Do balcão do açougue ao império bilionário: como Marcos Molina uniu Marfrig e BRF

Com receita superior a R$ 150 bilhões, a gigante MBRF Global Foods nasceu da trajetória de um açougueiro do interior paulista, Marcos Molina, e se consolidou com aquisições estratégicas, forte alavancagem financeira e uma reestruturação decisiva no setor global de proteínas.

O império que hoje reúne Marfrig e BRF, formando uma das maiores companhias de alimentos do mundo, começou de maneira simples, no balcão de um açougue em Mogi Guaçu (SP). Décadas depois, a trajetória de Marcos Molina se transformaria em um dos casos mais emblemáticos do capitalismo brasileiro — combinando visão estratégica, expansão acelerada, ciclos de endividamento, apoio estatal, vendas emergenciais de ativos e uma ofensiva decisiva sobre a antiga concorrente BRF.

A história é marcada por ousadia empresarial, riscos elevados e movimentos que redefiniram o mapa global da proteína animal.

Marcos Molina e suas origens no interior paulista

Filho e neto de açougueiros, Molina iniciou a vida profissional ainda na adolescência. Aos 12 anos, já trabalhava no negócio da família, absorvendo na prática os fundamentos do comércio de carnes — relacionamento com fornecedores, negociação direta e entendimento das preferências do consumidor.

Aos 16 anos, emancipou-se para abrir um negócio próprio voltado à distribuição de miúdos. A operação cresceu rapidamente, ampliando a carteira de clientes e fornecendo cortes valorizados para restaurantes da capital paulista. O conhecimento técnico e comercial acumulado nessa fase seria determinante para os passos seguintes.

O salto industrial e o nascimento da Marfrig

O divisor de águas ocorreu no ano 2000, quando Molina adquiriu o frigorífico Bataguassu, no Mato Grosso do Sul. A compra marcou a transição definitiva do modelo de distribuição para o de produção e exportação direta de carne bovina.

A partir desse momento, a Marfrig passou a se posicionar como indústria exportadora, aproveitando a crescente demanda internacional por proteína brasileira. O movimento abriu espaço para uma estratégia de expansão agressiva.

Entre 2005 e 2008, a companhia realizou dezenas de aquisições, consolidando presença em diferentes mercados. Em 2007, abriu capital na bolsa brasileira, captando recursos para financiar a expansão acelerada.

Marcos Molina promove expansão global com apoio estatal

O avanço internacional contou com forte apoio financeiro do BNDES, dentro da política dos chamados “campeões nacionais”. Bilhões de reais em crédito ajudaram a financiar aquisições no exterior, incluindo ativos relevantes na América do Norte e Europa.

Nesse período, a Marfrig ampliou seu portfólio e passou a atuar também em alimentos processados, buscando reduzir a exposição exclusiva à volatilidade da carne bovina. Foram adquiridas empresas como a Seara e a Keystone Foods, movimento que aumentou significativamente o endividamento do grupo.

Alavancagem, crise e venda de ativos

O crescimento acelerado trouxe resultados operacionais, mas também elevou o risco financeiro. O endividamento disparou e pressionou o balanço da companhia. A estratégia de expansão via aquisições passou a cobrar seu preço.

Para reequilibrar a estrutura de capital, Molina precisou vender ativos estratégicos. A Seara foi repassada à JBS em 2013. Posteriormente, operações como Moy Park e Keystone também foram alienadas.

A companhia voltou a concentrar forças no seu núcleo original: a proteína bovina.

A virada com a National Beef

Reorganizada, a Marfrig realizou em 2018 um dos movimentos mais estratégicos de sua história: a compra do controle da National Beef, quarta maior processadora de carne bovina dos Estados Unidos.

A operação consolidou a presença da empresa no mercado norte-americano e garantiu maior estabilidade operacional, reduzindo a exposição a ciclos domésticos brasileiros. A Marfrig passou a ter forte presença em mercados premium, melhorando margens e previsibilidade de resultados.

A ofensiva sobre a BRF

Capitalizado e mais estável, Molina avançou sobre a BRF — dona das marcas Sadia e Perdigão — que atravessava uma fase de prejuízos acumulados e sucessivas crises corporativas.

A partir de 2021, passou a adquirir ações de forma consistente até ultrapassar 50% do capital, assumindo o controle da companhia. A gestão implementou um amplo processo de reestruturação operacional e financeira.

O plano incluiu revisão de portfólio, ajustes industriais e disciplina na alocação de capital. Em poucos anos, a BRF apresentou melhora nos resultados, recuperação de valor de mercado e reorganização estratégica.

Joint venture no Oriente Médio e expansão halal

Entre as jogadas mais relevantes esteve a aproximação com o fundo soberano saudita Salic. A parceria resultou em uma joint venture na Arábia Saudita, com investimento de cerca de US$ 160 milhões em uma nova planta processadora.

O movimento fortaleceu a presença no mercado halal e ampliou a inserção em mercados islâmicos estratégicos.

O “xeque-mate”: união total entre Marfrig e BRF

O movimento mais simbólico veio com a união total entre as companhias, formando a MBRF Global Foods. A operação criou uma gigante mundial em proteínas, com receita conjunta que ultrapassa R$ 150 bilhões anuais.

A nova estrutura combina forte presença em carne bovina nos Estados Unidos e América do Sul com liderança global em aves e alimentos processados.

Controvérsias e legado

A trajetória não foi isenta de polêmicas. Molina enfrentou investigações e acordos relacionados à Operação Greenfield, além de sanções administrativas da CVM em episódios envolvendo mercado de capitais.

Ainda assim, consolidou-se como um dos empresários mais influentes do setor de alimentos no Brasil.

Símbolo do capitalismo brasileiro contemporâneo

A história de Marcos Molina sintetiza características marcantes do ambiente corporativo nacional: uso intensivo de crédito estatal, expansão por aquisições, ciclos de forte alavancagem, reestruturações duras e reposicionamento estratégico.

De um açougue em Mogi Guaçu ao comando de uma gigante global de proteínas, a trajetória revela como visão empresarial, execução agressiva e decisões estratégicas podem transformar negócios regionais em conglomerados internacionais.

O império que começou no balcão de um açougue hoje figura entre os maiores grupos de alimentos do planeta — e continua moldando os rumos do mercado global de proteínas.

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