Surto de Peste Suína Africana em granja da Polônia força abate de mais de 21 mil suínos

Confirmação do surto em uma granja comercial próxima à fronteira da Alemanha reacende preocupação com o avanço da Peste Suína Africana na Europa, amplia pressão sobre sistemas de biosseguridade e coloca o mercado global de proteínas em estado de atenção.

A confirmação de um surto de Peste Suína Africana (PSA) em uma granja comercial com mais de 21 mil suínos na Polônia elevou novamente o nível de tensão na suinocultura europeia e colocou autoridades sanitárias em estado de alerta máximo. O caso foi registrado na vila de Jarosławsko, na província da Pomerânia Ocidental, a cerca de 70 quilômetros da fronteira com a Alemanha, em uma das regiões mais monitoradas do continente por conta da circulação persistente do vírus entre javalis.

O foco chama atenção não apenas pelo tamanho da propriedade afetada — 21,3 mil animais —, mas pelo momento em que ocorre. A Europa vinha tentando estabilizar os casos em granjas comerciais após anos de avanço da doença no Leste Europeu, mas a nova ocorrência mostra que o vírus continua altamente ativo e difícil de controlar, principalmente em regiões com forte presença de fauna silvestre.

Pelas regras sanitárias da União Europeia, todo o plantel da fazenda será abatido compulsoriamente, numa tentativa de evitar a disseminação da doença para outras propriedades.

O episódio já é tratado como um dos mais graves desde o início da crise sanitária envolvendo PSA em granjas comerciais polonesas, iniciada em 2014. Segundo dados oficiais, esta é a 571ª propriedade comercial afetada pela doença no país e apenas a quinta, em mais de uma década, a ultrapassar a marca de 10 mil animais.

O maior registro da história polonesa ocorreu em 2020, quando quase 24 mil suínos precisaram ser sacrificados em outro foco sanitário. O novo caso reforça um temor crescente dentro da cadeia europeia: a dificuldade de impedir que o vírus saia do ambiente silvestre e alcance sistemas intensivos de produção.

Especialistas europeus têm destacado que os períodos mais quentes do ano favorecem a intensificação dos surtos, especialmente pela maior movimentação de animais selvagens e atividades rurais.

Embora a PSA não represente risco à saúde humana, ela é extremamente contagiosa entre suínos e possui elevada taxa de mortalidade, tornando-se uma das doenças mais destrutivas para a cadeia global de proteína animal.

Na prática, o maior problema para as autoridades sanitárias europeias continua sendo o controle dos javalis infectados, considerados os principais vetores de disseminação do vírus no continente.

Somente em 2026, até 20 de maio, a Polônia já havia contabilizado 1.241 javalis mortos com resultado positivo para PSA. Em 2025, foram 3.429 registros, enquanto o pico histórico ocorreu em 2020, com mais de 4,1 mil ocorrências confirmadas.

O avanço persistente da doença entre animais silvestres dificulta enormemente o controle sanitário porque cria focos permanentes de reinfecção próximos às áreas de produção intensiva.

A Alemanha, embora ainda sem registros da doença em granjas comerciais neste ano, acompanha o cenário com extrema preocupação. O vírus voltou a circular entre javalis nos estados da Saxônia e da Renânia do Norte-Vestfália, regiões consideradas estratégicas para a suinocultura europeia.

Na Saxônia, o retorno da doença ocorreu poucos meses após o estado ter sido declarado livre da PSA. Desde abril, dezenas de carcaças contaminadas voltaram a ser encontradas na região.

Já na Renânia do Norte-Vestfália, o avanço dos casos levou o governo alemão a ampliar zonas de contenção e investir em tecnologia para monitorar populações silvestres. Entre fevereiro e março de 2026, drones com câmeras térmicas foram utilizados para mapear javalis em áreas protegidas. O levantamento indicou cerca de 1,5 mil animais circulando nas zonas monitoradas após o período reprodutivo.

A estratégia mostra como a PSA deixou de ser apenas uma questão veterinária e passou a exigir operações complexas de inteligência territorial, rastreamento ambiental e monitoramento em larga escala.

O avanço da PSA na Europa reacende um alerta conhecido do mercado internacional: surtos sanitários em grandes produtores costumam gerar impactos imediatos sobre comércio exterior, preços da carne e fluxo global de proteínas.

Historicamente, a doença já provocou mudanças profundas no setor. O caso mais emblemático ocorreu na China, quando a PSA devastou parte do rebanho suíno do país e alterou completamente o mercado global de carnes, elevando importações e pressionando preços internacionais.

Agora, embora o foco europeu ainda esteja concentrado em áreas específicas, operadores do setor acompanham com atenção os riscos de novas restrições comerciais, barreiras sanitárias e possíveis efeitos indiretos sobre oferta e demanda global.

Além disso, a presença contínua da doença em javalis demonstra que a erradicação da PSA segue distante na Europa, o que mantém o continente sob vigilância permanente.

Para o Brasil, oficialmente livre da Peste Suína Africana há décadas, o avanço da doença no exterior reforça a importância estratégica dos protocolos de biosseguridade nas granjas comerciais.

O país possui uma das maiores cadeias exportadoras de proteína animal do mundo e qualquer vulnerabilidade sanitária representa risco direto para mercados internacionais altamente exigentes.

Na avaliação de especialistas do setor, o cenário europeu serve como alerta para reforço de medidas como:

  • controle rigoroso de acesso às granjas;
  • monitoramento sanitário permanente;
  • rastreabilidade;
  • manejo adequado de resíduos;
  • barreiras físicas contra animais silvestres;
  • treinamento constante de equipes.

Mais do que uma crise regional, o avanço da PSA na Europa evidencia como doenças sanitárias se tornaram hoje um tema central da geopolítica das proteínas animais.

Em um mercado globalizado, surtos localizados podem rapidamente afetar preços, exportações, logística e competitividade internacional — especialmente em cadeias altamente integradas como a suinocultura.

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