Com 63% de chance de se tornar um “super El Niño” até o próximo ano, o aquecimento dos oceanos traz secas severas e chuvas extremas, colocando em xeque as safras globais de cacau, café e açúcar
Com a recente confirmação da chegada do fenômeno climático pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o alerta vermelho foi acionado no campo: um El Niño intenso ameaça a produção agrícola nos trópicos e promete desestabilizar o mercado global de commodities ao longo de 2026 e 2027.
O órgão americano aponta uma probabilidade de 63% de que o evento atinja níveis extremos, o chamado “super El Niño”, até o próximo ano. Para os produtores rurais, o choque climático soma-se aos atuais gargalos econômicos, como a alta nos preços do diesel e dos fertilizantes impulsionada por tensões geopolíticas no Oriente Médio.
O que é e por que o El Niño intenso preocupa?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, desencadeado pelo enfraquecimento dos ventos alísios. Esse ciclo, que ocorre em intervalos de dois a sete anos e dura em média de nove a doze meses, reconfigura o clima global. Historicamente, ele provoca secas severas na Ásia, Austrália e África, enquanto despeja volumes excessivos de chuva no sul da América do Sul e nos Estados Unidos.
A vulnerabilidade da agricultura tropical a um El Niño intenso reside na quebra brusca do ciclo hídrico ideal para o desenvolvimento das plantas. O estresse térmico e hídrico impacta diretamente o rendimento das lavouras, puxando os preços das commodities para cima de maneira consistente.
Resumo dos Impactos por Cultura
Para facilitar a compreensão do cenário global, confira como o fenômeno afeta as principais commodities: Cultura Agrícola Principais Regiões Afetadas Efeito Climático e Consequências Cacau África Ocidental (Costa do Marfim, Gana), Equador Chuvas excessivas gerando fungos; ventos e calor causando perda de flores. Café (Robusta) Vietnã, Indonésia Seca e altas temperaturas derrubando a produtividade da safra. Café (Arábica) Brasil Calor inicial evita geadas; seca no fim do ano prejudica a safra seguinte. Açúcar Brasil, Índia, Tailândia Chuvas no Brasil atrapalham a colheita; secas na Ásia reduzem o volume produzido.
Impactos devastadores na produção de cacau
A correlação entre o clima extremo e a quebra de safra do cacau é histórica. Segundo dados da empresa de investimentos WisdomTree, todos os episódios fortes do fenômeno nas últimas cinco décadas resultaram em queda na produção. O trauma é recente: no último ciclo moderado a forte (2023-2024), a África Ocidental — responsável pela maior fatia da produção global — enfrentou o dobro de chuvas do padrão, o que abriu portas para doenças fúngicas severas. Na sequência, ventos secos extremos (Harmattan) dizimaram as flores das árvores já fragilizadas.
Jim Roemer, da consultoria Best Weather, alerta para as mudanças nos padrões climáticos: “Todo mundo acha que o fenômeno está associado apenas a secas na África Ocidental. Devido às mudanças climáticas, o resultado, às vezes, é chuva inicial em excesso”. Esse desequilíbrio afeta também o Equador, terceiro maior produtor mundial, que costuma sofrer com inundações. O reflexo no mercado é imediato: no fim de 2024, após as quebras na África, os preços do cacau bateram a marca histórica de US$ 12.000 por tonelada métrica, superando o valor de muitos metais industriais.
Como o El Niño intenso afeta o mercado de café
O cenário para a cafeicultura divide-se de acordo com a variedade do grão. O impacto de um El Niño intenso é drástico para o café tipo robusta. Vietnã e Indonésia, que juntos concentram cerca de 50% da produção mundial, costumam enfrentar secas severas e ondas de calor. Analistas do banco Citi alertam que a estiagem nessas regiões “pode reduzir significativamente a produtividade do café robusta”, com reflexos agudos a partir do quarto trimestre, época de colheita.
Já para o café arábica, dominado pelo Brasil, o efeito inicial pode ser paradoxalmente positivo. Carlos Santana, diretor comercial da Eisa (subsidiária da trading Ecom), explica que o aquecimento bloqueia as massas de ar polar, afastando o temido risco de geadas durante o inverno brasileiro. No entanto, o alívio é temporário: no longo prazo, o retorno da seca e do calor extremo no final do ano compromete o desenvolvimento fenológico das plantas, ameaçando o volume da safra de 2027.
O cenário misto para a safra de açúcar
No setor sucroenergético, as águas dão o tom do mercado. No Brasil, líder mundial e responsável por cerca de metade das exportações de açúcar, o excesso de chuvas no segundo semestre prejudica a logística de colheita e derruba a qualidade (ATR) da cana-de-açúcar. Contudo, essa mesma umidade garante o vigor dos canaviais para as safras seguintes.
Do outro lado do mundo, o cenário é de escassez. A Índia (segunda maior produtora) e a Tailândia (segunda maior exportadora) sofrem com o enfraquecimento das monções de verão. A expectativa indiana é registrar o menor volume de precipitações em 11 anos, com chuvas 10% abaixo da média no período crítico de desenvolvimento das lavouras.
Carlos de Mello, diretor de açúcar da corretora Hedgepoint, estima que o clima adverso asiático possa subtrair cerca de 1 milhão de toneladas da produção indiana. Apesar disso, Mello aponta que é “difícil imaginar um cenário de alta no mercado com o El Niño”, justificando que os excelentes volumes hídricos no Brasil blindam o abastecimento global no médio prazo, garantindo uma safra brasileira robusta para 2027.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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