Região esquecida do Paraguai vira nova fronteira do agro e atrai onda de investidores

Impulsionado pela Rota Bioceânica, o Chaco Paraguaio deixa para trás o isolamento histórico e começa a viver uma transformação que mistura logística, pecuária, agricultura e corrida por terras

Por décadas, o Chaco Paraguaio foi tratado como uma espécie de “vazio econômico” da América do Sul. Com clima extremo, longas distâncias, poucas cidades e infraestrutura limitada, a região era lembrada mais pelo isolamento do que pelas oportunidades.

Agora, isso começa a mudar rapidamente.

A construção da Rota Bioceânica está redesenhando o mapa logístico do continente e transformando o Chaco em uma das regiões mais observadas por empresários e produtores rurais brasileiros. O corredor vai conectar o Brasil aos portos do Chile, atravessando Paraguai e Argentina, criando uma nova saída para exportações rumo ao Oceano Pacífico.

O que parecia um projeto distante já começa a produzir efeitos concretos. Cidades antes esquecidas, como Carmelo Peralta, passaram a receber obras de infraestrutura, galpões logísticos, melhorias rodoviárias e investimentos ligados ao transporte internacional de cargas.

A grande vitrine desse processo é a ponte internacional que ligará Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, a Carmelo Peralta, no Paraguai. A estrutura, considerada estratégica para o corredor bioceânico, terá quase 1,3 quilômetro de extensão e deve ser concluída em 2026.

Especialistas do setor logístico afirmam que a nova rota pode reduzir significativamente o tempo de exportação de produtos brasileiros para a Ásia, diminuindo custos e aumentando a competitividade do agro nacional. O projeto passou a ser chamado até mesmo de “Canal do Panamá terrestre”, justamente pelo potencial de alterar os fluxos comerciais da América do Sul.

Mas o que mais chama atenção não é apenas a estrada. É a corrida silenciosa por terras no Chaco.

Produtores brasileiros de Mato Grosso, Paraná, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul começaram a olhar para o Paraguai como alternativa para expansão agrícola e pecuária. O movimento cresceu tanto que já envolve empresários conhecidos nacionalmente, incluindo o apresentador Ratinho.

Ao explicar por que obteve residência permanente paraguaia, Ratinho foi direto: “Paraguai eu só fui comprar terra, porque as terras do Paraguai são mais vantajosas hoje do que no Brasil”. Segundo ele, a decisão foi motivada exclusivamente por negócios rurais.

A fala do apresentador simboliza um movimento cada vez mais visível no agro sul-americano. O Chaco Paraguaio passou a atrair produtores pela combinação entre terras mais acessíveis, baixa tributação, custos operacionais menores e ambiente considerado mais simples para investimentos rurais.

Além disso, a região possui áreas enormes ainda disponíveis para expansão pecuária e agrícola. Em muitos casos, propriedades no Chaco custam uma fração do valor encontrado em regiões consolidadas do Brasil. Dependendo da localização, do acesso e da qualidade da infraestrutura, relatos do mercado apontam valores que podem variar entre US$ 500 e US$ 3 mil por hectare, números muito inferiores aos praticados em partes do Centro-Oeste brasileiro.

O Chaco ocupa cerca de 60% do território do Paraguai, mas abriga uma parcela pequena da população do país. Historicamente associado à pecuária extensiva, o território vem passando por modernização acelerada, principalmente com a chegada de produtores brasileiros que levaram genética bovina, mecanização e tecnologia agrícola.

Apesar da fama de região seca e hostil, especialistas explicam que partes do Chaco possuem terras altamente produtivas quando manejadas corretamente. Algumas áreas têm solos com boa aptidão para pecuária intensiva, soja, milho e pastagens cultivadas. Nos últimos anos, o avanço tecnológico permitiu corrigir limitações históricas do solo e melhorar significativamente a produtividade.

O setor pecuário foi um dos primeiros a enxergar potencial na região. Grandes grupos brasileiros passaram a investir em confinamentos, melhoramento genético e abertura de áreas produtivas. Em seguida vieram agricultores interessados em expansão territorial e redução de custos.

O fenômeno é tão intenso que empresários ligados ao agro afirmam que brasileiros já dominam boa parte das áreas agricultáveis do Paraguai. Em debates repercutidos em comunidades online e fóruns econômicos, produtores e investidores relatam que o capital brasileiro hoje exerce enorme influência sobre a produção agrícola paraguaia.

A própria transformação urbana do Chaco já começou. Cidades que antes tinham pouca movimentação passaram a receber hotéis, postos de combustível, centros logísticos, oficinas, silos e empresas de transporte.

Mesmo assim, ainda existem desafios importantes. O clima extremo continua sendo um fator complicado, com temperaturas elevadas e períodos prolongados de seca. A infraestrutura ainda está em desenvolvimento em várias áreas e existem gargalos relacionados à energia, telecomunicações e mão de obra especializada.

Ainda assim, a percepção entre investidores é clara: o Chaco Paraguaio deixou de ser apenas uma região isolada e passou a ser visto como uma nova fronteira estratégica do agro sul-americano.

E a Rota Bioceânica pode ser justamente o gatilho que faltava para acelerar essa transformação.

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