Boi gordo perde força no mercado físico e escalas mais confortáveis pressionam preços da arroba

Maior oferta de animais terminados, avanço das escalas de abate e consumo interno mais lento intensificam a pressão sobre o mercado do boi gordo; consultorias alertam para possível continuidade da queda na segunda quinzena de maio

O mercado físico do boi gordo voltou a registrar pressão negativa em diversas regiões do Brasil, refletindo um cenário marcado pelo aumento da oferta de animais terminados, escalas de abate mais confortáveis para os frigoríficos e desaceleração do consumo interno de carne bovina. O movimento já afeta importantes praças pecuárias do país e acende um sinal de atenção para pecuaristas e agentes da cadeia da carne.

Segundo análises divulgadas por consultorias do setor, o ambiente atual é típico do auge da safra do boi gordo, período em que há maior disponibilidade de animais a pasto e redução da capacidade de retenção por parte dos produtores, especialmente devido à perda gradual da qualidade das pastagens.

A consequência direta tem sido o alongamento das escalas de abate, que atualmente operam entre sete e nove dias úteis na média nacional, dando maior conforto às indústrias frigoríficas e reduzindo a necessidade de compras agressivas no mercado físico.

Além de São Paulo, Estados como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e até Mato Grosso — que vinha demonstrando maior resistência às baixas — também registraram desvalorizações recentes nas cotações da arroba.

Na praça paulista, a Agrifatto apontou o boi gordo comum cotado em R$ 345/@, enquanto o chamado “boi-China” recuou para R$ 355/@, ambos valores a prazo. Já a Scot Consultoria manteve referência de R$ 350/@ para o mercado interno paulista e R$ 355/@ para o padrão-exportação.

Os dados médios levantados pela Safras & Mercado também mostram retração em diversas regiões:

  • São Paulo: R$ 346,67/@
  • Goiás: R$ 329,89/@
  • Minas Gerais: R$ 328,24/@
  • Mato Grosso do Sul: R$ 345,91/@
  • Mato Grosso: R$ 353,31/@

De acordo com Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, o avanço das escalas está diretamente ligado ao aumento da disponibilidade de gado neste período do ano. Ao mesmo tempo, o mercado acompanha atentamente fatores externos ligados às exportações brasileiras, especialmente envolvendo China, Estados Unidos e União Europeia.

Consumo enfraquecido amplia pressão sobre a carne bovina

Além do aumento da oferta, outro fator pesa contra o mercado do boi gordo: a desaceleração do consumo doméstico. As consultorias apontam que a entrada da segunda quinzena do mês costuma reduzir o poder de compra da população, diminuindo o ritmo de vendas no varejo.

Segundo a Agrifatto, o mercado interno já apresenta sinais de “ressaca” após o período de feriado e as vendas relacionadas ao Dia das Mães. As entregas de carne bovina ao varejo perderam consistência ao longo da semana, enquanto aumentaram relatos de mercadorias encalhadas, devoluções parciais e adiamentos de descarregamentos.

O cenário econômico também favorece a migração do consumidor para proteínas mais baratas, como carne de frango, ovos e carne suína. A própria Safras & Mercado destacou que a carne bovina perdeu competitividade frente às proteínas concorrentes.

No atacado, o movimento já começa a aparecer nos preços dos cortes. Os cortes com osso operam em acomodação, enquanto os cortes desossados demonstram predominância de baixa. Entre os valores citados pelo mercado atacadista estão:

  • Quarto traseiro: R$ 27,50/kg
  • Quarto dianteiro: R$ 21,50/kg
  • Ponta de agulha: R$ 20,00/kg

Mercado externo preocupa frigoríficos e exportadores

Além das questões internas, a cadeia pecuária acompanha com preocupação os movimentos internacionais que podem impactar diretamente as exportações brasileiras de carne bovina.

Entre os principais pontos de atenção está a decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de fornecedores internacionais de carne bovina a partir de setembro de 2026, além das discussões envolvendo o mecanismo de salvaguarda da China.

No caso chinês, o temor gira em torno da possível aplicação de uma tarifa de 55% sobre exportações acima da cota permitida, o que pode alterar significativamente o fluxo de embarques brasileiros para o principal destino da carne bovina nacional.

Esse ambiente de incertezas faz com que frigoríficos adotem postura mais cautelosa nas compras, evitando formação excessiva de estoques em um momento de demanda mais lenta.

Mercado futuro também sente pressão nos preços do boi gordo

O clima negativo não ficou restrito ao mercado físico do boi gordo. Na B3, os contratos futuros do boi gordo também encerraram mais um pregão em queda.

O contrato com vencimento em maio de 2026 fechou cotado a R$ 340,70/@, registrando recuo de 0,93% em relação ao fechamento anterior.

A leitura predominante entre analistas é de que, no curto prazo, o mercado ainda pode enfrentar novas pressões baixistas, especialmente se o consumo interno continuar enfraquecido e as escalas seguirem confortáveis para a indústria.

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