ANTT impede cultivo agrícola na faixa de domínio e decisão gera revolta no agro

Nova determinação da ANTT impede cultivo agrícola na faixa de domínio e obriga cercamento em áreas às margens das rodovias; decisão coloca produtores rurais em alerta após anos de uso regularizado para produção agrícola.

Uma decisão recente da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) voltou a gerar forte reação dentro do agronegócio brasileiro. A medida, que restabelece a obrigatoriedade do cercamento das chamadas faixas de domínio — áreas localizadas paralelamente às rodovias federais concedidas — pode interromper imediatamente o cultivo agrícola realizado por centenas de produtores rurais, especialmente no Paraná.

A preocupação ganhou força após o Sistema FAEP enviar ofícios à própria ANTT, ao Ministério dos Transportes e a deputados federais solicitando revisão urgente da decisão. Segundo a entidade, a mudança gera insegurança jurídica, prejuízos econômicos e ameaça diretamente a continuidade de atividades produtivas já regularizadas.

O que muda com a decisão da ANTT?

Nos últimos anos, produtores rurais vinham utilizando essas áreas de maneira formalizada, através de instrumentos criados pela própria agência reguladora, como o Contrato de Permissão Especial de Uso (CPEU) e o Projeto de Interesse de Terceiro (PIT).

Na prática, essas áreas localizadas nas margens das rodovias passaram a ser incorporadas à atividade produtiva, principalmente para o cultivo de grãos e outras culturas agrícolas.

Com a nova determinação, a exigência do cercamento em prazo de apenas 30 dias inviabiliza a continuidade desse modelo produtivo e paralisa um processo de regularização que vinha sendo construído entre concessionárias, produtores e entidades do setor.

ANTT impede cultivo agrícola na faixa de domínio: Pequenos produtores podem ser os mais prejudicados

O impacto preocupa principalmente os pequenos produtores rurais. Segundo o Sistema FAEP, cerca de 85% das propriedades rurais do Paraná possuem menos de 50 hectares, e para muitos desses produtores, o uso dessas áreas representa uma parte importante da renda familiar.

O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, criticou duramente a decisão e afirmou que o setor volta a enfrentar uma situação que já estava praticamente resolvida.

Segundo ele, o problema vai além da burocracia.

“Não é possível seguir produzindo alimento e gerando receita para o país diante da constante insegurança”, afirmou Meneguette.

Milhões de metros quadrados já estavam regularizados

O ponto que mais gera revolta no setor é que boa parte dessas áreas já vinha passando por regularização formal junto às concessionárias.

Os números mostram a dimensão da atividade:

  • Na concessionária Motiva Paraná, mais de 1 milhão de metros quadrados já estavam formalizados;
  • Na Via Araucária, aproximadamente 500 mil metros quadrados foram regularizados;
  • Na Via Campo, cerca de 15% de uma extensão estimada em 520 quilômetros de áreas agrícolas já estava em processo de adequação.

Ou seja: produtores e concessionárias vinham construindo soluções que conciliavam segurança viária e produção agrícola, seguindo regras criadas pela própria ANTT.

Debate sobre cultivo agrícola na faixa de domínio reacende preocupação sobre segurança jurídica no campo

A decisão reacende um tema cada vez mais sensível no agro brasileiro: a insegurança jurídica sobre o uso da terra e regras que impactam diretamente a produção de alimentos.

Entidades do setor defendem que segurança nas rodovias é prioridade, mas argumentam que mudanças abruptas, sem diálogo técnico e sem período de adaptação adequado, criam instabilidade justamente para quem produz.

Agora, o setor rural pressiona Brasília em busca de uma solução que preserve tanto a segurança operacional das estradas quanto a continuidade da atividade agropecuária nessas áreas.

Mais do que uma questão regulatória, o episódio levanta um alerta importante: até que ponto decisões administrativas podem afetar diretamente a capacidade produtiva do campo brasileiro?

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