A invasão silenciosa: Como o Capim-Annoni está destruindo a produtividade das pastagens no Sul do Brasil

Com prejuízos anuais estimados em R$ 1,5 bilhão, a gramínea africana reduz a capacidade de carga das fazendas em até 60% e compromete a saúde do rebanho, exigindo estratégias rigorosas de manejo para evitar o colapso produtivo no Sul do Brasil

O que à primeira vista parece um campo verdejante e produtivo no Rio Grande do Sul esconde, na verdade, um colapso econômico e biológico em curso. O avanço do Capim-Annoni nas pastagens do bioma Pampa e de regiões de Santa Catarina e Paraná transformou-se no maior gargalo da pecuária de corte sulina.

Com uma estimativa de infestação que já supera os 3 milhões de hectares apenas em solo gaúcho, a espécie africana Eragrostis plana é hoje classificada por especialistas como uma “praga biológica de difícil erradicação”.

Por que o Capim-Annoni nas pastagens é quase imbatível?

Diferente das forrageiras nativas, o Capim-Annoni nas pastagens possui uma estratégia de sobrevivência agressiva. Segundo dados da Embrapa Pecuária Sul, uma única planta é capaz de produzir até 10 mil sementes por ciclo, que são disseminadas pelo vento, pela água e, principalmente, grudadas nos cascos e pelos de bovinos.

O maior trunfo da planta, no entanto, é a alelopatia. O Annoni libera substâncias químicas no solo que inibem a germinação de outras espécies. Isso cria um monocultivo forçado onde nada mais cresce, reduzindo a biodiversidade do Pampa e eliminando o “trevo” e o “azevém”, que são a base nutricional da pecuária gaúcha.

O “lixamento” dos dentes

Para o pecuarista, o dano não ocorre apenas na terra, mas diretamente na boca do animal. Por ser uma planta com altíssimo teor de sílica e fibras de difícil digestão, o Capim-Annoni nas pastagens funciona como uma lixa. Estudos veterinários comprovam que animais obrigados a pastar em áreas infestadas sofrem um desgaste prematuro dos dentes incisivos.

Este desgaste impede que o boi apreenda o pasto de forma eficiente, levando ao que os produtores chamam de “boi que morre de fome no meio do verde”. O resultado é uma redução drástica na vida útil das matrizes e uma queda no ganho de peso diário (GPD), que pode recuar de 0,800 kg para menos de 0,300 kg em áreas severamente comprometidas.

De R$ 1,5 bilhão em perdas anuais

A conta da invasão é salgada. De acordo com levantamentos técnicos do setor, a capacidade de suporte das pastagens cai de 1 Unidade Animal (UA) por hectare para menos de 0,4 UA após a consolidação do Annoni. Isso significa que o produtor precisa de mais do que o dobro da área para manter o mesmo rebanho.

Além disso, o valor patrimonial das terras sofre desvalorização. Fazendas com alta infestação de Capim-Annoni nas pastagens têm liquidez reduzida no mercado imobiliário rural, já que o custo de recuperação, que envolve calagem, adubação e controle químico rigoroso, pode ultrapassar os R$ 2.500,00 por hectare

A técnica “Campo Limpo” como esperança

A ciência brasileira, liderada pela Embrapa, desenvolveu o método “Campo Limpo”, uma estratégia de manejo que une tecnologia e persistência. A técnica baseia-se na aplicação seletiva de herbicidas através da máquina rotativa de fios (Grazing), que atinge apenas as plantas mais altas (o Annoni), preservando a pastagem nativa que cresce abaixo.

Entretanto, pesquisadores alertam: o controle é um processo de médio a longo prazo. Como as sementes mantêm viabilidade no solo por mais de 10 anos, qualquer falha no monitoramento pode resultar na reinfestação total da área em apenas duas safras.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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