel na cadeia de bioenergia. A adoção dessa tecnologia em larga escala ainda está em fase de testes, mas é vista como uma solução promissora para reduzir as emissões de carbono e alavancar a economia de biocombustíveis.

Leis e Incentivos
O Congresso Nacional tem demonstrado apoio ao desenvolvimento de energias renováveis. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou o PL Combustível do Futuro, que visa aumentar os percentuais de mistura de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel, além de incentivar o uso de combustíveis sustentáveis na aviação. Esse projeto de lei é um marco na promoção da bioenergia no Brasil, impulsionando o setor de biocombustíveis e colaborando para o cumprimento das metas de redução de emissões do país.
O Brasil está se posicionando como um dos líderes globais na produção de etanol de milho, com projeções ambiciosas e um compromisso sólido com a sustentabilidade. Com o apoio de tecnologias inovadoras como o BECCS e uma política pública focada na promoção de energias renováveis, o país pode consolidar-se ainda mais como referência em bioenergia e contribuir de forma decisiva para a redução das emissões de carbono no cenário mundial.
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