Com o suporte tecnológico da Embrapa e a ascensão do público flexitariano, a indústria de proteínas vegetais expande sua presença no mercado nacional, apostando em pulses e técnicas avançadas de extrusão para mimetizar a experiência da carne
O cenário das gôndolas brasileiras passa por uma transformação silenciosa, mas economicamente barulhenta. O que antes era um nicho restrito a dietas restritivas, hoje se consolida como uma potência de mercado: os alimentos plant-based no Brasil. De acordo com dados do setor, o país já se posiciona como um dos hubs mais promissores para essa disrupção proteica, atraindo desde startups a gigantes do agronegócio nacional.
Mas, afinal, o que define essa categoria? Diferente de um simples hambúrguer de vegetais artesanal, os alimentos plant-based no Brasil são produtos de alta tecnologia desenvolvidos para mimetizar — em nível molecular — a experiência sensorial da proteína animal. “Trata-se de oferecer ao consumidor o sabor, a textura e o aroma que ele já conhece, mas utilizando apenas insumos vegetais”, explica Janice Lima, pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos.
A ascensão dos flexitarianos e o consumo de alimentos plant-based no Brasil
O motor por trás desse crescimento não é apenas o público que excluiu a carne do cardápio, mas sim o consumidor flexitariano. Pesquisas de mercado indicam que uma parcela significativa dos brasileiros reduziu o consumo de proteína animal nos últimos anos por questões de saúde ou sustentabilidade.
Esse novo perfil busca o “pacote completo”: quer reduzir o impacto ambiental sem abrir mão da suculência de um bife. Segundo a Embrapa, a demanda por alimentos plant-based no Brasil forçou a indústria a investir pesado em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). O objetivo é garantir que o substituto vegetal não seja apenas uma “alternativa”, mas uma escolha gastronômica equivalente em satisfação.
O gargalo da textura e dos cortes inteiros
Apesar da rápida ascensão, a indústria ainda enfrenta o desafio da texturização. Reproduzir a complexidade de um corte íntegro — como um peito de frango ou um bife bovino — exige tecnologias avançadas de extrusão. No Brasil, a produção atual foca majoritariamente em itens moldados (como hambúrgueres e almôndegas), onde a simulação de fibras é mais simples.
Janice Lima ressalta que, embora tecnologias internacionais já avancem em cortes inteiros, no território nacional o cenário ainda é considerado incipiente para essas estruturas específicas. O grande “pulo do gato” tecnológico será atingir a suculência e a resistência à mordida que as fibras musculares animais oferecem, mantendo o rótulo o mais limpo possível.
A diversificação das matérias-primas nos alimentos plant-based no Brasil
Para o agronegócio, essa tendência representa uma oportunidade de ouro para a diversificação de portfólio. Embora a soja e a ervilha dominem o mercado atual devido à escala produtiva e densidade proteica, o Brasil possui um potencial inexplorado em suas pulses (leguminosas secas).
A Embrapa tem liderado estudos estratégicos com:
- Feijão e Grão-de-bico: Alta adaptação climática e excelente perfil de aminoácidos.
- Lentilha e Tremoço: Novas fronteiras para a extração de concentrados proteicos funcionais.
A vantagem competitiva reside na capacidade de verticalizar a produção: plantar a semente, processar a proteína concentrada e fabricar o produto final em solo nacional, reduzindo custos logísticos e o preço final ao consumidor.
Sabor, nutrição e paridade de preço
O sucesso contínuo dos alimentos plant-based no Brasil depende agora de uma tríade inegociável: fidelidade sensorial, perfil nutricional equilibrado e acessibilidade financeira. À medida que a escala de produção aumenta e as tecnologias de processamento se tornam mais eficientes, a tendência é que esses produtos deixem de ser “premium” para se tornarem itens comuns na cesta básica de proteínas do brasileiro.
O desafio da indústria, como pontua Janice Lima, é entregar um produto que seja nutricionalmente rico, sensorialmente idêntico ao animal e, fundamentalmente, viável para o bolso da população.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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