Após décadas de tentativas, investimentos e articulações internacionais, raça africana reconhecida por rusticidade, fertilidade e eficiência finalmente começa a ganhar espaço oficialmente no país
A pecuária brasileira acaba de testemunhar um marco histórico. Nasceram nesta semana, na Fazenda GT, os primeiros animais puro-sangue da raça Boran produzidos em território nacional. O feito representa muito mais do que o nascimento de alguns bezerros: simboliza o resultado de mais de duas décadas de persistência de criadores que acreditaram no potencial da raça africana para contribuir com a evolução da bovinocultura brasileira.
Originário do leste africano, especialmente do Quênia e regiões próximas do Chifre da África, o Boran é considerado um dos zebuínos mais adaptados às condições extremas de clima, pastagens limitadas e desafios sanitários. A raça ganhou notoriedade internacional por reunir características raras dentro da pecuária moderna: rusticidade, fertilidade, habilidade materna, eficiência alimentar, longevidade, precocidade e, sobretudo, docilidade.
Nos últimos anos, o Boran passou a despertar atenção crescente em países tropicais justamente pela capacidade de produzir carne de qualidade em sistemas extensivos, mantendo desempenho mesmo sob condições adversas. Especialistas apontam que a raça possui potencial estratégico para cruzamentos industriais e para programas voltados à produção sustentável de proteína animal.
Agora, pela primeira vez, essa genética começa oficialmente a criar raízes no Brasil.
O nascimento dos primeiros bezerros é resultado direto da histórica importação de embriões realizada recentemente entre Paraguai e Brasil, considerada um divisor de águas para a introdução da raça no país. A operação foi detalhada anteriormente pelo Compre Rural e abriu caminho para a chegada efetiva do Boran ao território brasileiro.
Vitalidade impressiona já nos primeiros nascimentos
Os primeiros animais nasceram na Fazenda GT, propriedade de Guilherme Gervásio, um dos pecuaristas envolvidos diretamente no projeto de introdução da raça.
Segundo ele, os resultados iniciais já chamaram atenção pela rusticidade e vigor dos bezerros, mesmo sendo oriundos de Fertilização In Vitro (FIV).
“Os bezerros nasceram com saúde. Tipo Nelore mesmo. Apesar de ser FIV, notamos a mesma vitalidade. Peso entre 29 e 35 quilos”, relatou Guilherme.
O produtor destacou ainda que o nascimento desses animais é consequência de um planejamento extremamente longo, iniciado há aproximadamente três anos, envolvendo negociações internacionais e busca criteriosa pela genética ideal.
“Esse protocolo e negociação começaram três anos atrás. Chegamos a negociar na África do Sul e Austrália. Mas a ideia era ter um gado rústico e eficiente, igual nosso Nelore e Sindi. E também muito dócil”, afirmou.
A fala resume exatamente o que vem despertando interesse crescente na raça Boran dentro da pecuária tropical. Diferentemente de raças altamente exigentes em manejo intensivo, o Boran se consolidou justamente pela capacidade de converter pasto em produtividade com baixo nível de exigência, característica extremamente valorizada em sistemas brasileiros. 
Uma luta de mais de 20 anos para trazer o Boran ao Brasil
Por trás desse momento histórico existe um personagem considerado o grande pioneiro da raça no país: Diego Mendes, da Fazenda Vale Rico.
Foi ele quem iniciou, ainda no começo dos anos 2000, uma verdadeira cruzada para introduzir o Boran na pecuária brasileira. Uma jornada marcada por viagens internacionais, tentativas frustradas, barreiras sanitárias e investimentos elevados.
“A história do Boran começou no início dos anos 2000. Eu descobri a raça pela internet. Em 2007 fui para a Austrália, que eu sabia que tinha Boran lá. Fui olhar rebanhos de Boran na Austrália. Da Austrália fui para a África do Sul e conheci rebanhos de Boran lá”, relembrou.
O entusiasmo inicial rapidamente esbarrou em obstáculos burocráticos. Diego conta que entre 2012 e 2013 foi iniciado um primeiro processo para importação de embriões diretamente da África do Sul. Porém, a operação não avançou.
“Na época faltaram documentos. O Ministério da Agricultura exigiu documentos que a África do Sul não conseguia mandar. Então nós não conseguimos trazer via África do Sul”, explicou.
O projeto parecia inviável até que uma nova oportunidade surgiu anos depois, desta vez muito mais próxima do Brasil.
“Em 2023 eu descobri esse criador no Paraguai, que inclusive é sul-africano. Fui lá, visitei o rebanho paraguaio. E aí começamos uma batalha para abrir o protocolo de importação de material genético entre Brasil e Paraguai.”
O principal entrave era justamente a inexistência de autorização sanitária específica para entrada de embriões da raça.
“Só existia protocolo para animais vivos. Então demoramos dois anos para conseguir abrir esse protocolo de importação. E aí conseguimos realizar essa importação de 174 embriões.”
Hoje, vendo os primeiros animais nascerem em solo brasileiro, Diego não esconde a emoção.
“A felicidade é muito grande. Na realidade é um sonho. É a realização de um sonho. Pra mim está sendo um dia maravilhoso. Eu venho sonhando e lutei muito. Gastei muito dinheiro com isso para tentar trazer a raça da África do Sul. Não conseguimos naquela época, mas graças a Deus deu tudo certo agora.”
Mais do que a conquista pessoal, o pecuarista acredita que o Boran pode contribuir diretamente para a evolução da pecuária nacional.
“Ela tem características muito importantes que podem auxiliar muito a nossa pecuária”, destacou. 
Raça chega cercada de expectativa dentro da pecuária brasileira
O interesse crescente pelo Boran não é casual. Em diferentes países, a raça vem sendo utilizada tanto em rebanhos puros quanto em cruzamentos estratégicos para produção de carne em ambientes tropicais.
Entre as características mais valorizadas estão:
- alta fertilidade;
- facilidade de parto;
- excelente habilidade materna;
- resistência ao calor;
- rusticidade;
- eficiência alimentar;
- longevidade produtiva;
- temperamento dócil.
Além disso, criadores destacam a capacidade do Boran de manter desempenho mesmo em condições de seca e pastagens de menor qualidade, algo extremamente relevante diante dos desafios climáticos enfrentados atualmente pela pecuária mundial.
No Brasil, a expectativa é que a raça inicialmente seja utilizada de forma seletiva, principalmente em programas genéticos e cruzamentos industriais voltados à produção eficiente de carne. 
Associação brasileira nasce para fomentar a raça
Com a chegada oficial da genética Boran ao país, os criadores também avançaram na estruturação institucional da raça no Brasil por meio da criação da ABCBoran Brasil.
A entidade nasce com o objetivo de organizar o desenvolvimento da raça no território nacional, fomentar intercâmbio genético, ampliar o número de criadores e estabelecer bases técnicas para seleção e expansão do Boran no mercado brasileiro.
O movimento já começa a atrair atenção de importantes nomes da pecuária nacional. Entre eles está Wilson Brochmann, um dos grandes expoentes do setor no país, que também passou a investir na raça. O avanço do interesse de grandes produtores foi destacado anteriormente pelo Compre Rural.
O nascimento dos primeiros bezerros puro-sangue Boran no Brasil não representa apenas a chegada de uma nova raça ao mercado. Para muitos pecuaristas envolvidos no projeto, trata-se do início de uma nova alternativa genética para uma pecuária cada vez mais pressionada por eficiência, adaptação climática e sustentabilidade produtiva.
Depois de mais de 20 anos de tentativas, viagens, negociações e obstáculos sanitários, o sonho finalmente saiu do papel — e agora começa a caminhar nos pastos brasileiros.
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