Queda na produção de ovos e perda de plumagem afetam a rentabilidade das granjas; pesquisadores da Embrapa e consultores de mercado apontam as causas e indicam soluções de manejo de luz, nutrição e sanidade
O manejo de aves de postura exige um equilíbrio cirúrgico entre nutrição, ambiente e sanidade. Para o avicultor, poucas situações geram tanta incerteza quanto a queda repentina na produção de ovos acompanhada pela perda de plumagem no lote.
Quando as galinhas param de botar e começam a perder penas, o impacto no fluxo de caixa de pequenas e médias granjas é imediato. Longe de ser um mistério, esse cenário é amplamente estudado por cientistas e consultores de campo, que apontam causas que vão desde ciclos biológicos inevitáveis até falhas invisíveis de manejo nutricional e sanitário.
Por que as galinhas param de botar durante a muda?
O principal motivo por trás desse fenômeno é a muda de penas, um processo fisiológico natural, cíclico e de alto custo energético para a ave. De acordo com pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, a muda ocorre prioritariamente nos meses de outono e inverno, desencadeada pela redução do fotoperíodo, que significa a quantidade de horas de luz diária.
Sob a perspectiva hormonal, a diminuição da luz estimula a liberação de prolactina e reduz a produção de hormônios gonadotróficos, responsáveis pela ovulação. Biologicamente, a prioridade da ave muda, de modo que a síntese de queratina para a formação de novas penas se sobrepõe à produção de ovos. Como o ovo e a pena demandam altos teores de proteína, especialmente aminoácidos sulfurados como metionina e cistina, o organismo da ave cessa a postura para se recuperar. Este descanso biológico costuma durar entre 6 e 12 semanas, dependendo da genética do lote.
Nutrição de precisão e o impacto das micotoxinas no lote
A nutrição inadequada é a segunda causa mais frequente para o problema. Segundo consultores em nutrição animal da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), erros no balanceamento da ração forçam a ave a catabolizar as próprias reservas corporais. Uma poedeira comercial moderna necessita de níveis estritos de proteína bruta, variando entre 16% e 18%, além de níveis elevados de cálcio, acima de 3,5% a 4,2%, para manter a integridade óssea, das penas e a formação da casca do ovo.
Além do deficit de nutrientes, especialistas alertam para uma ameaça silenciosa: as micotoxinas. Rações armazenadas de forma inadequada ou produzidas com grãos contaminados por fungos, a exemplo dos gêneros Aspergillus e Fusarium, introduzem toxinas no organismo da ave. Micotoxinas como a zearalenona e as aflatoxinas causam lesões hepáticas gravíssimas e atrofia do trato reprodutivo. O resultado clínico é direto: as galinhas param de botar abruptamente, apresentam queda de imunidade e perdem a qualidade de suas penas devido à má absorção crônica de nutrientes.
Estresse ambiental e manejo de luz na avicultura moderna

O ambiente desempenha um papel regulador na fisiologia aviária. Especialistas em ambiência da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) destacam que as aves são animais altamente sensíveis ao estresse térmico e luminoso.
Para manter a postura constante, plantéis comerciais necessitam de um fotoperíodo de 14 a 16 horas de luz contínua, somando a luz natural e a artificial. Em propriedades onde não há um programa de luz artificial programado por temporizadores, a chegada dos dias mais curtos do ano faz com que as galinhas param de botar.
Somado a isso, variações térmicas extremas, como as ondas de calor ou frentes frias intensas, elevam os níveis de cortisol no sangue das aves. O cortisol alto inibe o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, paralisando o ciclo reprodutivo e induzindo o estresse de bicagem, também conhecido como canibalismo, onde as próprias aves arrancam as penas umas das outras.
O perigo oculto dos ectoparasitas
A integridade do lote também pode ser severamente comprometida por fatores sanitários. Médicos veterinários especializados em patologia aviária alertam para a incidência do ácaro vermelho (Dermanyssus gallinae), popularmente conhecido como piolho-de-galinha.
Infestações severas provocam anemia profunda, irritação contínua e desconforto extremo. Para aliviar a coceira intensa, as aves se coçam agressivamente e arrancam a própria plumagem. Devido ao estresse e à espoliação sanguínea causados pelo parasita, os índices de produtividade despencam e as galinhas param de botar.
Estratégias práticas para quando as galinhas param de botar
Para reverter o quadro e proteger a rentabilidade do negócio, o produtor deve adotar um protocolo de manejo integrado recomendado por especialistas do setor:
- Suplementação Estratégica na Muda: Durante o período de troca de penas, adicione aminoácidos sulfurados, como a metionina, e complexos vitamínicos com vitaminas A, D3 e E na água ou na ração para acelerar a síntese de queratina.
- Automação do Programa de Luz: Instale lâmpadas LED com temporizadores nos galpões, garantindo o fornecimento linear de 15 horas de luz diária, mitigando o efeito da sazonalidade do inverno.
- Controle Rigoroso de Micotoxinas: Utilize sequestrantes de micotoxinas de base tecnológica, como as paredes celulares de leveduras, diretamente na mistura da ração para neutralizar os fungos dos grãos.
- Protocolo de Biosseguridade: Realize o vazio sanitário programado e aplique tratamentos acaricidas específicos nas instalações, focando em frestas e ninhos, para erradicar focos de ectoparasitas.
Compreender que a interrupção da postura e a perda de penas são respostas biológicas a estímulos internos e externos permite ao avicultor agir de forma preditiva, restabelecendo os índices produtivos e a saúde do plantel com máxima eficiência.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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