Após anos de euforia, empresas de ‘carne fake’ que prometeram substituir a pecuária acumulam prejuízos, perdem valor de mercado e enfrentam a resistência de consumidores que continuam escolhendo a carne tradicional
Durante alguns anos, o mundo assistiu ao nascimento de uma das narrativas mais ambiciosas da indústria global de alimentos. A promessa parecia irresistível: reproduzir o sabor, a textura e a experiência da carne bovina sem a necessidade de criar ou abater animais. Investidores, celebridades, fundos de investimento e parte da imprensa abraçaram a ideia como uma revolução inevitável.
Mas a revolução anunciada não aconteceu.
Hoje, diversas empresas que simbolizavam o futuro da alimentação enfrentam um cenário muito diferente daquele vendido ao mercado. Queda nas vendas, desvalorização bilionária, fechamento de operações e consumidores cada vez mais céticos transformaram o que parecia uma mudança irreversível em um dos maiores reveses corporativos da última década.
Para a médica veterinária, economista, pecuarista e CEO da AgriFatto, Lygia Pimentel, o erro começou na própria narrativa construída em torno desses produtos. “Em 2019, o mundo parecia ter encontrado o santo graal da alimentação. A promessa era audaciosa. O mesmo gosto, a mesma textura, mas sem matar uma única vaca“, afirma.
Segundo ela, empresas como Beyond Meat, Impossible Foods e Futuro Burger deixaram de ser vistas apenas como fabricantes de alimentos para assumir o papel de protagonistas de uma transformação global. “Não eram apenas empresas de comida. Eram tratadas como gigantes do Vale do Silício que iriam salvar o planeta.“ 
A febre do ouro verde
O entusiasmo atingiu seu ápice em 2019, quando a Beyond Meat realizou sua oferta pública de ações nos Estados Unidos. O desempenho foi histórico. Os papéis dispararam mais de 160% no primeiro dia de negociação, alimentando a crença de que a proteína animal estaria com os dias contados.
Bilhões de dólares foram direcionados para startups e empresas do segmento. Relatórios de mercado projetavam um avanço acelerado das proteínas alternativas e alguns analistas chegaram a prever que a carne bovina perderia espaço de forma significativa ao longo da década seguinte.
Para Lygia, naquele momento o mercado passou a acreditar mais na narrativa do que no comportamento real do consumidor. “Era a febre do ouro verde. Analistas diziam que em dez anos a carne bovina seria um item de luxo em extinção. Mas esqueceram de combinar um detalhe com o consumidor: a realidade.”

O choque entre marketing e a lista de ingredientes
A primeira grande barreira surgiu justamente onde as empresas prometiam vantagem: a percepção de saúde.
Os produtos eram apresentados como alternativas modernas, sustentáveis e mais saudáveis do que a carne tradicional. No entanto, à medida que os consumidores passaram a observar os rótulos, surgiram questionamentos sobre o grau de processamento e a composição dos produtos.
“Mesmo com o marketing que fazia a embalagem parecer a de um iPhone, a propaganda bateu de frente com a tabela nutricional”, diz Lygia.
Segundo ela, muitos consumidores passaram a enxergar uma contradição entre a imagem vendida e a realidade dos ingredientes utilizados.
“O público percebeu que para imitar um bife, essas empresas criaram laboratórios químicos dentro de um pão. Óleo de canola, metilcelulose, excesso de sódio. De repente, a alternativa saudável parecia mais um experimento industrial do que comida de verdade.”
Quando a promessa saudável encontrou a ciência
A crise das carnes vegetais não se explica apenas por questões de preço ou sabor. Nos últimos anos, uma crescente quantidade de estudos científicos passou a questionar justamente um dos pilares da narrativa construída por essas empresas: a ideia de que seus produtos seriam uma alternativa mais saudável à carne tradicional.
Grande parte dos hambúrgueres vegetais que ganharam espaço nas gôndolas é classificada como alimento ultraprocessado, categoria composta por produtos formulados industrialmente com ingredientes refinados, aditivos, aromatizantes, emulsificantes, estabilizantes e conservantes.
Uma das maiores revisões científicas já realizadas sobre o tema, envolvendo aproximadamente 10 milhões de pessoas em diferentes países, identificou associação entre o consumo elevado de alimentos ultraprocessados e 32 desfechos negativos para a saúde. Entre eles estão doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, alguns tipos de câncer, transtornos de saúde mental e maior risco de mortalidade precoce.
Os pesquisadores alertam que muitos desses produtos apresentam elevadas concentrações de sódio, gorduras refinadas e aditivos utilizados para reproduzir características sensoriais que naturalmente não estariam presentes nos ingredientes originais.
Outro levantamento apontou que o consumo excessivo de ultraprocessados pode estar relacionado a dezenas de milhares de mortes prematuras anualmente apenas no Brasil, reforçando a preocupação crescente de autoridades de saúde pública em relação à expansão dessa categoria de alimentos.
Para críticos do movimento das proteínas vegetais industrializadas, foi justamente nesse ponto que a narrativa começou a perder força. Afinal, se a promessa era substituir um alimento tradicional por uma opção mais saudável, por que o substituto dependia de uma formulação industrial complexa para reproduzir cor, textura, aroma e sabor?
A pergunta passou a ser feita não apenas por pecuaristas ou especialistas do setor, mas pelos próprios consumidores.
O consumidor fez as contas
Além das dúvidas sobre processamento e qualidade nutricional, outro fator pesou decisivamente: o preço. Em muitos mercados, os produtos vegetais continuaram custando significativamente mais que a carne convencional. Em um cenário global marcado por inflação elevada e perda de poder de compra, a proposta encontrou dificuldades para ganhar escala.
“E o bolso sentiu. Quem pagaria o triplo pelo substituto que não entrega o prazer que a carne verdadeira entrega?”, questiona Lygia.
O resultado apareceu rapidamente nos balanços financeiros.
“Foi um banho de sangue financeiro.”
As ações da Beyond Meat despencaram ao longo dos anos seguintes, eliminando a maior parte do valor de mercado acumulado durante a fase de euforia. Empresas que chegaram a ser apresentadas como símbolos do futuro passaram a anunciar cortes de custos, demissões e sucessivas reestruturações.
“Bilhões em valor de mercado evaporaram. A empresa que valia mais do que grandes redes de hotéis hoje luta para manter as luzes acesas.”
Enquanto isso, o consumo de carne continuou crescendo
Talvez o dado mais desconfortável para os defensores da substituição total da proteína animal seja que o consumo global de carnes continuou avançando.
Em mercados emergentes, especialmente na Ásia, o aumento da renda impulsionou a demanda por proteína animal. Carne bovina, carne suína e carne de frango seguem ampliando participação na dieta de bilhões de pessoas.
“Enquanto o marketing vegano tentava emplacar sua tese, o mundo real seguia outra direção”, afirma Lygia.
Ela cita o caso chinês como exemplo do crescimento da demanda por proteína animal ao longo das últimas décadas.
“A lição é dura: ideologia e propaganda programada não substituem a realidade do paladar, do preço e, por fim, da nutrição.”
O fim da pecuária nunca aconteceu
A grande promessa que impulsionou bilhões de dólares em investimentos era a substituição gradual da pecuária convencional por produtos desenvolvidos em laboratórios e fábricas de alimentos altamente processados.
Sete anos depois do auge da euforia, esse cenário parece muito distante.
A pecuária mundial continua crescendo, ampliando produtividade, investindo em genética, nutrição, sanidade e sustentabilidade para atender uma demanda global cada vez maior por proteína animal.
Para Lygia Pimentel, o principal erro foi acreditar que uma inovação tecnológica seria capaz de substituir rapidamente um alimento presente na história humana há milhares de anos.
“A tese da substituição global da carne ruiu porque tentou lutar contra milênios de evolução humana com um produto de laboratório caro e sem alma.”
Mais do que uma crise empresarial, o colapso das expectativas em torno das carnes vegetais revela uma lição de mercado frequentemente ignorada por investidores e futuristas: tecnologia pode transformar hábitos, mas dificilmente substitui de forma instantânea fatores como cultura, tradição, prazer alimentar, preço e percepção de valor.
E conclui com uma frase que sintetiza a mudança de rumo observada no setor:
“O churrasco de domingo nunca esteve tão seguro.”
A pergunta que permanece aberta é justamente aquela que hoje ecoa entre investidores, executivos e fundos que apostaram bilhões na revolução das proteínas alternativas:
Quem pagou a conta desse erro bilionário?
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