Alta histórica no preço das terras, perda de poder de compra e mudanças no mercado da saúde levantam uma discussão que ganhou força entre médicos e produtores rurais nas redes sociais
Durante décadas, uma frase foi repetida no interior do Brasil como uma espécie de retrato do sucesso profissional: “vou formar meu filho médico“. E, de fato, por muito tempo a medicina foi uma das carreiras mais rentáveis do país. Não foram poucos os médicos que, após alguns anos de trabalho, conseguiram comprar fazendas, investir no agronegócio e até se tornar criadores e selecionadores de raças bovinas.
O vínculo entre medicina e pecuária, aliás, nunca foi raro. Em praticamente todas as regiões produtoras do Brasil existem exemplos de médicos que construíram patrimônio na profissão e direcionaram parte dos investimentos para a compra de terras, criação de gado e atividades agrícolas.
Mas uma discussão recente levantou uma provocação que chamou a atenção do setor agropecuário: será que a medicina ainda consegue comprar fazendas?
O tema ganhou repercussão após uma publicação do pecuarista, consultor e zootecnista Daniel Rabelo. Questionado sobre a famosa frase “já vi muitas fazendas pagarem faculdade de medicina, mas nunca vi faculdade de medicina comprar fazenda”, ele respondeu de forma direta:
“Já vi muita fazenda pagar a faculdade de medicina, mas eu nunca vi medicina comprar fazenda. Há 20, 30 anos atrás, companheiro, realmente um médico conseguia capitalizar com a medicina e comprar uma fazenda. Só que isso não acontece mais, não existe isso.”
A declaração abriu espaço para um debate que vai muito além da comparação entre profissões. Ela toca em um tema econômico importante: a velocidade com que os ativos rurais se valorizaram nos últimos anos em comparação à evolução da renda de diversas carreiras tradicionais.
O salto das terras rurais
Se há um dado que ajuda a explicar essa percepção, ele está no mercado fundiário brasileiro.
Levantamento da Scot Consultoria mostra que o valor médio das terras agrícolas no Brasil saltou de R$ 14,8 mil por hectare em 2019 para mais de R$ 31,6 mil por hectare em 2024, uma valorização de aproximadamente 113%. Nas áreas de pastagem, a alta foi ainda maior, chegando a 116% no período.
Em outras palavras, em apenas cinco anos o preço médio das terras mais do que dobrou.
Dados mais recentes do Atlas do Mercado de Terras mostram que, dependendo da região, os valores já variam entre R$ 50 mil e mais de R$ 250 mil por hectare, especialmente em áreas com forte atividade agrícola e boa infraestrutura logística.
Para quem deseja adquirir uma propriedade rural produtiva, a conta ficou muito mais pesada.
A medicina mudou
Enquanto a terra disparou de preço, o mercado médico passou por profundas transformações.
Nas últimas décadas, o Brasil assistiu a uma expansão acelerada dos cursos de medicina. O aumento da oferta de profissionais, a maior concorrência e a estagnação dos valores pagos em plantões e atendimentos passaram a fazer parte das discussões da categoria.
Nas redes sociais, médicos relatam uma realidade bastante diferente daquela vivida por profissionais formados há 20 ou 30 anos.
Um dos comentários que mais repercutiram na publicação de Daniel Rabelo foi o do médico Felipe Goveia, residente em Anestesiologia:
“Sou médico e concordo com a frase. Para generalista o cenário é ainda pior, não tem reserva de mercado, cada vez menos plantões, grupos disputados e renda caindo substancialmente. Quem tem patrimônio, herança e etc., preserve e tente conciliar os dois porque só com a medicina não está dando para ficar rico não.”
A percepção também encontra respaldo em estudos discutidos dentro da própria categoria. Dados compartilhados a partir da Demografia Médica apontam que a renda média declarada por médicos perdeu poder de compra ao longo da última década quando descontada a inflação, evidenciando uma deterioração da capacidade de acumulação patrimonial da profissão.
O agro como formador de patrimônio
Outra voz que entrou no debate foi a da engenheira e empresária Valeska Andrade, fundadora da MasterHub.
Segundo ela, o agronegócio continua sendo uma das atividades com maior capacidade de geração de patrimônio de longo prazo no país.
“Só o agro tem capacidade de formar médicos sem nunca ter pisado numa faculdade. E tem gente que se incomoda quando ouve isso, mas basta olhar para a realidade de muitos produtores rurais que passaram a vida inteira trabalhando na fazenda, enfrentando seca, chuva, mercado, câmbio, pragas e financiamentos e, mesmo sem diploma, conseguiram construir algo extraordinário.”
Valeska destaca que inúmeros produtores rurais foram responsáveis por custear a formação de filhos médicos, engenheiros, advogados e empresários.
“Enquanto muitos produtores foram capazes de comprar terra, expandir patrimônio e construir fazendas que valem milhões ou até bilhões, quantos médicos conseguiram comprar uma fazenda do mesmo tamanho?”
Ela ressalta que a observação não representa uma crítica à medicina.
“É apenas um lembrete de que patrimônio não é construído apenas por diploma. Ele é construído com visão de longo prazo, gestão de risco, trabalho duro e capacidade de produzir riqueza. Nisso, o agro continua sendo uma das maiores escolas de negócios do mundo.”
Nem todos concordam
O debate também trouxe ponderações importantes.
Um internauta questionou. “Medicina está cada vez mais concorrida sem dúvidas, lei da oferta e procura. Agora me responde, qual profissão está dando renda para comprar fazenda?”
A observação levanta um ponto relevante. Talvez o problema não esteja exclusivamente na medicina, mas no próprio custo dos ativos rurais.
Se há alguns anos uma fazenda média era acessível para profissionais liberais bem-sucedidos, hoje o valor de muitas propriedades exige um volume de capital que poucas carreiras conseguem gerar sozinhas.
Outro comentário que ganhou destaque foi o de João Lúcio Costa Sobrinho.
Dentista há 22 anos, ele relata ter conseguido construir patrimônio e comprar fazendas graças ao trabalho desenvolvido ao longo de décadas.
“Consegui, através da Odontologia, construir meu patrimônio e realizar o sonho de adquirir fazendas. Mas há um detalhe: me formei há 22 anos, voltei para minha cidade natal e trabalhei incansavelmente por muitos anos. Com dedicação, perseverança e reinvestindo tudo o que podia, consegui capitalizar.”
Ainda assim, ele reconhece que o cenário atual é diferente.
“Vejo com preocupação a dificuldade que os novos dentistas enfrentam para trilhar o mesmo caminho. A economia está cada vez mais desafiadora.”
A conta que não fecha
Talvez seja justamente esse o centro da discussão.
A valorização das terras rurais foi muito mais rápida do que o crescimento da renda da maior parte das profissões brasileiras. Ao mesmo tempo, o custo de vida aumentou, a concorrência cresceu em diversas áreas e a capacidade de poupança das famílias se tornou mais limitada.
Nesse contexto, a frase que antes parecia exagerada passa a fazer sentido para muitos profissionais:
“Já vi muita fazenda pagar faculdade de medicina, mas nunca vi medicina comprar fazenda.”
Se ela é totalmente verdadeira ou não, provavelmente depende da região, da especialidade médica, do momento econômico e da capacidade individual de investir.
Mas uma coisa parece difícil de contestar: comprar uma fazenda hoje é muito mais difícil do que era há 20 ou 30 anos.
E você, concorda com essa afirmação? Na sua opinião, a medicina perdeu a capacidade de formar grandes patrimônios ou foi o valor das terras que se distanciou da realidade da maioria das profissões? Deixe sua opinião.
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