União Europeia, escalas confortáveis e consumo mais fraco na segunda quinzena ampliam pressão sobre a arroba; mercado do boi gordo segue dividido entre exportações fortes e cautela doméstica
O mercado do boi gordo voltou a operar sob forte pressão nesta terça-feira (12), em um cenário marcado pela combinação de fatores internos e externos que já começam a impactar diretamente os preços da arroba em importantes praças pecuárias do país. Entre os principais pontos de atenção estão a postura da União Europeia em relação à carne brasileira, o aumento das escalas de abate dos frigoríficos e o comportamento mais cauteloso da demanda doméstica na segunda metade do mês.
Em São Paulo, referência nacional para a pecuária de corte, os frigoríficos intensificaram as tentativas de compra em patamares mais baixos, aproveitando o aumento gradual da oferta de animais terminados e escalas mais confortáveis. O movimento levou a novas quedas nos preços, especialmente para o chamado “boi-China”, categoria voltada à exportação.
De acordo com levantamento da Scot Consultoria, a arroba do boi comum caiu R$ 2/@ no mercado paulista, passando a valer R$ 353/@, enquanto o “boi-China” recuou para R$ 358/@, valores brutos e a prazo. Já a Agrifatto apontou o boi comum em R$ 350/@ e o animal padrão-exportação em R$ 360/@, demonstrando um mercado ainda heterogêneo entre regiões e compradores.
Ao mesmo tempo, uma notícia vinda da Europa aumentou o clima de cautela no setor. Segundo análise da Safras & Mercado, a União Europeia indicou que poderá deixar de comprar produtos de origem animal do Brasil a partir de setembro, diante de incertezas relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção pecuária brasileira.
Embora especialistas avaliem que o Brasil ainda tenha margem para cumprir exigências documentais e evitar uma suspensão efetiva, o anúncio já provocou reflexos psicológicos e comerciais no mercado físico do boi gordo. O temor é que qualquer restrição sanitária ou comercial envolvendo a Europa possa aumentar a dependência brasileira do mercado chinês justamente em um momento de maior sensibilidade internacional.
Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, destacou que o setor atravessa uma fase de notícias conflitantes. Além da questão europeia, o mercado acompanha também os desdobramentos nos Estados Unidos. Segundo ele, houve aparente recuo do presidente Donald Trump em medidas voltadas ao aumento das importações de carne bovina após pressão de pecuaristas norte-americanos.
Escalas de abate avançam e frigoríficos ganham força nas negociações
Outro fator importante para o recuo da arroba é o avanço das escalas de abate. Em São Paulo, as programações das indústrias já alcançam cerca de 10 dias úteis, patamar considerado confortável para os frigoríficos.
Com maior tranquilidade operacional, as plantas frigoríficas passaram a atuar de maneira mais seletiva, comprando apenas quando encontram oportunidades em valores inferiores aos pedidos pelos pecuaristas.
Segundo a Agrifatto, algumas unidades chegaram a ficar temporariamente fora das compras no início da semana, justamente para avaliar estratégias e pressionar o mercado no curtíssimo prazo.
Apesar disso, nem todas as regiões apresentam o mesmo comportamento. Estados como Tocantins, Pará e Rondônia ainda mantêm preços mais firmes devido à menor oferta relativa de animais terminados. Já Minas Gerais e Goiás enfrentam avanço mais intenso da seca, o que começa a comprometer a qualidade das pastagens naturais e influencia a dinâmica regional da oferta.
Exportações continuam sustentando parte do mercado do boi gordo
Mesmo com o viés baixista predominando nas negociações internas, o mercado segue encontrando sustentação parcial no forte desempenho das exportações brasileiras de carne bovina.
Analistas avaliam que os embarques continuam em volumes elevados, evitando quedas ainda mais acentuadas na arroba. Esse fator mantém parte dos pecuaristas resistentes em aceitar reduções mais agressivas nos preços.
A própria Agrifatto destaca que o mercado do boi gordo atualmente está dividido entre duas forças: de um lado, o excelente ritmo das exportações; do outro, o enfraquecimento gradual do consumo doméstico na segunda quinzena do mês.
Historicamente, o consumo interno perde intensidade após o esgotamento dos salários recebidos no início do mês, o que reduz o espaço para reajustes positivos na carne bovina no atacado.
Carne bovina perde competitividade frente ao frango
No mercado atacadista, os preços da carne bovina mostraram acomodação, reforçando a percepção de menor força da demanda neste momento. Segundo a Safras & Mercado, a competitividade da proteína bovina continua comprometida frente às carnes concorrentes, especialmente o frango.
Os cortes bovinos permaneceram praticamente estáveis:
- Quarto traseiro: R$ 27,50/kg
- Quarto dianteiro: R$ 21,50/kg
- Ponta de agulha: R$ 20,00/kg
Esse cenário reforça a cautela dos frigoríficos na compra de novas boiadas, já que margens industriais seguem apertadas em parte do mercado interno.
Veja os preços médios da arroba nas principais praças
Segundo levantamento da Safras & Mercado, os preços médios da arroba do boi gordo fecharam o dia nos seguintes níveis:
- São Paulo: R$ 349,67
- Goiás: R$ 330,54
- Minas Gerais: R$ 334,71
- Mato Grosso do Sul: R$ 348,86
- Mato Grosso: R$ 357,50
Em Mato Grosso, o mercado segue relativamente mais firme devido ao forte ritmo das exportações e à boa demanda por animais padrão-exportação.
Mercado segue atento aos próximos movimentos globais
A pecuária brasileira entra agora em um momento decisivo, acompanhando simultaneamente fatores climáticos, comportamento das exportações, avanço das escalas de abate e possíveis mudanças no comércio internacional.
O setor observa com atenção tanto a posição da União Europeia quanto eventuais alterações na política de importação dos Estados Unidos, além do comportamento da China, principal destino da carne bovina brasileira.
Enquanto isso, no curto prazo, a tendência ainda aponta para um mercado pressionado, com frigoríficos seletivos nas compras e pecuaristas tentando defender preços em meio a um cenário de elevada volatilidade.
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