Segundo a Fundação Getúlio Vargas, que trabalha em parceria com academia chinesa em estudos na cadeia agropecuária brasileira, a China está disposta a pagar mais pela carne, mas aquela livre de desmatamento
As exportações totais de carne bovina em abril atingiram 252.643 toneladas em 2024, e foram a terceira melhor movimentação da história, só perdendo para novembro de 2023, com 256 mil toneladas e para o recorde de dezembro de 2023 com 282.514 toneladas, segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (ABRAFRIGO), com base em dados compilados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Outro ponto positivo para o Brasil, é que a China – principal destino do produto brasileiro – está disposta a pagar mais pela carne, mas com uma condição.
Os chineses estão dispostos a pagar mais pela carne brasileira, mas aquela livre de desmatamento. Neste quesito, um dos desafios é a rastreabilidade. Para tanto, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) coordena um estudo juntamente com o país asiático para fortalecer dados da cadeia agropecuária brasileira.
Neste cenário, de acordo com o professor da instituição, Leonardo Munhoz, há uma tendência no contexto das medidas ambientais do comércio internacional de valorizar produtos sustentáveis. “O consumidor está tendo uma ética ambiental mais apurada, mais preocupado com as preservações ambientais em sua relação de consumo”, afirmou em entrevista ao Planeta Campo.
Os chineses já estão trabalhando em parceria com a FGV, em um estudo sobre dados da cadeia produtiva da pecuária.
Sendo assim, conforme apontou Munhoz em entrevista, a iniciativa em parceria com a Academia Chinesa de Estudos Agrários e com a TNC, a FGV está realizando um projeto para verificar a rastreabilidade e sustentabilidade da cadeia de pecuária no Brasil para viés de exportação e verificação desses produtos agropecuários. “O professor e pesquisador dessa academia, Kevin Cheng, levantou dados muitos importantes e interessantes nesse assunto, de que o consumidor chinês, especialmente do mercado de Pequim e de Xangai, estaria interessado e disposto a pagar um premium, um valor a mais por essa carne, desde que ela seja comprovadamente livre de desmatamento”, apontou.
Essa é uma tendência observável no contexto das políticas ambientais e no comércio global, onde se nota que os consumidores estão adotando uma ética ambiental mais rigorosa e mais voltada para a conservação do meio ambiente em suas práticas de consumo. Nesse aspecto, a disposição da China em pagar um adicional pelo produto carne, contanto que seja proveniente de fazendas que mantenham suas Áreas de Preservação Permanente (APPs) e reservas legais intactas e livres de desmatamento, reflete uma abordagem que prioriza os mecanismos de mercado, correto?
“Uma iniciativa de autorregulação do produtor para que ele tenha um benefício financeiro para que aquela área seja preservada. Ou seja, a China está adotando uma medida para o mercado, para os mecanismos de autorregulação por parte do produtor. Por outro lado, uma comparação inevitável fica com a União Europeia. União Europeia está passando a sua lei anti-Desmatamento, que foi aprovada pelo Parlamento Europeu em ambas as casas do Parlamento“, explica o professor da FGV.

Esta é uma normativa, uma regulamentação que será implementada ao final deste ano, especificamente no dia 31 de dezembro de 2024. Trata-se de uma legislação que proibirá a importação e a venda de produtos agrícolas provenientes de áreas desmatadas. Desta forma, é possível observar que ambas as medidas, a europeia e a chinesa, compartilham a mesma finalidade: prevenir o desmatamento. No entanto, elas adotam métodos e perspectivas diferentes para a proteção e conservação ambiental.
Se, por um lado a China optou por uma abordagem de incentivo, oferecendo um valor adicional por carne de procedência sustentável. Em contrapartida, a União Europeia está empregando uma estratégia de comando e controle, isto é, utilizando o poder regulatório do Estado para proibir o comércio desses produtos. Assim, percebe-se uma tendência no comércio internacional de focar na prevenção do desmatamento, com os países empregando estratégias distintas para alcançar o mesmo objetivo.

Ele questiona qual seria a melhor tática no momento, abordando pontos importantes e de atenção em cada proposta. “Agora é o seguinte, ver qual tática será mais bem sucedida ou se qual será as vantagens e desvantagens de cada tática, certo? A União Europeia, por si só, nessa medida, já levanta alguns pontos de preocupação e de dúvida com relação às normas ambientais na OMC, na Organização Mundial do Comércio, já que tem um precedente e um histórico de precedentes na OMC de que as normas ambientais e domésticas de um país tem soberania.“
“Um país tem soberania sobre os seus recursos naturais e como lidar com eles? E a União Europeia com essa norma, estaria interferindo na gestão dos recursos naturais dentro de um país? Outro ponto curioso também dessas duas abordagens é que a União Europeia, ao cobrar esse requisito ambiental, ela estaria impondo um custo extra de produção e, com essa fiscalização, esse custo extra seria repassado para o final da cadeia. Nesse sentido, os pequenos produtores teriam mais dificuldade em cumprir esses requisitos do que o grande produtor. Então você estaria criando situações injustas, principalmente com o pequeno produtor”, continua sobre o comparativo dos projetos em relação as politicas anti desmatamento.
Para finalizar, o pesquisador e professor da FGV, aponta alguns novos benefícios para a cadeia produtiva nesse cenário da preservação ambiental aliada a produção. “Esse estudo do professor Cheng sobre a vontade dos chineses de pagar um valor mais caro por um produto que venha certificado livre de desmatamento, ele abre uma janela de oportunidades e de novas linhas de preservação ambiental, evitando esses problemas ou essas dúvidas, com uma abordagem meramente de comando e controle por parte da União Europeia, como por exemplo, a sua norma de desmatamento vem criando com relação a normas nacionais de outros países exportadores e também na OMC“, finalizou.

China e a importação de carne
No total, os chineses já importaram ao redor de 1 milhão de toneladas de carne vermelha no quadrimestre de 2024, o maior número já divulgado pelo governo chinês, informa a Agrifatto. Porém, os importadores da China continuam reduzindo os preços da carne bovina importada. “A demanda é boa, mas os preços continuam abaixo do esperado”, ressaltam os analistas da Agrifatto.
Segundo a consultoria, as últimas ofertas da China para compra de dianteiro brasileiro ficaram em torno de US$ 4.100/tonelada, “um valor bem menor do que os exportadores gostariam, mas que, diante da pressão de oferta atual, está tendo efetividade”.
Seria então a “bonificação” pela carne livre de desmatamento um meio encontrado para o pecuarista brasileiro obter melhores preços pagos pela arroba dos animais para abate? Qual seria o reflexo desse montante na cadeia produtiva brasileira? Essas repostas somente o tempo e o futuro, não muito distante, será capaz de responder.
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