Ração contaminada: mortes de mais de 200 cavalos levam fábrica à mira da Justiça

Perícias avançam após morte de cavalos milionários por ração contaminada; empresa interditada pode responder criminalmente por prejuízo devastador ao setor equino brasileiro.

A investigação sobre a morte de centenas de cavalos após o consumo de ração contaminada continua mobilizando autoridades sanitárias, policiais e peritos em diferentes regiões do Brasil. O caso, considerado inédito pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), já ultrapassa a marca de 245 cavalos mortos oficialmente e provocou um dos maiores alertas sanitários da história recente do setor equino nacional.

As suspeitas da ração contaminada recaem sobre produtos fabricados pela empresa Nutratta Nutrição Animal, investigada por possível falha no controle de matérias-primas utilizadas na produção de rações comerciais para cavalos. A gravidade da situação levou à interdição da fábrica e abriu espaço para investigações criminais e administrativas envolvendo possíveis responsabilidades da empresa.

Além das perdas financeiras milionárias, o episódio abalou criadores de cavalos, veterinários e proprietários de haras em diferentes estados brasileiros. Entre os casos mais impactantes está o de um garanhão premiado avaliado em aproximadamente R$ 12 milhões, que morreu após apresentar sintomas compatíveis com intoxicação aguda.

Nesta sexta-feira (15), a Polícia Científica de Alagoas confirmou uma nova etapa das investigações com a coleta de amostras de ração animal apreendidas em um haras localizado no município de Atalaia.

O trabalho foi conduzido pelo Instituto de Criminalística (IC) de Maceió e integra o inquérito instaurado após a morte de aproximadamente 90 cavalos na propriedade, registrada no ano passado. Segundo os investigadores, os animais apresentaram rápida evolução clínica após o consumo do alimento fabricado comercialmente.

De acordo com a Polícia Científica, as amostras recolhidas serão submetidas a análises laboratoriais detalhadas para identificar substâncias tóxicas, avaliar a composição do produto e verificar possíveis falhas relacionadas à fabricação e armazenamento da ração.

Ração contaminada e o laudo

A médica-veterinária e perita criminal Jana Kelly, responsável pela coordenação da perícia, explicou que os exames serão fundamentais para determinar tecnicamente os fatores envolvidos na contaminação.

“O exame laboratorial buscará detectar a presença de substâncias tóxicas, além de avaliar a composição e a integridade do produto armazenado”, afirmou a perita.

Ela também destacou que todo o material recolhido seguiu rigorosos protocolos de cadeia de custódia, garantindo rastreabilidade, identificação e acondicionamento adequado das evidências encaminhadas ao Laboratório de Química.

A equipe pericial contou ainda com os peritos criminais Marcelo Velez, Amanda Lemes e Vinicius Rabelo, além do apoio do auxiliar de perícia André Lira.

As investigações conduzidas pelo Ministério da Agricultura já haviam identificado a presença de monocrotalina nas amostras analisadas pelos Laboratórios Federais de Defesa Agropecuária (LFDA). A substância pertence ao grupo dos alcaloides pirrolizidínicos e é considerada extremamente tóxica para equinos.

Segundo o MAPA, a contaminação teria ocorrido devido à presença de resíduos de plantas do gênero Crotalaria nas matérias-primas utilizadas pela indústria investigada.

Os alcaloides pirrolizidínicos podem provocar graves danos hepáticos e neurológicos nos animais, mesmo em pequenas quantidades. Entre os sintomas relatados nos casos investigados estão:

  • perda de coordenação motora;
  • alterações neurológicas;
  • apatia;
  • dificuldade de locomoção;
  • insuficiência hepática;
  • emagrecimento progressivo;
  • morte súbita.

O secretário de Defesa Agropecuária do MAPA, Carlos Goulart, classificou o episódio como algo sem precedentes na história da fiscalização sanitária brasileira.

“Esse é um caso único. Nunca, em toda a história do Ministério, havíamos identificado a presença dessa substância em ração para equinos”, afirmou o secretário.

Os casos investigados já atingem propriedades em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas, mas há registros sob análise também em Goiás, Bahia e outras regiões do país.

Segundo o MAPA, em todas as propriedades investigadas os animais que adoeceram ou morreram consumiram produtos da empresa investigada. Já os cavalos que não ingeriram a ração permaneceram saudáveis, mesmo quando mantidos nos mesmos ambientes.

O cenário reforçou as suspeitas sobre a ligação direta entre os produtos fabricados e os quadros clínicos observados nos equinos.

Além das mortes, veterinários relatam que diversos animais sobreviveram com sequelas severas, principalmente relacionadas ao sistema hepático e neurológico.

Diante da gravidade das evidências técnicas, o Ministério da Agricultura instaurou processo administrativo fiscalizatório, lavrou autos de infração e determinou inicialmente a suspensão cautelar da fabricação de rações destinadas a equídeos.

Posteriormente, a restrição foi ampliada para produtos destinados a todas as espécies animais.

Mesmo após decisões judiciais que chegaram a autorizar parcialmente a retomada das atividades industriais, o MAPA recorreu apresentando novas evidências técnicas relacionadas ao risco sanitário dos produtos fabricados pela empresa.

As perícias criminais realizadas em Alagoas e em outros estados agora devem ajudar a consolidar os laudos finais que poderão embasar futuras responsabilizações civis e criminais.

Segundo as autoridades, a conclusão das análises laboratoriais depende ainda da chegada de reagentes importados, já que se trata de uma ocorrência considerada extremamente incomum tanto em Alagoas quanto no restante do país.

Enquanto isso, o setor equino brasileiro segue acompanhando com preocupação os desdobramentos do caso, que já deixou prejuízos milionários, afetou haras de alto padrão e expôs fragilidades nos controles sanitários da cadeia de nutrição animal no Brasil.

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