Fêmea ou macho: qual dá mais lucro na pecuária intensiva?

A decisão entre engordar fêmeas ou machos castrados vai muito além do custo de reposição. Entenda por que a eficiência biológica e a conversão alimentar são os verdadeiros divisores de águas na lucratividade do pecuarista

No tabuleiro estratégico da pecuária de corte, a pergunta “fêmea ou macho: qual dá mais lucro?” costuma ser respondida pelo viés do caixa imediato: o menor custo de aquisição da bezerra. Entretanto, para o consultor e especialista em carne de qualidade, Roberto Barcellos, essa é uma visão parcial que ignora o motor principal da rentabilidade: a conversão alimentar.

Em participação recente no podcast MF Cast, Barcellos trouxe dados contundentes que desafiam o senso comum dos invernistas.

O “atalho” da fêmea: Deposição de gordura e precocidade

Historicamente, o pecuarista que busca bonificação por qualidade olha para a fêmea com prioridade. O motivo é fisiológico. Por possuírem um frame (estrutura óssea) menor, as fêmeas atingem a maturidade mais cedo, o que antecipa a deposição de gordura subcutânea e intramuscular.

Para programas de carne premium, o acabamento de carcaça é inegociável. “A vantagem da fêmea é que ela vai depositar gordura antes, e para os programas de qualidade isso é fundamental”, explicou Barcellos. Contudo, essa precocidade esconde um teto produtivo: uma vez que o animal atinge a maturidade e foca na gordura, o custo energético para ganho de peso sobe drasticamente, o que exige um monitoramento rigoroso para a conta fêmea ou macho: qual dá mais lucro não fechar no vermelho.

A supremacia do macho castrado

O ponto central da tese de Roberto Barcellos reside na eficiência biológica. Embora o mercado tenda a negligenciar o macho castrado devido ao manejo extra, os números de desempenho no cocho contam outra história. Segundo o especialista, o comportamento da curva de deposição de tecidos do macho castrado é muito similar ao da fêmea, mas com uma potência metabólica superior.

“A eficiência biológica do macho castrado é maior do que a da fêmea. E isso, pouca gente faz essa conta. Produzir carne de qualidade de macho castrado é mais barato do que produzir de fêmea”, afirmou Barcellos no MF Cast.

A chave está na Conversão Alimentar (CA). O macho castrado consegue transformar o alimento em carcaça de forma mais otimizada. Enquanto a fêmea estabiliza o ganho de peso mais cedo, o macho castrado mantém um ritmo de crescimento muscular por mais tempo antes de focar exclusivamente na gordura, resultando em um custo operacional por arroba produzida muitas vezes inferior ao das fêmeas.

Por que a fêmea ainda domina as compras?

Se o desempenho do macho é superior, por que a dúvida sobre fêmea ou macho: qual dá mais lucro ainda persiste? Barcellos aponta dois fatores críticos:

  1. Custo de Aquisição: O quilo do macho (bezerro) é tradicionalmente mais caro que o da fêmea. O produtor, focado no desembolso inicial, opta pelo animal mais barato na reposição, ignorando que o desempenho posterior pode compensar o ágio.
  2. Manejo Operacional: A castração exige mão de obra, gera estresse e riscos sanitários. Muitos produtores preferem a “comodidade” de não precisar intervir cirurgicamente no rebanho.

No entanto, Barcellos é enfático: fazendas que realizaram testes comparativos rigorosos — medindo consumo versus ganho de carcaça — constataram que o macho castrado entrega um produto final mais competitivo financeiramente.

Estratégia além do preço de compra

A análise de Roberto Barcellos no MF Cast deixa claro que a rentabilidade na pecuária moderna exige uma visão sistêmica. Ao decidir entre fêmea ou macho: qual dá mais lucro, o pecuarista deve olhar para o custo da arroba produzida e não apenas para o valor do bezerro na nota fiscal.

Se o objetivo é máxima eficiência biológica e escala com qualidade, o macho castrado se apresenta como a melhor ferramenta econômica. Já a fêmea permanece como uma opção estratégica para giros mais rápidos e menor aporte de capital inicial, desde que o produtor saiba que está sacrificando a eficiência de conversão alimentar em troca de precocidade.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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