Brasil pode multiplicar por cinco área irrigada, revela estudo inédito

Levantamento inédito conduzido pela ABIMAQ em parceria com a USP/ESALQ mostra que Brasil pode multiplicar por cinco área irrigada e transformar a renda no meio rural, elevar o PIB agropecuário e reduzir desigualdades regionais em polos produtivos brasileiros

O Brasil possui hoje uma das maiores fronteiras agrícolas do planeta, mas um estudo inédito divulgado pela ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) em parceria com pesquisadores da USP/ESALQ revelou que o país ainda explora apenas uma pequena parcela do seu verdadeiro potencial quando o assunto é agricultura irrigada — e o espaço para crescimento impressiona.

Segundo o levantamento, o território brasileiro atualmente possui cerca de 8,2 milhões de hectares equipados para irrigação, mas esse número poderia avançar para mais de 55,8 milhões de hectares, o que representa uma capacidade de expansão superior a cinco vezes o tamanho da área irrigada atual. Boa parte desse potencial está em áreas hoje ocupadas por pastagens, que representam aproximadamente 48% dessa área disponível.

Mais do que aumentar a produção agrícola, o estudo mostra que ampliar o uso da irrigação pode provocar uma transformação econômica e social profunda no campo brasileiro.

Irrigação muda a realidade econômica de municípios rurais

A pesquisa analisou polos agrícolas com forte presença de irrigação em estados estratégicos como Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, e os resultados mostram diferenças significativas quando comparados a municípios rurais sem forte presença dessa tecnologia.

Nos polos irrigados, os trabalhadores recebem remunerações significativamente maiores. Na Bahia, por exemplo, a renda média registrada nesses municípios é 68,6% superior em comparação com outras regiões rurais do estado. Em Minas Gerais, o ganho chega a 42,85%, enquanto no Rio Grande do Sul e Mato Grosso os aumentos são de 11,96% e 8,13%, respectivamente.

Na prática, os dados reforçam uma tese cada vez mais discutida dentro do agronegócio: a irrigação deixou de ser apenas uma ferramenta para garantir produção em períodos de seca e passou a ser um dos principais motores de eficiência econômica dentro da propriedade rural.

PIB do agro pode disparar com expansão da tecnologia

Um dos dados que mais chamou atenção dos pesquisadores foi o impacto da irrigação sobre a riqueza gerada nas regiões analisadas.

De acordo com o estudo, municípios inseridos em polos irrigados apresentam PIB per capita até 256% superior quando comparados a outras cidades rurais dos mesmos estados. Em Mato Grosso, por exemplo, esse valor ultrapassa R$ 182 mil por habitante, um dos maiores níveis identificados em todo o levantamento.

Na avaliação dos pesquisadores, isso acontece porque a irrigação permite maior previsibilidade produtiva, intensificação de cultivos, aumento da produtividade por hectare e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis dentro da propriedade.

Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, essa previsibilidade passa a ser um diferencial estratégico.

Cada nova área irrigada gera empregos e movimenta milhões

O impacto econômico direto também aparece nas projeções feitas pela pesquisa.

As simulações mostram que cada expansão de aproximadamente 1.600 hectares irrigados pode gerar, no curto prazo, um aumento de R$ 8,27 milhões no valor adicionado bruto da agropecuária, além da criação de empregos formais nas regiões beneficiadas.

No longo prazo, esse impacto econômico pode chegar próximo de R$ 14 milhões, mostrando que os efeitos da irrigação não ficam restritos apenas dentro da porteira, mas reverberam em toda a economia local.

Isso inclui geração de renda, fortalecimento do comércio regional, aumento na demanda por serviços e maior circulação econômica em municípios fortemente dependentes da atividade agropecuária.

Menos dependência social e desenvolvimento regional mais acelerado

Outro dado relevante levantado pela pesquisa mostra que municípios irrigados apresentam indicadores sociais melhores quando comparados a outras regiões rurais.

Em Mato Grosso, por exemplo, o percentual de famílias dependentes de programas de transferência de renda é cerca de 50% menor do que em municípios sem forte presença da agricultura irrigada.

Na leitura dos especialistas envolvidos no estudo, isso mostra que investimentos em infraestrutura produtiva no campo possuem capacidade real de reduzir desigualdades regionais e acelerar o desenvolvimento econômico de áreas historicamente menos favorecidas.

Os quatro desafios para o Brasil destravar o potencial da irrigação

Apesar do enorme potencial identificado, o estudo também aponta que a expansão da irrigação brasileira depende de uma agenda estruturada entre setor público e iniciativa privada.

Os pesquisadores listam quatro pilares considerados fundamentais para acelerar esse avanço:

  • Acesso a energia elétrica com custo competitivo
  • Formação de mão de obra especializada
  • Gestão eficiente dos recursos hídricos
  • Expansão da conectividade no meio rural

Sem esses fatores, o país pode continuar distante de aproveitar uma das maiores oportunidades de aumento sustentável da produção agropecuária nas próximas décadas.

Irrigação ganha papel estratégico diante das mudanças climáticas

Segundo Luiz Paulo Heimpel, vice-presidente da Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação da ABIMAQ, os dados confirmam que a irrigação tende a assumir papel ainda mais estratégico dentro do agronegócio brasileiro.

A avaliação do setor é que, diante da maior frequência de eventos climáticos extremos, a tecnologia passa a representar segurança produtiva, maior eficiência no uso dos recursos e uma ferramenta essencial para garantir segurança alimentar no futuro.

Em outras palavras, o estudo reforça uma mensagem que vem ganhando força dentro do agro: o futuro da produtividade no Brasil passa diretamente pela capacidade do país de ampliar seus investimentos em irrigação.

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