Relatos de mortes preocupam pecuaristas diante da falta de vacinas e especialistas alertam para risco

Escassez de imunizantes contra clostridioses já provoca registros de mortalidade em rebanhos, preocupa confinadores e leva CNA a pedir medidas emergenciais ao Ministério da Agricultura

A crise de desabastecimento de vacinas veterinárias no Brasil começou a gerar reflexos diretos dentro das fazendas e já preocupa produtores rurais em diversas regiões do país. Relatos de mortes de bovinos, principalmente em animais de recria e confinamento, acenderam o alerta sanitário entre pecuaristas, veterinários e entidades do setor.

A preocupação aumentou após a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) encaminhar um ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) solicitando medidas emergenciais para enfrentar a falta de vacinas consideradas essenciais para a pecuária nacional.

Segundo a CNA, o problema envolve a escassez de imunizantes usados no combate a doenças como clostridioses, influenza equina, encefalomielite, herpesvírus, tétano e leptospirose. No documento enviado ao ministro Carlos Fávaro, a entidade afirmou que já existem registros de mortalidade animal em alguns estados devido à indisponibilidade dos produtos.

O tema ganhou ainda mais repercussão durante o programa DBO Destaca, apresentado pelo jornalista Renato Vilela, que reuniu especialistas para discutir os impactos da crise sanitária no campo. Participaram do debate os veterinários José Zambrano, diretor da consultoria SAR – Sanidade em Rebanhos, de Belo Horizonte (MG), e Flávio Caldeira, pesquisador do Instituto Federal de Rondônia, professor e consultor em saúde animal.

Mortes já começam a aparecer nas fazendas

Durante o programa, o pesquisador Flávio Caldeira revelou que os casos de mortalidade começaram a surgir principalmente nos últimos dias, com suspeitas relacionadas ao carbúnculo sintomático, popularmente conhecido como manqueira.

Segundo ele, apenas em uma única reunião recente com veterinários de campo, foram relatadas propriedades com perdas significativas de animais.

“Um veterinário atendeu uma fazenda com mais de 15 animais mortos e outro registrou oito mortes. Aqui próximo de onde estou também morreram mais dois animais”, relatou Caldeira durante o DBO Destaca.

O especialista explicou que os efeitos da falta de vacinação podem se intensificar nos próximos meses, principalmente porque muitos animais ainda estão protegidos por imunizações realizadas anteriormente. No entanto, conforme a proteção vacinal perde eficácia, o risco tende a aumentar.

A situação é ainda mais delicada no confinamento bovino, justamente no período em que muitos pecuaristas iniciam a entrada de animais nos sistemas intensivos.

Confinadores vivem momento de apreensão

O diretor da consultoria SAR, José Zambrano, afirmou que o setor vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos em relação à sanidade animal.

Segundo ele, muitos produtores estão tentando encontrar vacinas em diferentes regiões do país e até utilizando produtos alternativos para minimizar os riscos sanitários.

“Estamos praticamente fazendo mágica na pecuária”, afirmou Zambrano ao programa.

Ele explicou que o confinamento não pode simplesmente parar, principalmente após meses difíceis de reposição e aquisição de boi magro.

Apesar do risco sanitário, interromper a operação significaria enormes prejuízos econômicos para boitéis e confinamentos, que mantêm custos elevados com funcionários, estrutura, alimentação e operação diária.

Ainda assim, os especialistas alertam que o ingresso de animais sem proteção vacinal aumenta significativamente o risco de doenças clostridiais, especialmente em bovinos jovens e recém-chegados às propriedades.

Entenda o que são as clostridioses

As clostridioses são doenças causadas por bactérias do gênero Clostridium e representam algumas das enfermidades mais perigosas da pecuária bovina.

Entre os principais problemas estão:

  • carbúnculo sintomático (manqueira);
  • gangrena gasosa;
  • botulismo;
  • enterotoxemias;
  • tétano.

Segundo os especialistas entrevistados no DBO Destaca, o carbúnculo sintomático deve ser uma das primeiras doenças a aparecer com maior intensidade durante o período de escassez vacinal.

Flávio Caldeira explicou que a doença afeta principalmente animais jovens, geralmente com até dois anos de idade, e que a vacina é considerada praticamente a única forma realmente eficiente de prevenção.

Já no caso do botulismo, além da vacinação, o manejo sanitário adequado da propriedade possui papel fundamental.

Manejo passa a ser decisivo diante da falta de vacinas

Sem a disponibilidade adequada dos imunizantes, os especialistas afirmam que os cuidados com manejo passam a ser ainda mais importantes dentro das propriedades.

José Zambrano destacou que o produtor precisa reduzir ao máximo situações que provoquem traumas musculares nos animais, já que isso favorece o desenvolvimento de mionecroses clostridiais.

Entre as recomendações citadas pelos veterinários estão:

  • evitar correria no curral;
  • reduzir pancadas e estresse;
  • revisar troncos e estruturas de manejo;
  • trocar agulhas frequentemente;
  • utilizar materiais limpos;
  • evitar aplicações intramusculares desnecessárias;
  • reforçar higiene de bebedouros;
  • retirar rapidamente carcaças das pastagens;
  • manter manejo alimentar adequado.

Flávio Caldeira fez ainda um alerta importante sobre aplicações intramusculares mal executadas, que podem aumentar o risco de mionecrose clostridial.

Segundo ele, sempre que possível, a aplicação subcutânea deve ser priorizada nesse momento crítico.

Diagnóstico correto pode evitar prejuízos ainda maiores

Outro ponto destacado pelos especialistas foi a importância da realização de necrópsias e diagnósticos corretos diante de mortes no rebanho.

Caldeira relatou casos em que produtores estavam tomando medidas equivocadas por não identificarem corretamente a origem das mortes dos animais.

Em um dos episódios citados durante o programa, um foco de raiva em Rondônia foi inicialmente confundido com clostridiose, atrasando as medidas sanitárias adequadas.

Já José Zambrano alertou que uma necrópsia mal realizada também pode gerar interpretações erradas, especialmente porque muitas carcaças sofrem alterações rápidas após a morte e podem ser confundidas com doenças clostridiais.

CNA cobra ações emergenciais do governo

Diante do agravamento da situação, a CNA pediu esclarecimentos ao Ministério da Agricultura sobre as medidas adotadas para distribuição das vacinas remanescentes e sobre as ações emergenciais para retomada da produção e do abastecimento dos imunobiológicos.

A entidade também defende maior articulação institucional para agilizar registros e permitir a entrada de novos fornecedores no mercado brasileiro.

Segundo informações do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), a expectativa é de que entre 120 e 140 milhões de doses sejam liberadas gradativamente a partir de maio, com possibilidade de normalização do abastecimento nos próximos três a quatro meses.

Enquanto isso, produtores seguem em alerta diante do risco sanitário crescente dentro das propriedades brasileiras.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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