Em conformidade com a qualidade e o histórico do manejo adotado, a metodologia prevê a adequação de parâmetros dos modelos do Zarc.
Culturas de verão e de sequeiro, como a soja, têm suas necessidades hídricas atendidas pelas chuvas e pela água disponibilizada pelo solo. Práticas de manejo podem contribuir, significativamente, para o incremento dessa água disponibilizada pelo solo. Por outro lado, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), que indica onde e quando semear soja para minimizar os riscos de perdas por eventos meteorológicos adversos, atualmente ainda não leva em consideração o manejo do solo. “Desde o início dos trabalhos de zoneamento, ainda no final da década de 90, buscava-se formas de contemplar esse importante aporte de água aos sistemas agrícolas”, afirma José Renato Farias, pesquisador da Embrapa Soja.
Face a isso, a Embrapa está propondo indicadores que possam expressar os diferentes níveis de manejo do solo e suas respectivas contribuições no suprimento de água e, consequentemente, na redução dos riscos climáticos. O detalhamento da proposta está disponível aqui e foi apresentado durante a Reunião de Pesquisa de Soja, realizada na última semana, em Londrina (PR).
“Entendemos que a qualidade do manejo do solo adotado pelos sojicultores tem enorme potencial em mitigar os riscos de perdas de produtividade por seca, a exemplo das práticas como a adoção plena do Sistema Plantio Direto (SPD)”, explica o pesquisador Henrique Debiasi, da Embrapa Soja. “Nossa proposta é enquadrar as áreas de produção de soja em quatro níveis de manejo (NMs), segundo indicadores e critérios que refletem os impactos das práticas agrícolas sobre características e processos físicos, químicos e biológicos do solo”, diz Debiasi. “A matriz resultante das atuais seis classes de água disponível (em função da textura do solo) e dos quatro níveis de manejo do solo propostos, resultaria em vinte e quatro valores de água disponível à cultura, capazes de expressar, com maior fidelidade, os riscos à cultura”, comenta Farias.
Proposta de níveis de manejo
Em conformidade com a qualidade e o histórico do manejo adotado, a metodologia prevê a adequação de parâmetros dos modelos do Zarc que determinam a disponibilidade de água para a cultura, gerando assim riscos hídricos decrescentes do primeiro ao quarto nível (NM1 ao NM4). “Para o enquadramento nos níveis de manejo, foram selecionados sete indicadores que refletem a qualidade do manejo e a fertilidade do solo, sob o ponto de vista de maior disponibilidade de água e crescimento radicular”, afirma Debiasi.

Os indicadores de níveis de manejo sugeridos são: a quantidade de anos sem preparo do solo; a porcentagem de cobertura do solo na semeadura da soja; a diversificação de culturas consideradas nos últimos três anos; as condições gerais de fertilidade do solo pela concentração de magnésio e potássio (saturação por bases); o teor de cálcio e o percentual de saturação por alumínio que revela a probabilidade de ocorrer toxidez de alumínio para as plantas.
De acordo com o pesquisador Alvadi Balbinot, três dos indicadores refletem diretamente os pilares que fundamentam o Sistema Plantio Direto – SPD (cobertura do solo, mínimo revolvimento e diversificação de espécies vegetais). “Portanto, o SPD se constitui em uma importante estratégia para mitigar o risco climático relacionado à ocorrência de secas”, explica Balbinot. O pesquisador afirma ainda que outros indicadores estão relacionados com a acidez do solo em superfície e subsuperfície. “Este fator quando não corrigido adequadamente pode limitar o crescimento e o funcionamento das raízes, aumentando assim o risco de perdas expressivas de produtividade por seca”, destaca.
Outro indicador relevante é o Índice de qualidade estrutural do solo (IQEs), pelo Diagnóstico Rápido da Estrutura do Solo (DRES). O DRES é um método para qualificar a estrutura da camada superficial do solo, baseado em características detectadas visualmente em amostras dos primeiros 25 cm. “A metodologia apresenta aplicação prática para diagnosticar se o solo apresenta compactação ou ainda se está apresentando melhorias em função das práticas adotadas, quando realizado de maneira sequencial ao longo do tempo”, diz.
Expectativa com o Zarc NM – Soja
Com a incorporação dos níveis de manejo nos trabalhos de Zarc, “espera-se maior fidelidade na representação dos sistemas produtivos; melhor caracterização e quantificação dos riscos hídricos à cultura; valorização dos bons produtores e indução ao uso de boas práticas agrícolas; redução dos riscos e maior estabilidade da produção, contribuindo para a maior sustentabilidade dos sistemas agrícolas”, destaca Farias
Desafio na adoção do SPD
A manutenção da cobertura do solo e a preservação ou aumento do teor de matéria orgânica e a melhoria das propriedades (físicas, químicas e biológicas) do solo são, portanto, benefícios que se obtém mediante a adoção do Sistema Plantio Direto. “Além desses benefícios, o crescimento do sistema radicular tem grande importância para o aumento do reservatório de água disponível durante os períodos de estresse hídrico”, destaca o pesquisador Júlio Franchini, da Embrapa Soja. “Nesse sentido, práticas de manejo do solo que aumentem a infiltração e a retenção de água no solo e o crescimento das raízes das culturas em profundidade são relevantes para minimizar as perdas por déficit hídrico”, ressalta Franchini.
Segundo a Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto, o SPD está presente em cerca de 33 milhões de hectares no Brasil, porém, a maior parte dessa área não atende de forma integral às premissas do sistema, restringindo-se, à mínima mobilização do solo pela eliminação de operações de preparo do solo.
Papel da água na soja
Em trabalhos conduzidos na Embrapa Soja, em Londrina (PR) ao longo de 15 safras, verificou-se que os maiores rendimentos de grãos de soja foram obtidos com 650 a 700 mm de água, bem distribuídos ao longo de todo o ciclo. De acordo com Farias, a água desempenha a função de solvente, transportando gases, minerais e outros solutos na planta, além de atuar como regulador térmico, agindo tanto no resfriamento como na manutenção e na distribuição do calor. “A disponibilidade de água é importante, principalmente em dois períodos do ciclo de desenvolvimento da soja: germinação-emergência e floração-final de enchimento de grãos”, diz Farias. “Porém, para garantir máximo rendimento de grãos, a água necessária deve ser disponibilizada ao longo de todo o ciclo, a fim de atender as exigências da cultura, podendo ser suprida através da chuva, da irrigação ou pelo armazenamento de água no solo. 
A adoção do SPD de forma isolada não é, na maioria das situações, condição suficiente para o controle efetivo das perdas de água, solo e nutrientes por erosão hídrica. “A falta de manutenção ou eliminação parcial ou total dos terraços, sem critério técnico, associada à realização das operações mecanizadas paralelamente ao declive, pode resultar em elevadas perdas de água, solo e nutrientes por erosão hídrica, mesmo em SPD, comprometendo a sustentabilidade do sistema de produção de soja”, explica Franchini.
Perdas por seca
De 2013 a 2021, 48% das coberturas deferidas por perda no Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) foram motivadas por seca, enquanto a chuva excessiva e as geadas representaram perdas de 20% e de 19%, respectivamente. Além disso, a Embrapa Soja fez um levantamento na região Sul do Brasil e Mato Grosso do Sul, confirmando que a seca ocorrida nestes estados do na safra 2021/22, reduziu a produção de soja em 403 milhões de sacas.
Soja
A soja é atualmente a cultura com a maior área cultivada (44 milhões de ha) e produção (154 milhões de t) no Brasil, o que torna o País o maior produtor e exportador mundial do grão. As exportações renderam US$ 48 bilhões (40% do total correspondente ao agronegócio).
Fonte: Embrapa Soja
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98. Alta histórica no preço das terras, perda de poder de compra e mudanças no mercado da saúde levantam uma discussão que ganhou força entre médicos e produtores rurais nas redes sociais Continue Reading Medicina não compra fazenda mais? Debate expõe nova realidade econômica Dos vinhedos em socalcos no Norte às planícies irrigadas do Alentejo, descubra como funciona a estrutura agrícola portuguesa, as suas culturas de ouro e como a modernização no campo prepara o país para abastecer mercados exigentes durante a Copa do Mundo 2026 Continue Reading Como funciona o agro de Portugal? Culturas, desafios e o foco na Copa do Mundo 2026 A expansão destas bebidas com o mercado de energéticos impulsiona o consumo de açúcar, derivados do milho, frutas e embalagens, conectando fazendas, indústrias e varejo em uma cadeia que cresce ano após ano. Ranking histórico mostra os profissionais que mais acumularam premiações nas pistas, ou seja, Treinadores mais premiados do Jockey Club de Sorocaba, principal palco do Quarto de Milha de velocidade no Brasil Continue Reading Treinadores mais premiados do Jockey Club de Sorocaba somam mais de R$ 50 milhões O país asiático importou um total de US$ 19,5 milhões do produto brasileiro entre os meses de janeiro e maio de 2026. Continue Reading Indonésia se torna segundo maior destino dos miúdos bovinos brasileiros Com 96% de chance de atuar no próximo verão, fenômeno climático esbarra em um Brasil já mais quente e acende o alerta para quedas severas na captação de leite devido ao estresse térmico Continue Reading El Niño 2026: Aquecimento do Pacífico põe em alerta a produção de leite no BrasilMedicina não compra fazenda mais? Debate expõe nova realidade econômica
Como funciona o agro de Portugal? Culturas, desafios e o foco na Copa do Mundo 2026
Como o mercado de energéticos movimenta bilhões e cria demanda para o campo brasileiro
Treinadores mais premiados do Jockey Club de Sorocaba somam mais de R$ 50 milhões
Indonésia se torna segundo maior destino dos miúdos bovinos brasileiros
El Niño 2026: Aquecimento do Pacífico põe em alerta a produção de leite no Brasil





