Amaggi expande portfólio agrícola com compra de 40% da produtora de etanol FS

Transação envolve aporte primário de US$ 100 milhões, estabelece cláusula de exclusividade no setor de biocombustíveis e impulsiona o pioneirismo em combustível carbono negativo no país

Em uma operação de grande relevância no ecossistema global de fusões e aquisições (M&A), a Amaggi expande portfólio agrícola de forma decisiva ao anunciar a compra de 40% do capital social da FS, pioneira e uma das maiores produtoras de etanol 100% a partir do milho no Brasil. O acordo une duas potências de Mato Grosso e foi oficialmente protocolado junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para análise regulatória competitiva, selando um alinhamento estratégico de longo prazo focado em verticalização, descarbonização e segurança energética.

A aliança foi celebrada pelas lideranças de ambos os grupos. Blairo Maggi, acionista e fundador da Amaggi, manifestou publicamente o entusiasmo com o negócio: “Estou confiante no que estamos construindo juntos, especialmente no alinhamento de valores, na visão de longo prazo e na capacidade de execução que fundamentam este negócio”. Do lado norte-americano, Bruce Rastetter, fundador do Summit Agricultural Group (controlador da FS), e Justin Kirchhoff, CEO da gestora, enfatizaram que a parceria elevará a FS a um “próximo nível” no mercado global de combustíveis limpos.

O desenho financeiro e de governança por trás do negócio de US$ 100 milhões

Embora os valores consolidados que envolvem a totalidade da compra de ações não tenham sido detalhados publicamente pelas companhias, o desenho corporativo e o fluxo imediato de capital já possuem pilares estabelecidos. De acordo com Rafael Abud, CEO da FS, a operação contempla uma injeção primária de recursos no valor de US$ 100 milhões mediante a emissão de novas ações da produtora. Simultaneamente, a Amaggi estruturou a aquisição de fatias secundárias pertencentes aos atuais acionistas da joint venture.

Um dos pontos mais importantes do contrato é a cláusula de exclusividade: a partir deste marco, todo e qualquer investimento futuro que o conglomerado da família Maggi decidir aportar no mercado de etanol de milho deverá ser canalizado obrigatoriamente por meio da FS.

Em termos de governança corporativa, as empresas asseguram que não haverá sobreposição operacional ou mudanças na atual diretoria executiva da FS; as marcas e operações comerciais continuarão rigorosamente independentes. A influência e a inteligência corporativa da Amaggi serão exercidas por meio do conselho de administração, composto por oito cadeiras, cuja nova divisão interna de assentos ainda não foi revelada. Segundo Judiney Carvalho, CEO da Amaggi, a transação é considerada “transformacional” para o grupo, pois impulsiona a diversificação industrial e robustece o fluxo de caixa de médio e longo prazo.

Como a Amaggi expande portfólio agrícola de olho nos 25% de market share do etanol de milho

Para compreender a magnitude desta união, é preciso analisar o cenário macroeconômico setorial. Segundo dados recentes da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) e da consultoria NovaCana, o etanol derivado do milho vive um crescimento exponencial no Brasil, avançando a taxas médias de 20% a 30% ao ano e já respondendo por cerca de 25% de toda a produção nacional de etanol — um salto impressionante para um segmento que detinha apenas 2% do mercado há menos de uma década. A capacidade instalada do país projeta alcançar impressionantes 12,6 bilhões de litros.

Neste cenário de expansão agressiva, a Amaggi — consagrada como a maior trading de capital 100% nacional, com faturamento superior a R$ 40 bilhões — passa a injetar musculatura e inteligência de mercado na FS, que por sua vez fatura cerca de R$ 13 bilhões por ano. As sinergias operacionais imediatas recaem sobre áreas críticas do agribusiness:

  • Originação de grãos: O milho representa aproximadamente 80% dos custos de produção da FS.
  • Eficiência em Logística e Trading: Oportunidades mútuas de escoamento e exportação.
  • Biomassa e Subprodutos: Geração e reaproveitamento energético nas usinas.

Rafael Abud pontuou que eventuais transações futuras de compra e venda de milho entre a trading da Amaggi e as usinas da FS seguirão as estritas flutuações e condições do livre mercado, assegurando a transparência concorrencial perante o mercado financeiro.

Bastidores: Da joint venture desfeita com a Inpasa à aprovação no Cade

A costura deste M&A simboliza uma verdadeira reviravolta nos bastidores do Centro-Oeste brasileiro. O apetite da Amaggi pela industrialização de biocombustíveis não é recente: no ano passado, o grupo da família Maggi chegou a anunciar uma sociedade de peso com outra gigante do setor, a Inpasa, desenhando a construção de três usinas de processamento de grãos em Mato Grosso. Contudo, o projeto foi abruptamente desfeito em menos de 60 dias devido a divergências estratégicas intransponíveis na condução do negócio.

A FS também esteve sob os holofotes de grandes bancas de investimentos ao negociar, em períodos anteriores, a venda de uma participação minoritária de suas ações para a Petrobras — tratativas que perderam tração e esfriaram em meio às mudanças de diretrizes da estatal petrolífera. A convergência entre Amaggi e Summit Agricultural Group preenche, portanto, lacunas de crescimento que ambos os players buscavam de forma isolada, criando uma barreira de entrada robusta contra os demais competidores do setor sucroenergético.

Eficiência estrutural: Por que a Amaggi expande portfólio agrícola apostando nos coprodutos e na China

Do ponto de vista puramente financeiro, a saúde e a dinâmica de capital da FS foram recentemente avaliadas em um relatório minucioso do banco BTG Pactual. Os analistas classificaram a empresa como um case de “eficiência estrutural”. Ao contrário das tradicionais usinas de cana-de-açúcar, suscetíveis à forte sazonalidade e paralisações na entressafra, as plantas da FS processam milho continuamente ao longo de todo o ano, registrando uma disponibilidade operacional superior a 99%.

O grande trunfo econômico da FS, contudo, reside na monetização de seus coprodutos de nutrição animal, conhecidos no mercado como DDGS (grãos de destilaria secos com solúveis). No processo de conversão do amido em combustível, o farelo altamente proteico resultante do milho é convertido em ração de alta performance para a pecuária de corte, suinocultura e avicultura. Esse braço de nutrição animal chega a mitigar e compensar 45% de todos os custos de aquisição do milho da companhia. A força desse mercado ficou evidente quando a FS realizou a histórica primeira exportação de DDG de alta proteína do Brasil direcionada à China, um mercado asiático cuja demanda latente é estimada em 7 milhões de toneladas anuais.

Essa altíssima eficiência garante à FS margens operacionais invejáveis, com um Ebitda de R$ 3,5 bilhões e uma margem implícita de 26,7% (gerando entre R$ 1 e R$ 1,2 de Ebitda por litro de combustível produzido). O aporte financeiro trazido pela Amaggi é visto por analistas como o gatilho ideal para destravar valor e suavizar a alavancagem financeira da companhia, que carregava uma dívida líquida de R$ 9,5 bilhões (o equivalente a 2,76 vezes o Ebitda).

Combustível carbono negativo e o futuro da FS na transição energética

O pipeline de engenharia e sustentabilidade da companhia segue inalterado e ganha fôlego renovado. Atualmente, a FS está concentrada na execução das obras de sua quarta unidade industrial, fixada no município de Campo Novo do Parecis (MT), cuja inauguração está datada para o final de 2026. O plano plurianual da companhia prevê, ainda, a ativação futura de mais duas plantas em terrenos já adquiridos em solo mato-grossense, visando alcançar a marca de seis fábricas em operação.

O projeto mais disruptivo do grupo, contudo, está previsto para estrear em setembro deste ano: a unidade de Captura e Armazenamento de Carbono (CCS) instalada no complexo industrial de Lucas do Rio Verde (MT). A tecnologia inovadora irá reter o CO₂ decorrente do processo fermentativo do grão e injetá-lo de forma segura em formações geológicas profundas. O sucesso pioneiro desta operação consolidará a FS perante os órgãos de certificação internacionais como a primeira produtora de combustível de matriz carbono negativo do planeta, um marco que posiciona o agronegócio do Centro-Sul brasileiro na vanguarda absoluta da transição energética e dos mercados de créditos de descarbonização (CBios).

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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