De onde vem o feijão do seu prato? Conheça o brasileiro que criou a variedade mais consumida no país

Criado a partir de uma mutação natural nos anos 1960, o feijão carioca hoje responde por 60% do mercado nacional e dita os novos rumos tecnológicos, econômicos e sustentáveis do agronegócio

O feijão é a espinha dorsal da gastronomia brasileira, com raízes profundas que remontam ao período pré-colonial, quando os povos originários já o consumiam rotineiramente misturado à farinha de mandioca. No entanto, a soberania do famoso feijão-carioca no cardápio nacional é um fenômeno recente, consolidado a partir da década de 1970.

Hoje, o grão de tom marrom-claro e listras escuras representa a variedade mais consumida no Brasil, abastecendo cerca de 60% dos pratos no país, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Por trás dessa revolução agrícola e nutricional estão mentes brilhantes da ciência nacional e uma surpreendente pitada de acaso.

A consolidação histórica do carioquinha nas mesas do país

Até meados dos anos 1960, a produção nacional operava sob uma lógica de fragmentação regional. Variedades tradicionais como o bico-de-ouro, rosinha, jalo, chumbinho e mulatinho dividiam de forma equilibrada as lavouras e a preferência dos consumidores, explica a gastrônoma e historiadora Camila Landi, coordenadora na Universidade Presbiteriana Mackenzie. A grande transformação ocorreu em 1963, no município de Ibirarema (SP), quando o engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes identificou uma mutação genética natural em sua propriedade. Em meio a um cultivo de feijão-chumbinho, surgiram plantas mais robustas com grãos listrados.

O avanço desse grão foi impulsionado pelo Instituto Agronômico (IAC), em Campinas, sob a liderança direta do agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida, historicamente consagrado como o “pai do carioquinha”. Como aponta o engenheiro químico Luiz Gustavo Lacerda, professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), a cultivar triunfou rapidamente por motivos econômicos claros: apresentava tetos produtivos muito superiores e excelente adaptabilidade climática.

Estudos conduzidos em 1971 mostraram que, enquanto variedades antigas produziam em média 1.280 kg por hectare, o carioquinha atingia a expressiva marca de 1.670 kg por hectare. Campanhas de marketing do governo de São Paulo e o trabalho de extensão rural de técnicos como José Norival Augusti, em Taquarituba, quebraram a desconfiança inicial do mercado em relação ao padrão rajado, barateando o produto e nacionalizando seu consumo.

De onde vem o feijão do seu prato? Conheça o brasileiro que criou a variedade mais consumida no país
Capa de fôlder que divulgava o novo feijão no início dos anos 1970 / Foto: José Norival Augusti

Da produtividade à tolerância ao escurecimento

A herança deixada por D’Artagnan de Almeida abriu as portas para que o melhoramento genético se transformasse em uma ferramenta contínua de eficiência para o produtor rural. Conforme explica o pesquisador do IAC, Alisson Fernando Chiorato, as exigências da indústria empacotadora e do comércio atacadista mudaram significativamente nas últimas décadas. Se nos anos 1970 o foco residia apenas em produtividade bruta, hoje a sobrevivência do produtor depende do atendimento a rigorosos padrões de qualidade física e fitossanitária.

Atualmente, um dos maiores desafios agronômicos associados ao feijão-carioca é a sua suscetibilidade ao escurecimento precoce do grão durante o armazenamento, um fator que deprecia drasticamente o valor pago ao produtor. Chiorato destaca que o desenvolvimento de novas cultivares — como as linhagens modernas lançadas pelo IAC — foca de maneira obstinada na tolerância ao escurecimento e no ganho de peso (massa de mil sementes ao redor de 310 gramas).

Impacto no bolso: Pesquisas recentes priorizam a introdução de resistência genética a doenças fúngicas severas, como a antracnose e a murcha de Fusarium. Segundo dados do instituto paulista, o uso de cultivares geneticamente protegidas confere uma redução de até 30% na necessidade de aplicação de agrotóxicos, diminuindo drasticamente os custos operacionais que pesam no orçamento do agricultor.

De onde vem o feijão do seu prato? Conheça o brasileiro que criou a variedade mais consumida no país
O engenheiro agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida é considerado o “pai do carioquinha” Foto: Arquivo Instituto Agronômico (IAC)

Dinâmica de preços e a busca por estabilidade da variedade mais consumida

No cenário econômico atual, o mercado do feijão-carioca opera sob as dinâmicas clássicas de oferta e demanda com nuances de alta volatilidade. De acordo com boletins do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (IBRAFE), as cotações da saca de feijão-carioca têm transitado em patamares firmes, oscilando entre R$ 320 e R$ 360 nas principais regiões produtoras, como o Noroeste de Minas Gerais e o polo de Ponta Grossa, no Paraná. O panorama é caracterizado por especialistas como um mercado equilibrado, mas sob constante monitoramento devido à liquidez física restrita do produto.

De onde vem o feijão do seu prato? Conheça o brasileiro que criou a variedade mais consumida no país
O agrônomo Norival Augusti (à esquerda) em plantação de feijão nos anos 1980 Foto:Arquivo Pessoal / José Norival Augusti

A forte dependência nacional pela variedade mais consumida exige do produtor rural uma gestão estratégica apurada do calendário e dos estoques. O presidente do IBRAFE, Marcelo Eduardo Lüders, aponta que o mercado frequentemente enfrenta o chamado “efeito manada”: momentos de preços elevados estimulam plantios massivos e desordenados, culminando em sobreoferta crônica e quedas severas nas safras seguintes. Diante desse ciclo, consultores de mercado reforçam que a lucratividade na agricultura do feijão depende não apenas de colher volumes elevados, mas da capacidade de sincronizar a venda com as janelas de escassez dos empacotadores urbanos.

O dilema da monocultura alimentar e o futuro sustentável do agronegócio

Embora o carioquinha mantenha sua liderança isolada, analistas do agronegócio e nutricionistas apontam para a necessidade premente de o Brasil diversificar tanto o cultivo quanto o consumo de pulses (leguminosas secas). Centralizar o abastecimento nacional em uma única cultivar torna a cadeia alimentar vulnerável a choques climáticos extremos, como secas prolongadas ou excesso de chuvas em polos produtores específicos. Sérgio Augusto Morais Carbonell, pesquisador e especialista no setor, argumenta que o fomento a outras variedades — como o feijão-preto, rajado, vermelho e o caupi — funciona como uma apólice de seguro contra crises inflacionárias na mesa do consumidor.

A evolução do setor também passa por exigências globais de sustentabilidade. O IBRAFE compartilhou recentemente as diretrizes levadas à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) focadas no conceito de Feijão Regenerativo. Essa nova tendência de mercado valoriza protocolos de produção que preconizam a conservação do solo, redução da pegada de carbono e o uso massivo de bioinsumos em detrimento dos fertilizantes sintéticos tradicionais. Conectar a tradição do feijão-carioca à sustentabilidade ambiental e à segurança alimentar assegura que a descoberta fortuita ocorrida na década de 1960 continue gerando valor econômico no campo e nutrição de excelência para a população.

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM