Regulamentação federal ameaça a produção da linguiça centenária de Blumenau

Limite máximo de gordura exigido pelo Ministério da Agricultura esbarra na perda natural de umidade do embutido artesanal, colocando em risco uma receita de 125 anos e mobilizando produtores em Santa Catarina

Uma nova adequação de normas sanitárias está gerando um forte impasse que coloca em risco uma das maiores tradições culinárias do sul do país. A regulamentação federal ameaça a produção da linguiça centenária de Blumenau, o que gerou preocupação em 20 produtores distribuídos por 16 cidades de Santa Catarina especializadas nessa receita.

O conflito central gira em torno da Instrução Normativa nº 4/2000 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que passou a ser exigida em âmbito estadual e impõe um limite máximo de 30% de gordura para o embutido, uma barreira técnica de difícil controle em processos artesanais.

O impasse técnico e a perda de umidade natural

O cerne do problema reside nas propriedades físicas de maturação do produto. Por se tratar de um embutido suíno, úmido, curado, defumado e de textura tradicionalmente pastosa, a linguiça Blumenau sofre desidratação natural com o passar do tempo nas gôndolas dos comércios. Embora as análises e amostragens iniciais indiquem que o produto possui entre 23% e 25% de gordura na sua fabricação, a perda da umidade concentra e acentua os valores lipídicos, fazendo com que o percentual final ultrapasse o limite de 30% permitido pela legislação.

De acordo com Luiz Bergamo, sócio-proprietário da Olho Embutidos, o controle milimétrico dessas oscilações em uma fabricação artesanal é inviável. Bergamo reforça que o setor produtivo respeita os protocolos sanitários e as diretrizes de segurança alimentar, mas reitera como a regulamentação federal ameaça a produção da linguiça centenária de Blumenau ao ignorar as características culturais e biológicas do alimento.

A Indicação Geográfica e o conflito de normas

A polêmica ganhou força nesta semana após o Governo do Estado de Santa Catarina publicar a portaria SAR 14/2026, que adota as diretrizes do MAPA. Essa decisão colide frontalmente com a salvaguarda histórica concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) que, desde 2024, conferiu o selo de Indicação Geográfica (IG), na modalidade de Indicação de Procedência (IP), para a linguiça Blumenau produzida em municípios do Vale e do Alto Vale do Itajaí.

O INPI reconhece o produto como um símbolo autêntico da imigração alemã e fruto de saberes tradicionais com mais de 125 anos de história. Atualmente, estima-se que sejam produzidas quase 2 milhões de unidades por ano da iguaria, consumida amplamente tanto in natura quanto em preparos como cucas, risotos e quiches. Diante desse cenário, críticos apontam que a regulamentação federal ameaça a produção da linguiça centenária de Blumenau criando uma severa insegurança jurídica que invalida o próprio selo de proteção histórica do embutido.

Mobilização política e a busca por consenso

Em reação ao decreto estadual, o deputado estadual Napoleão Bernardes (PSD) apresentou na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC) um projeto de sustação de ato com a finalidade de anular os efeitos da portaria local. O parlamentar argumenta que o patrimônio cultural do estado não pode ser prejudicado por incompatibilidades burocráticas.

Paralelamente à movimentação legislativa, as lideranças do setor agroalimentar negociam soluções diretas com o poder Executivo. Na última terça-feira (2), ocorreu uma reunião estratégica de alinhamento com representantes da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), do Ministério Público e do Ministério da Agricultura. Segundo João Rodrigues de Souza Junior, diretor financeiro da Associação dos Produtores da linguiça Blumenau, as tratativas estão caminhando para a elaboração de uma nova instrução normativa que reconheça a especificidade técnica do embutido catarinense, garantindo que o consumidor continue recebendo a receita original sem qualquer alteração na gôndola.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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