O mercado de trabalho da soja e do biodiesel está mudando

Modernização do campo reduz empregos na produção direta, enquanto agrosserviços avançam, elevam a qualificação profissional e reposicionam a cadeia da soja e do biodiesel no Brasil, aponta artigo escrito por Rodrigo Peixoto da Silva, pesquisador do Cepea

O mercado de trabalho da cadeia da soja e do biodiesel no Brasil segue em expansão, mas não da forma tradicional que muitos ainda imaginam. Os dados mais recentes mostram um crescimento consistente, com mais de 2,3 milhões de pessoas ocupadas em 2025. À primeira vista, isso reforça a importância dessa cadeia produtiva para o País. No entanto, ao olhar mais de perto, fica claro que estamos diante de uma transformação estrutural relevante.

O crescimento do emprego está cada vez menos concentrado “dentro da porteira”. Pelo contrário: o segmento primário, responsável pela produção de soja, apresentou redução no número de trabalhadores nos últimos anos. Esse movimento não é um sinal de crise; é, na verdade, um reflexo direto da modernização do campo brasileiro. A mecanização, o uso intensivo de tecnologia e os ganhos de produtividade estão permitindo produzir mais com menos mão de obra. Esse fenômeno não é novo, mas vem se intensificando. E ele traz uma consequência importante: a demanda por trabalho está migrando para outras partes da cadeia.

Hoje, quem mais gera empregos são os chamados agrosserviços – atividades como transporte, armazenagem, comercialização, financiamento e apoio técnico. Esse segmento já concentra mais de 70% dos trabalhadores da cadeia da soja e do biodiesel e foi o principal responsável pela expansão recente do contingente de pessoas ocupadas. Em outras palavras, o dinamismo do setor não desapareceu, ele apenas mudou de lugar.

Essa mudança também altera o perfil do trabalhador demandado. Os dados indicam um aumento consistente do nível de escolaridade e da formalização do emprego. Cresce o número de trabalhadores com ensino médio e superior, enquanto diminui a participação daqueles com menor nível de instrução. Ao mesmo tempo, há avanço dos empregos com carteira assinada, especialmente nos segmentos mais organizados da cadeia. Isso sugere um processo claro: a cadeia produtiva está se tornando mais intensiva em conhecimento e menos dependente de trabalho pouco qualificado.

Outro aspecto relevante é a evolução dos rendimentos. Mesmo com mudanças na composição do emprego, houve aumento real da renda média do trabalho na cadeia produtiva. Esse resultado, combinado com a redução do emprego no segmento primário, reforça a hipótese de ganhos de produtividade.

Mas nem tudo são boas notícias. A agroindústria, que poderia agregar mais valor à produção nacional, ainda tem participação relativamente pequena no emprego total e apresentou retração recente em alguns segmentos. Isso revela uma limitação estrutural: o Brasil ainda exporta grande parte da soja in natura, deixando de capturar plenamente os benefícios da industrialização. Por outro lado, o crescimento do biodiesel aponta uma oportunidade. A ampliação do uso de biocombustíveis, tanto no Brasil quanto no mundo, pode impulsionar a indústria e gerar empregos mais qualificados, desde que haja um ambiente favorável ao investimento.

No agregado, o que os dados mostram é um setor em transformação: mais produtivo, mais tecnológico e mais integrado a serviços. Essa transição representa avanços importantes, mas também desafios.

O principal deles é a qualificação da mão de obra. À medida que as atividades mais intensivas em trabalho manual perdem espaço, cresce a necessidade de profissionais capacitados para atuar em logística, gestão, tecnologia e indústria. Sem investimentos bem direcionados em educação e formação profissional, há o risco de parte da força de trabalho ficar para trás. Além disso, há um desafio regional e social: como garantir que os ganhos de produtividade se traduzam em oportunidades mais amplas e inclusivas?

A cadeia da soja e do biodiesel continuará sendo um dos pilares da economia brasileira. Entretanto, seu futuro não será definido apenas pelo volume produzido ou exportado, mas também pela capacidade de gerar empregos de qualidade, promover inclusão, agregar valor e incorporar inovação. Entender essas mudanças é fundamental para orientar políticas públicas e estratégias empresariais. Afinal, o que está em jogo não é apenas o desempenho de um setor, mas o papel que ele desempenhará no desenvolvimento econômico do País nos próximos anos.

Fonte: Cepea

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