Exigências da União Europeia sobre o uso de aditivos antimicrobianos em confinamentos acendem alerta no setor; especialistas apontam impacto direto nos custos, produtividade e rastreabilidade da carne bovina brasileira
A pecuária de corte brasileira entrou em um novo capítulo de tensão comercial e sanitária após o endurecimento das exigências da União Europeia sobre o uso de antimicrobianos na produção de carne bovina. O tema, que vinha sendo discutido nos bastidores do setor desde abril, ganhou força nas últimas semanas e já provoca preocupação entre técnicos, confinadores, indústrias de nutrição animal e exportadores.
No centro da discussão está a utilização de aditivos melhoradores de desempenho em sistemas intensivos de produção, principalmente em confinamentos de alto grão. Entre eles, a virginiamicina desponta como o principal alvo das restrições europeias.
Segundo Dhones Rodrigues de Andrade, doutor em zootecnia e supervisor técnico da Facholi Sementes e Nutrição, o cenário mistura questões sanitárias, comerciais e diplomáticas.
“Existem dois fatores muito entrelaçados hoje. Um é realmente a proibição total de alguns antimicrobianos. O outro é uma rastreabilidade muito maior da carne exportada, para comprovar que ela é isenta desse tipo de produto”, explica.
De acordo com o especialista, países concorrentes do Brasil no mercado europeu, como Uruguai, Chile e Argentina, já avançaram em protocolos mais rígidos relacionados ao não uso desses compostos, enquanto o Brasil ainda busca alternativas técnicas e negociações diplomáticas para evitar perdas comerciais.
Nos confinamentos brasileiros, a associação entre monensina e virginiamicina se consolidou como uma das principais estratégias nutricionais para melhorar eficiência alimentar, estabilidade ruminal e ganho de peso dos animais.
Dhones explica que esses aditivos desempenham papel central especialmente em dietas mais energéticas, típicas de sistemas intensivos. “Quando eu trabalho com dietas mais desafiadoras, principalmente de alto valor energético, a associação dos dois melhoradores de desempenho traz mais eficiência produtiva e mais segurança nutricional”, afirma.
Segundo ele, além de melhorar o aproveitamento energético da dieta, os antimicrobianos ajudam a reduzir distúrbios metabólicos e estabilizar o consumo dos animais. “A virginiamicina complementa o efeito da monensina. É justamente essa associação que entrega uma segurança nutricional muito alta dentro do confinamento”, acrescenta.
O problema é que a União Europeia passou a exigir comprovação de ausência total desses compostos na cadeia de produção da carne exportada ao bloco. “Eles querem comprovar realmente o não uso de antimicrobianos. Não é apenas limite seguro. A exigência é um sistema totalmente isento desse tipo de produto”, pontua Dhones.
Rastreabilidade pode virar caminho — e também custo
Diante da pressão europeia, o setor já trabalha com duas possibilidades: tentar reverter diplomaticamente parte das restrições ou criar uma cadeia segregada e altamente rastreada para produção de carne “livre de antimicrobianos”.
Na prática, isso significaria selecionar produtores específicos para atender exclusivamente o mercado europeu, semelhante ao modelo já utilizado hoje na chamada Cota Hilton. “O Brasil talvez precise criar uma carne com valor agregado, uma espécie de ‘boi livre de antimicrobianos’, com bonificação específica”, avalia o especialista.
O desafio, porém, está no custo dessa operação.
Sem a virginiamicina, confinadores precisariam recorrer a alternativas nutricionais mais caras e ainda menos eficientes do ponto de vista técnico. Entre as opções estudadas pela indústria estão óleos essenciais, leveduras e compostos vegetais capazes de melhorar o ambiente ruminal e reduzir perdas energéticas. “Hoje existem produtos alternativos no mercado, principalmente óleos essenciais e leveduras. Mas, nos estudos que acompanhei, eles conseguem resultados semelhantes em alguns casos, porém dificilmente superiores aos antimicrobianos”, afirma.
Além disso, as doses necessárias desses substitutos costumam ser maiores, elevando diretamente o custo da dieta. “A tendência é que a dieta fique mais cara. E aí entra a grande dúvida: o produtor terá rentabilidade suficiente para compensar esse aumento de custo?”, questiona.

Confinamento cresce mesmo sob pressão
Apesar das incertezas, a avaliação dentro do setor é de que o confinamento continuará crescendo no Brasil nos próximos anos.
Atualmente, estimativas de mercado apontam que cerca de 20% dos bovinos abatidos no país já passam por sistemas intensivos de terminação, número que aumentou significativamente na última década.
Segundo Dhones, mesmo com oscilações causadas pelo ciclo pecuário, retenção de fêmeas e alta no preço da reposição, a tendência estrutural ainda é de expansão. “Existem momentos de desaceleração, principalmente quando falta reposição e o bezerro fica muito caro. Mas, olhando historicamente, o confinamento continua crescendo”, afirma.
Ele destaca que o avanço da intensificação da pecuária brasileira torna ainda mais sensível qualquer mudança envolvendo aditivos nutricionais. “O confinamento depende de eficiência. Quando você mexe em ferramentas que impactam diretamente ganho de peso, saúde ruminal e conversão alimentar, isso inevitavelmente mexe no custo da arroba produzida”, explica.
Pressão internacional pode redesenhar a pecuária brasileira
Nos bastidores do setor, a percepção é que a discussão vai muito além da questão sanitária. Técnicos e produtores enxergam um movimento crescente de exigências internacionais ligadas à rastreabilidade, sustentabilidade e protocolos produtivos.
A retirada dos antimicrobianos pode se transformar, na prática, em mais uma barreira comercial para acesso ao mercado europeu.
Enquanto o governo brasileiro tenta negociar uma saída diplomática, empresas de nutrição animal aceleram pesquisas em busca de substitutos viáveis economicamente.
O setor, porém, já sabe que qualquer mudança terá impacto direto dentro da porteira.
“Alguma coisa vai mudar. Mas um ponto precisa ser observado: se o produtor tiver que produzir uma carne sem antimicrobianos, com maior controle, rastreabilidade e custos nutricionais mais elevados, ele também precisará ser remunerado por isso. Caso contrário, a conta não fecha dentro da porteira”, conclui Dhones.
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