Conheça a história viva da centenária seleção 53 no Brasil

Aos 82 anos, Carlos Junqueira Neto, o lendário “Lalo”, mantém viva uma seleção iniciada há 125 anos na Fazenda Rio Pardo, em Jaborandi (SP), preservando linhagens históricas do Mangalarga e do Mangalarga Marchador que ajudaram a formar a raça no Brasil

No interior silencioso de Jaborandi, no norte paulista, o tempo parece caminhar em outro compasso. Na Fazenda Rio Pardo, entre mangueiras antigas, pastos extensos e o som ritmado das tropas no curral, sobrevive um dos últimos grandes guardiões da história genética do cavalo Mangalarga no Brasil.

Ali, diante de dezenas de éguas cuidadosamente selecionadas ao longo de décadas, Carlos Junqueira Netto — conhecido nacionalmente como Lalo — falou com a serenidade de quem dedicou a vida inteira à raça. Em conversa com Paulo Leonel, presidente do Grupo Adir, o criador relembrou uma trajetória que atravessa cinco gerações e que se confunde com a própria formação do Mangalarga brasileiro.

O ano que vem vai fazer 125 anos de seleção. Seleção! Que não é criação, né? Seleção é outra coisa”, afirmou, fazendo questão de diferenciar aquilo que considera a essência do trabalho desenvolvido pela família Junqueira na Fazenda Rio Pardo.

A frase, dita de maneira simples, carrega um peso histórico raro. Porque, para Lalo, criar cavalos nunca significou apenas multiplicar animais. Significa preservar sangue, manter características funcionais, proteger linhagens e evitar que séculos de construção genética desapareçam diante de modismos, cruzamentos indiscriminados ou interesses comerciais imediatistas.

O sufixo “53”, hoje reverenciado entre criadores e apaixonados pelo Mangalarga Marchador, tornou-se sinônimo dessa resistência silenciosa.

Paulo destacou a importância de selecionadores como Lalo

Paulo Leonel diz que o trabalho desenvolvido por criadores como Lalo Junqueira vai muito além da preservação de uma linhagem tradicional. Segundo ele, o Brasil vive um momento delicado tanto na pecuária bovina quanto na equina, em que a verdadeira seleção genética começa a perder espaço para discursos vazios e “especialistas de internet” sem experiência prática no campo.

Na avaliação de Paulo, são cada vez mais raros os selecionadores capazes de compreender profundamente uma raça e conduzir sua evolução sem comprometer suas características originais. “O selecionador real não é o que fala que é selecionador. É aquele que garante as futuras gerações daquela raça com aquilo que a natureza deu a ela, sem colocar defeitos que não existiam”, afirmou.

Paulo destacou ainda que criadores como Lalo representam uma espécie de patrimônio vivo da genética animal brasileira, responsáveis por manter intactas características produtivas, funcionais e raciais construídas ao longo de décadas — ou até séculos — de seleção criteriosa.

Para ele, a preservação dessas linhagens será decisiva para o futuro da equinocultura e da pecuária nacional. “Essas pessoas vão ser as donas da genética que vai manter essas espécies onde elas chegaram, antes dessa mistura que está tendo no mercado”, disse. Em tom firme, ele criticou o crescimento de narrativas superficiais sobre melhoramento animal e alertou que, sem os verdadeiros selecionadores de origem, “tudo vai acabar”. “Pessoas como Lalo são o que vai garantir a segurança das espécies no mundo”, concluiu.

Uma seleção que atravessou gerações

A história começou ainda com o avô de Lalo, em um período em que o cavalo era ferramenta indispensável nas fazendas brasileiras. Depois passou ao pai. E, em 1960, chegou às mãos dele.

Meu pai tava criando essas éguas aqui. Tinha duas linhagens que ele mexia: TELEGRAMA e FORTUNA na ramificação do CANÁRIO”, relembrou.

Mas o jovem criador percebeu cedo um problema que ameaça qualquer seleção fechada: a consanguinidade excessiva. Ao lado do irmão, Haroldo, começou então uma busca criteriosa por novas linhas de sangue que pudessem preservar a pureza racial sem comprometer variabilidade genética.

Foi nesse momento que entrou a linhagem COLORADO.

“Trouxemos um cavalo da linhagem do Colorado, que no primeiro ano de cobertura aqui deixou dois grandes reprodutores: o Zulu e o Zaire”, contou.

A partir dali, a Fazenda Rio Pardo consolidaria três grandes linhagens puras: COLORADO, CANÁRIO e TELEGRAMA.

Mas o cenário da raça começava a mudar.

A ruptura com o Mangalarga Paulista

Lalo observa a evolução da raça com olhar crítico — e profundamente técnico. Segundo ele, parte importante da essência do antigo Mangalarga Paulista começou a se perder quando criadores passaram a recorrer a cruzamentos com sangues considerados “exóticos”.

“Lá no Mangalarga Paulista a coisa já tava misturada demais. Eu não achava mais reprodutor pra abrir sangue e continuar”, explicou.

Foi então que tomou uma decisão histórica: migrar definitivamente para o Mangalarga Marchador.

O movimento não representava abandono das origens, mas justamente uma tentativa de preservá-las.

Ele registrou suas éguas no Marchador e passou a incorporar novas linhas altas consideradas fundamentais na formação da raça brasileira.

Vieram então as linhagens CAPITEL e PASSA TEMPO. Mais tarde, também CRAVO. E, recentemente, a conquista que parecia fechar um círculo iniciado mais de um século antes: a recuperação da linhagem ABISMO.

“Só faltava do Abismo, que esse ano eu obtive.”

Hoje, Lalo afirma possuir na Fazenda Rio Pardo praticamente todas as principais linhas formadoras históricas da raça.

“Agora eu tô com essas seis linhagens aqui: Telegrama, Fortuna com ramificação do Canário, Colorado, Capitel, Cravo e Passa Tempo.”

Depois corrige, quase como quem reorganiza mentalmente um mapa genético construído ao longo de décadas.

“Isso aqui virou um núcleo genético.”

O conceito de “linhas altas”

Poucos criadores brasileiros falam sobre genética racial com a profundidade de Lalo Junqueira. Em artigo publicado na Revista Top Marchador, em janeiro de 2022, ele deixou registrado um verdadeiro manifesto técnico sobre a preservação das chamadas “linhas altas” do Mangalarga.

Para ele, entender essas linhagens é compreender a própria formação histórica da raça.

Segundo Lalo, tudo começa no Sul de Minas Gerais, berço do Mangalarga.

A primeira grande linha formadora seria a do ABISMO, considerada uma das mais presentes nos pedigrees brasileiros até hoje.

Depois viriam TELEGRAMA e FORTUNA, fundamentais para a consolidação das tropas paulistas. A linhagem FORTUNA, por sua vez, originaria três ramificações decisivas: COLORADO, CAPITEL e CANÁRIO.

Mais tarde surgiriam outras linhas importantes, como a PASSA TEMPO e as chamadas linhagens “Sul-Mineiras”, ligadas a animais históricos como Sincero, Neon, Sertão e Recife da Traituba.

Na visão de Lalo, essas linhagens não representam apenas árvores genealógicas. Elas carregam aptidões funcionais, andamento, temperamento, rusticidade e identidade racial acumulados ao longo de séculos.

“Uma raça que se iniciou no século 18 não deve perder nenhuma dessas linhagens para prosseguir sua seleção no século 21”, escreveu.

O alerta contra os cruzamentos “estranhos”

Ao longo da conversa e também em seus textos, Lalo demonstra preocupação constante com o rumo da seleção moderna.

Segundo ele, tanto o Mangalarga Paulista quanto o Mangalarga Marchador vivem riscos semelhantes quando criadores deixam de priorizar pureza racial e passam a buscar atalhos genéticos.

“Sem falar nos cruzamentos com sangue exótico, em que não vai ter mais como consertar o estrago feito”, alertou em seu artigo.

A crítica não surge de nostalgia vazia, mas de uma visão técnica construída após mais de seis décadas observando pedigrees, andamento e transmissão genética.

Para Lalo, uma raça só se perpetua quando preserva suas origens formadoras.

Ele cita como exemplo o Puro Sangue Inglês, raça que considera uma das mais rigorosas do mundo em preservação genética.

“O Puro Sangue Inglês conserva suas linhas altas com suas ramificações intactas”, escreveu.

“Você não faz núcleo genético com duas ou três éguas”

Enquanto muitos criatórios modernos reduzem plantéis e trabalham apenas com poucos animais altamente comerciais, Lalo segue apostando em volume, diversidade genética e seleção paciente.

Ao apontar para dezenas de matrizes reunidas no curral da Fazenda Rio Pardo, resumiu aquilo que considera indispensável para preservar uma raça.

“Você não faz núcleo genético com duas, três éguas. Isso aí não é seleção.”

A frase expõe uma filosofia quase artesanal de criação — distante da velocidade do mercado contemporâneo.

Na visão dele, seleção exige tempo. Exige persistência. Exige método.

“Criar não é fácil. Exige muito cuidado. Os resultados não são imediatos”, escreveu.

Talvez por isso o trabalho da Fazenda Rio Pardo desperte tanta reverência entre criadores antigos e estudiosos da raça. Porque ali ainda existe algo raro: continuidade.

Em um país onde muitas linhagens desapareceram, onde pedigrees históricos foram perdidos e onde parte da memória da equinocultura nacional se dissolveu ao longo das décadas, o criatório “53” permanece como uma espécie de arquivo vivo do Mangalarga brasileiro.

A herança de um guardião

Hoje, aos 82 anos, Lalo fala sobre genética com a lucidez de quem entende que está transmitindo muito mais do que conhecimento técnico.

Existe certa urgência em suas palavras.

“Estou escrevendo este artigo para não deixar que meus seguidores e criadores novos desconheçam este item da criação que é muito importante.”

A preocupação não é apenas com cavalos.

É com memória.

Com identidade racial.

Com continuidade histórica.

Com a responsabilidade de entregar às próximas gerações uma raça ainda reconhecível em sua essência.

Na Fazenda Rio Pardo, em meio às linhagens TELEGRAMA, CANÁRIO, COLORADO, CAPITEL, PASSA TEMPO e ABISMO, permanece viva uma seleção iniciada ainda no século XIX.

Uma obra silenciosa construída por homens que enxergavam no cavalo não apenas beleza ou mercado, mas herança.

E talvez seja justamente isso que torna Lalo Junqueira uma figura tão singular na história do Mangalarga brasileiro: ele não fala apenas de criação.

Ele fala de preservação.

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