Pecuaristas relatam prejuízos, atraso no confinamento e abandono por parte da Dechra após problemas envolvendo a vacina Excell 10; escassez de imunizantes já impacta planejamento das fazendas brasileiras
A escassez de vacinas contra clostridioses no Brasil tem provocado um cenário de preocupação crescente dentro da pecuária nacional. Em meio ao desabastecimento enfrentado por produtores de diferentes regiões do país, casos de mortes de animais associados ao uso da vacina Excell 10, da Dechra, ampliam o clima de insegurança sanitária no campo.
Em Minas Gerais, a situação ganhou contornos ainda mais graves após a morte de 13 animais da Fazenda Trigueiro, localizada no município de Leandro Ferreira. Segundo relatos do gerente da fazenda, Gustavo Andrade, os óbitos começaram a ocorrer após a aplicação da vacina Excell 10, utilizada há mais de uma década pela propriedade como parte do protocolo sanitário do rebanho.
Os primeiros casos surgiram em julho de 2025, quando animais passaram a apresentar inchaços severos na região da escápula, evoluindo rapidamente para morte mesmo após tentativas de tratamento com antibióticos e corticoides. Inicialmente, a suspeita recaiu sobre possíveis problemas nutricionais ou de manejo, mas a repetição dos sintomas em animais de diferentes sistemas de produção levantou outro alerta.

Após análise interna, a fazenda identificou um ponto em comum entre todos os bovinos mortos: todos haviam recebido, meses antes, o mesmo protocolo sanitário contendo a vacina Excell 10 contra clostridioses.
As mortes se repetiram ao longo de vários meses, atingindo animais em recria, pasto, sequestro e confinamento. Segundo o relatório elaborado pela própria fazenda, os casos ocorreram entre julho e novembro de 2025, totalizando 13 perdas confirmadas.
“Depois que o MAPA confirmou o erro, a empresa sumiu”, diz gerente
De acordo com Gustavo Andrade, a fazenda foi uma das primeiras de Minas Gerais a formalizar um SAC junto à Dechra relatando os problemas envolvendo a vacina. Ele afirma que, num primeiro momento, houve acompanhamento da empresa, inclusive com visita presencial do gerente regional.
“Trabalhamos durante mais de 10 anos com a vacina. No início, a empresa começou dando uma assistência boa, mandou o gerente comercial regional aqui na fazenda. Mas depois que o MAPA confirmou que o erro era no laboratório, a empresa sumiu”, relata.
Segundo Gustavo, desde então as tentativas de contato passaram a resultar apenas em respostas automáticas ou promessas de retorno por parte da seguradora.
“Mando mensagem para o SAC deles toda semana e a única resposta é que estão aguardando a seguradora. Tenho todo o histórico das conversas e das mortes dos animais”, afirma.
O gerente também relata frustração diante da ausência de suporte técnico mais efetivo durante o avanço dos casos. Em setembro de 2025, a fazenda chegou a solicitar o envio urgente de uma equipe técnica da empresa para coleta de materiais e análise de um animal ainda vivo, mas, segundo o relato, ninguém compareceu. O bovino morreu no dia seguinte.
Desabastecimento agrava crise sanitária nas fazendas
Além dos prejuízos provocados pelas mortes, a Fazenda Trigueiro passou a enfrentar outro problema: a dificuldade para encontrar vacinas substitutas no mercado brasileiro.
Após abandonar o uso da Excell 10, a propriedade precisou migrar para outro fornecedor em meio ao cenário nacional de escassez de imunizantes contra clostridioses. O resultado foi aumento de custos e impactos diretos no planejamento produtivo.
“Sempre trabalhamos com todos os animais vacinados contra clostridiose. Depois do fato com a Excell tivemos que mudar de empresa fornecedora e já houve aumento superior a 20% no custo da vacinação”, relata Gustavo Andrade.
Segundo ele, a situação se agravou em 2026, quando a falta de doses começou a comprometer até mesmo o cronograma operacional da fazenda. “Tivemos que esperar mais 30 dias para entrar com os animais no confinamento porque não conseguíamos vacina no mercado. Para nós é crucial que todos os animais entrem no cocho vacinados contra clostridiose.”
O atraso impactou diretamente a estratégia nutricional e de lotação da propriedade. Os animais permaneceram mais tempo a pasto, afetando a programação de abate e o planejamento forrageiro para o período seco.
Em um dos lotes finais, Gustavo afirma que a fazenda conseguiu encontrar apenas vacina contra botulismo, sem cobertura completa para outras clostridioses.
“Tive que fechar esse lote no confinamento mesmo sabendo dos riscos das outras clostridioses”, disse.
Problema afeta pecuária intensiva em todo o país
A preocupação não se restringe à Fazenda Trigueiro. Produtores de sistemas intensivos de recria e confinamento relatam dificuldades semelhantes em diferentes estados brasileiros.
As clostridioses estão entre as enfermidades de maior impacto econômico na pecuária de corte, especialmente em sistemas de alto desempenho. Doenças como botulismo, carbúnculo sintomático e enterotoxemias podem provocar mortes súbitas e severas perdas produtivas.
Por isso, a vacinação é considerada uma das principais ferramentas sanitárias da pecuária moderna, principalmente em confinamentos, onde os riscos metabólicos e nutricionais são mais elevados.
Para muitos pecuaristas, o atual cenário representa um dos momentos mais delicados dos últimos anos no abastecimento de imunizantes veterinários.
MAPA reconhece desabastecimento nacional
Em nota oficial, o Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou que o Brasil enfrenta um cenário de desabastecimento de vacinas contra clostridioses.
Segundo o órgão, o problema decorre principalmente de “decisões mercadológicas adotadas por fabricantes, que descontinuaram a produção e a comercialização desses imunizantes entre o final de 2025 e janeiro de 2026”.
O Ministério informou ainda que vem adotando medidas emergenciais para ampliar a fabricação nacional e acelerar processos de importação e liberação de vacinas.
De acordo com o MAPA, foram liberadas 14,6 milhões de doses entre março e abril de 2026, sendo 63% de fabricação nacional e 37% importadas. A expectativa é liberar outros 10 milhões de doses ainda em maio.
O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) projeta disponibilidade mensal entre 8 milhões e 10 milhões de doses até dezembro, podendo ultrapassar 100 milhões de doses até o fim do ano.
Dechra anuncia encerramento de fábrica no Brasil
Em comunicado oficial à imprensa, a Dechra informou o encerramento permanente das atividades de fabricação em sua unidade de Londrina, no Paraná.
Segundo a empresa, a decisão ocorreu após uma “revisão estratégica” e está alinhada ao foco global da companhia no segmento de animais de companhia.
A empresa afirmou ainda que comunicou formalmente o encerramento ao MAPA e ao sindicato laboral, acrescentando que continuará atuando comercialmente no Brasil apenas com produtos voltados ao mercado pet.
Enquanto isso, produtores afetados seguem aguardando respostas e possíveis ressarcimentos pelos prejuízos registrados no campo.
Na Fazenda Trigueiro, o sentimento é de abandono após anos de parceria comercial. “Esperávamos que a empresa, num incidente como esse, nos desse um apoio maior quanto aos prejuízos causados na fazenda”, afirma Gustavo Andrade.
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