Calor extremo mata milhares de animais e já ameaça produção de alimentos na Europa

França enfrenta temperaturas acima de 40°C, registra milhares de mortes de aves, queda na produção de leite e acende um alerta global sobre os impactos climáticos no agro.

A forte onda de calor que atinge a Europa colocou a agropecuária francesa em uma situação crítica e expôs, de forma brutal, como eventos climáticos extremos podem impactar diretamente a produção de alimentos. Com temperaturas que chegaram a ultrapassar 44°C em algumas regiões, produtores relatam mortes em massa de aves, queda expressiva na produção de leite, risco de incêndios em lavouras e perdas crescentes nas colheitas.

Entre os casos mais graves está o do produtor Stephane Delapre, em Beauvoir-sur-Mer, no oeste francês. Criador de cerca de 17.500 galinhas caipiras e 70 mil codornas, ele relatou que metade das galinhas morreu sufocada em apenas um dia, mesmo após instalar ventiladores extras nos galpões. Segundo o agricultor, em mais de quatro décadas no setor, nunca havia presenciado algo semelhante.

A situação se agravou a ponto de os serviços responsáveis pela coleta de carcaças não conseguirem acompanhar o volume de mortes. Autoridades locais passaram a avaliar autorizações emergenciais para permitir o enterro dos animais dentro das propriedades, algo raro nos rígidos protocolos sanitários europeus.

Segundo Yann Nedelec, representante da associação avícola francesa ANVOL, pelo menos centenas de milhares de aves já morreram nas principais regiões produtoras da França, especialmente em Bretanha e Pays de la Loire, responsáveis por quase 60% do plantel avícola do país.

Outro produtor afetado foi Clément Blanchard, de 32 anos, que perdeu cerca de 700 galinhas em poucos dias, quando o normal seria uma ou duas mortes diárias. O calor extremo elevou drasticamente as taxas de mortalidade dentro das granjas francesas.

A pecuária leiteira também entrou em estado de alerta. O produtor Regis Bonnin, responsável por um rebanho de 120 vacas leiteiras, precisou instalar sistemas de nebulização para tentar reduzir o calor sobre os animais.

Mesmo assim, as vacas passaram a produzir entre 4 e 5 litros de leite a menos por dia por animal. Além disso, ele já perdeu uma novilha que apresentava problemas pulmonares e teme impactos futuros na fertilidade do rebanho.

Outro pecuarista, Frederic Vincent, relatou que a produção leiteira caiu entre 15% e 20%, enquanto os animais permanecem praticamente imóveis sob ventiladores, tentando suportar as altas temperaturas.

Especialistas explicam que o calor excessivo provoca redução no consumo de alimento, aumento na demanda por água e forte queda no desempenho produtivo dos animais, fenômeno conhecido no setor como estresse térmico.

Nas lavouras, o cenário também é alarmante.

Com o solo extremamente seco, agricultores franceses passaram a colher trigo, cevada e colza apenas durante a madrugada ou nas primeiras horas da manhã, tentando evitar que o calor intenso transforme as colheitadeiras em fonte de incêndios.

Em algumas regiões, autoridades chegaram a proibir operações agrícolas entre 14h e 19h, justamente pelo risco de faíscas provocarem fogo nas áreas produtivas.

O problema criou um novo gargalo logístico: muitos silos não funcionam nesses horários alternativos, obrigando operadores a adaptarem toda a cadeia de armazenamento.

Produtores locais relatam que alguns vizinhos já precisaram conter incêndios dentro das propriedades nos últimos dias.

Entre as culturas mais ameaçadas está o milho.

Segundo agricultores franceses, caso a planta entre na fase de florescimento com temperaturas acima de 30°C, o pólen pode se tornar estéril, comprometendo a formação dos grãos e reduzindo drasticamente o potencial produtivo.

Já no trigo, o problema vem da desidratação excessiva. Quando a planta seca rapidamente, os grãos ficam pequenos e parte da produção pode ser perdida durante a própria colheita, sendo descartada junto à palha.

O produtor Stephane Baron, na região de Charente-Maritime, afirmou que sua produção de trigo mole caiu para metade do necessário para tornar a safra lucrativa, resultado de meses seguidos de extremos climáticos: chuvas intensas em fevereiro seguidas por sucessivas ondas de calor em maio e junho.

A poderosa federação agrícola francesa FNSEA já reconhece preocupação crescente principalmente com as culturas de trigo, embora milho e girassol ainda possam reagir caso ocorram chuvas nas próximas semanas.

Especialistas franceses afirmam que a grande diferença em relação à histórica onda de calor de 2003, considerada até então a pior já registrada no país, está no momento em que o calor chegou.

Desta vez, o evento extremo atingiu o campo muito mais cedo, pegando culturas em estágios sensíveis de desenvolvimento.

Segundo o pesquisador Iñaki García de Cortázar-Atauri, do instituto francês INRAE, o mundo entrou em uma nova fase marcada pela sucessão cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos, o que torna a adaptação da agricultura um desafio urgente.

Para o Brasil, o episódio serve como alerta importante.

Em regiões produtoras brasileiras, especialmente no Centro-Oeste, Matopiba e parte do Sul, o aumento das ondas de calor já preocupa cadeias como pecuária leiteira, confinamento bovino, avicultura, milho e soja.

O que acontece hoje na França mostra que produzir alimentos sob condições climáticas extremas deixou de ser uma discussão futura — e começa a se tornar um dos maiores desafios do agronegócio mundial nas próximas décadas.

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