El Niño 2026: Aquecimento do Pacífico põe em alerta a produção de leite no Brasil

Com 96% de chance de atuar no próximo verão, fenômeno El Niño esbarra em um Brasil já mais quente e acende o alerta para quedas severas na captação de leite devido ao estresse térmico

A pecuária leiteira brasileira tem um novo desafio no horizonte, e ele não nasce nos pastos, mas nas águas do Oceano Pacífico. Modelos meteorológicos apontam uma probabilidade de até 96% para a ocorrência do El Niño durante o verão de 2026/27. Com anomalias de temperatura no mar já superando marcas históricas (como as registradas antes da forte temporada de 1997), a previsão é de um evento de grande intensidade. No entanto, para o produtor de leite, o grande vilão não é apenas o fenômeno isolado, mas a onda de calor generalizada que ele arrasta para as fazendas de norte a sul do país.

Uma análise aprofundada de 25 anos de dados climáticos e produtivos, conduzida pela equipe de Inteligência de Mercado do MilkPoint, trouxe uma mudança de perspectiva sobre como o setor deve encarar o clima. O estudo constatou que, enquanto as lavouras de grãos como soja e milho reagem drasticamente à variação das chuvas, a variável que realmente define o sucesso ou o fracasso na produção de leite é o calor.

Os números do levantamento são contundentes. Nas regiões Norte e Nordeste, locais onde o gado já atua próximo ao limite do conforto fisiológico, o aumento de apenas 1°C na temperatura ambiente resulta em quedas expressivas na captação de leite, variando de 7,2% a 7,4%. Já no Sul e Sudeste, principais bacias leiteiras do Brasil, as perdas também pesam no bolso do pecuarista, ficando entre 2,2% e 2,5% por grau adicional.

A biologia explica o prejuízo: sob estresse térmico, a vaca come menos, produz menos e apresenta piora no desempenho reprodutivo.

O perigo de um cenário já aquecido

O detalhe que torna o evento previsto para 2026 mais perigoso não está apenas na força do fenômeno no Oceano Pacífico, mas na realidade térmica atual do Brasil. Os registros históricos indicam que o clima no país entrou em uma rota clara de aquecimento acelerado a partir de 2013.

Isso significa que o próximo El Niño vai atuar sobre um ambiente estruturalmente mais quente do que aquele enfrentado nas décadas de 1990 ou início dos anos 2000. O impacto do estresse térmico no rebanho, portanto, tende a ser potencializado. O alerta é de que os reflexos diretos do índice oceânico (ONI) costumam ser sentidos na queda da produção cerca de dois meses após o pico do fenômeno.

Para quem atua da porteira para dentro, a mensagem trazida pelos dados é de adaptação imediata. Mais do que tentar prever se vai chover ou secar, o pecuarista de leite precisará investir fortemente no conforto térmico de suas instalações. Preparar a fazenda para mitigar os picos de temperatura deixou de ser um diferencial de manejo e passou a ser o principal pilar para garantir a estabilidade da produção nos próximos anos.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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