Com safra 2026/27 estimada em 255 milhões de caixas, setor vê doença Greening avançar no cinturão citrícola e pressiona produção, qualidade do suco, preços e competitividade do Brasil no mercado global
A citricultura brasileira entra na safra 2026/27 diante de um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A previsão de 255 milhões de caixas de laranja, abaixo do ciclo anterior, já seria suficiente para colocar produtores, indústria e mercado em estado de atenção. Mas o principal ponto de preocupação vai além do volume colhido: o greening, considerado a doença mais destrutiva dos citros no mundo, já compromete quase 50% das árvores do cinturão citrícola de São Paulo e do sul do Triângulo Mineiro.
O alerta foi reforçado durante o evento Citros em São Paulo 2026, que reuniu produtores, pesquisadores, empresas e representantes da cadeia produtiva. Na avaliação de especialistas do setor, a combinação entre menor oferta, pressão fitossanitária e impacto na qualidade da fruta cria um cenário de alta complexidade para uma das atividades agrícolas mais relevantes do estado de São Paulo e estratégicas para o agronegócio brasileiro.
O greening virou o maior desafio da laranja brasileira
O greening, também conhecido como HLB, é causado por uma bactéria transmitida pelo psilídeo Diaphorina citri. Na prática, a doença compromete o desenvolvimento da planta, reduz a produtividade, provoca queda de frutos e afeta diretamente a qualidade da laranja destinada tanto ao mercado in natura quanto à produção de suco.
Segundo Dirceu Mattos Junior, diretor do Centro de Citricultura do Instituto Agronômico de Campinas, o greening continua sendo o maior entrave da citricultura brasileira e mundial. A gravidade está no fato de que a doença não impacta apenas uma etapa da produção. Ela começa no pomar, mas seus efeitos chegam à indústria, ao preço pago pela fruta, à qualidade do suco e ao consumo final.
“O greening afeta quase 50% das árvores dentro do cinturão citrícola, causando queda de frutos, afetando a produção e também a qualidade do suco”, afirmou o pesquisador durante o evento.
Esse dado ajuda a explicar por que o setor trata o problema como prioridade absoluta. Não se trata apenas de uma doença de manejo difícil, mas de um fator que altera a lógica econômica da atividade. Em pomares infectados, o produtor precisa gastar mais para manter a sanidade, renovar áreas, controlar o inseto vetor e tentar preservar a produtividade. Ao mesmo tempo, a pressão sobre a produção reduz a previsibilidade da safra.
Safra menor deve mexer nas relações de preço
A estimativa de 255 milhões de caixas para a safra 2026/27, divulgada pelo Fundecitrus, indica uma produção menor em relação ao ciclo anterior. Em um setor altamente dependente de escala, qualidade e regularidade de oferta, essa queda tende a influenciar as negociações ao longo do semestre.
A redução da oferta cria um ambiente de maior disputa pela fruta, tanto para o mercado fresco quanto para a indústria de suco de laranja. Isso não significa, necessariamente, uma valorização automática para todos os produtores, já que a qualidade da fruta, a incidência da doença, os custos de manejo e os contratos com a indústria pesam diretamente na formação de preço.
Ainda assim, a leitura de mercado é clara: com menos fruta disponível e maior pressão sanitária, as relações comerciais tendem a ficar mais sensíveis. Produtores com pomares mais bem manejados, menor incidência da doença e fruta de melhor padrão podem ganhar poder de negociação. Já áreas mais afetadas pelo greening enfrentam risco de perda de produtividade e maior custo por caixa produzida.
Greening: A doença também afeta a qualidade do suco
Um dos pontos mais importantes do debate é que o greening não atinge apenas o volume da safra. A doença também interfere na qualidade da fruta e, consequentemente, no padrão do suco de laranja brasileiro.
Esse efeito tem impacto direto sobre a competitividade da cadeia. Quando a qualidade do suco cai, o consumo pode ser afetado, especialmente em mercados mais exigentes. Isso cria uma sequência de consequências: a doença reduz a produção, compromete a qualidade, pressiona a indústria, altera preços e desafia a imagem de um produto no qual o Brasil é líder global.
Na avaliação de Mattos Junior, a queda de qualidade do suco tem relação direta com a redução do consumo observada no mercado. Para o setor, esse é um ponto sensível porque o Brasil construiu sua liderança mundial justamente com base em produtividade, escala industrial e capacidade de exportação.
Brasil segue competitivo, mas com custo maior
Mesmo sob forte pressão do greening, o Brasil continua entre os grandes protagonistas mundiais da produção e exportação de suco de laranja. Essa posição foi construída ao longo de décadas, especialmente pela combinação entre clima favorável, tecnologia de produção, indústria estruturada e logística de exportação.
O cinturão citrícola formado por São Paulo e pelo sul do Triângulo Mineiro segue como a principal região produtora do país. É ali que se concentra boa parte da estrutura que sustenta a liderança brasileira no mercado internacional. O problema é que essa liderança hoje exige mais investimento, mais tecnologia e mais eficiência do que no passado.
A comparação com outros polos produtores ajuda a entender o cenário. A Flórida, nos Estados Unidos, foi fortemente afetada pelo greening e perdeu relevância produtiva nos últimos anos. Esse enfraquecimento de concorrentes abriu espaço para o Brasil manter competitividade no mercado global, mas não eliminou os desafios internos.
Ou seja: o Brasil continua forte porque conseguiu produzir em escala mesmo em um ambiente sanitário adverso, mas o custo dessa permanência aumentou. A citricultura brasileira se mantém relevante não porque está livre do problema, mas porque desenvolveu capacidade técnica, industrial e logística para resistir melhor do que outros países.
Manejo exige coordenação entre produtores, pesquisa e indústria
O enfrentamento do greening não depende de uma única solução. Como não há uma resposta simples para eliminar a doença em larga escala, o controle passa por um conjunto de práticas integradas. Entre elas estão o monitoramento constante dos pomares, o controle do psilídeo, a eliminação de plantas muito comprometidas, o uso de mudas sadias e a adoção de estratégias regionais coordenadas.
Esse último ponto é decisivo. O greening não respeita divisas entre propriedades. Quando uma área é mal manejada, ela pode se tornar foco de disseminação para pomares vizinhos. Por isso, a resposta ao problema precisa envolver produtores, cooperativas, pesquisadores, indústria e órgãos de apoio técnico.
O papel da pesquisa também ganha peso nesse cenário. Instituições como o Centro de Citricultura do IAC atuam na geração e transferência de conhecimento para que o produtor consiga manter a atividade sustentável. Em um momento de margens pressionadas, a tecnologia passa a ser não apenas um diferencial, mas uma condição de sobrevivência.
O que está em jogo para o produtor
Para o citricultor, o avanço do greening traz impactos práticos e imediatos. O primeiro é o aumento do custo de produção. O manejo sanitário exige mais aplicações, mais monitoramento, mais mão de obra técnica e maior rigor na condução do pomar.
O segundo impacto é a perda de previsibilidade. Uma área afetada pode ter queda de produtividade e redução da vida útil das plantas, dificultando o planejamento de médio e longo prazo. Isso pesa especialmente para produtores que dependem da citricultura como atividade principal.
O terceiro ponto é a relação com a indústria. Em um ambiente de menor oferta e qualidade mais variável, os critérios de compra, pagamento e negociação tendem a ficar mais relevantes. A fruta de melhor qualidade passa a ter importância ainda maior em uma cadeia que precisa preservar padrão industrial e competitividade externa.
Citricultura brasileira entra em fase de seleção natural
O avanço do greening indica que a citricultura brasileira deve passar por uma fase de maior seleção técnica e econômica. Produtores mais capitalizados, com manejo profissionalizado, assistência técnica constante e capacidade de renovação de pomares tendem a resistir melhor. Já propriedades com baixa estrutura de controle sanitário podem enfrentar dificuldade crescente para permanecer na atividade.
Essa tendência não significa o fim da citricultura familiar ou de médios produtores, mas reforça a necessidade de organização. Cooperativas, associações, programas de manejo regional e acesso à tecnologia serão cada vez mais importantes para evitar que o greening acelere a concentração produtiva.
Para o agronegócio brasileiro, esse é um ponto estratégico. A laranja não é apenas uma cultura agrícola. Ela movimenta indústria, logística, exportação, empregos, pesquisa e renda em municípios altamente dependentes da atividade. Quando a citricultura é pressionada, o impacto se espalha por toda a economia regional.
Um setor forte, mas diante de uma prova decisiva
A citricultura brasileira chega a 2026 ainda como uma potência mundial, mas diante de um desafio que não pode ser tratado como problema pontual. O greening já se consolidou como uma ameaça estrutural, capaz de afetar produção, qualidade, consumo, preço e competitividade internacional.
A safra menor estimada pelo Fundecitrus reforça a necessidade de decisões rápidas e coordenadas. O setor terá de combinar manejo sanitário rigoroso, avanço tecnológico, renovação de pomares, pesquisa aplicada e diálogo entre produtores e indústria para preservar sua posição no mercado global.
O Brasil segue competitivo, mas o recado vindo dos pomares é claro: a liderança na laranja não será mantida apenas pela tradição produtiva, e sim pela capacidade de enfrentar o greening com inteligência, escala e coordenação setorial.
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