Enquanto o acordo entre Mercosul e União Europeia é vendido como uma grande oportunidade para o agro, aumentam os alertas sobre burocracia, rastreabilidade e o custo das novas exigências impostas ao produtor brasileiro
Por Fernando Lopa – Durante muitos anos, o acordo entre Mercosul e União Europeia foi tratado como uma grande promessa para o agro brasileiro. Sempre apareceu como a porta de entrada para um mercado gigantesco, consumidor e disposto a comprar nossos produtos.
Agora, com a implementação provisória do acordo avançando, boa parte dos analistas, setores do agro e da própria mídia passou a destacar quase exclusivamente os benefícios dessa aproximação comercial. Mas é justamente aí que mora o alerta: entusiasmo sem reflexão costuma custar caro. E, neste caso, a conta pode acabar chegando dentro da porteira.
Não há dúvidas de que a União Europeia representa um mercado poderoso, sofisticado e com enorme capacidade de consumo. Existe demanda para carne, grãos, café, frutas e diversos produtos brasileiros. Isso é inegável.
O problema é que a Europa não compra apenas alimento.
Ela compra rastreabilidade, documentação, conformidade ambiental, controle sanitário e previsibilidade.
O produtor brasileiro aprendeu, ao longo das últimas décadas, a ser eficiente dentro da porteira. Produzir mais gastando menos virou praticamente uma condição de sobrevivência. Só que as regras do jogo estão mudando rapidamente.
Agora, não basta apenas produzir bem.
Será necessário comprovar como se produz, de onde vem cada produto, quais práticas são utilizadas e qual impacto aquela produção gera.
Existe hoje uma narrativa de que o acordo abrirá automaticamente as portas da Europa para o agro brasileiro. Mas essa visão simplifica demais uma realidade extremamente complexa.
Os europeus sabem que o Brasil é competitivo. Sabem que nossa capacidade produtiva impressiona o mundo. E exatamente por isso aumentam, cada vez mais, as exigências comerciais, ambientais e regulatórias.
Com o avanço das tratativas, começam a surgir os “senões”.
A União Europeia já pressiona, por exemplo, sobre o uso de antimicrobianos, rastreabilidade individual dos animais e comprovação documental de toda a cadeia produtiva. Na prática, a mensagem é clara: não basta o Brasil dizer que cumpre regras. Será preciso provar, por meio de auditorias, sistemas de monitoramento e evidências verificáveis.
Ou seja, mudanças no papel não serão suficientes sem controle real da produção.
Na prática, o produtor brasileiro pode acabar entrando em uma corrida burocrática pesada, enquanto a Europa mantém sofisticados mecanismos de proteção ao próprio produtor europeu.
O receio é o Brasil perder espaço justamente nos mercados de maior valor agregado enquanto ainda tenta estruturar sistemas que já deveriam estar maduros há anos.
Ao mesmo tempo, ignorar esse movimento também seria um erro.
O mercado europeu continua sendo uma referência global em padrões sanitários, ambientais e comerciais. E existe um temor legítimo de que exigências hoje restritas à Europa acabem sendo replicadas por outros compradores ao redor do mundo.
Talvez a discussão nem seja mais apenas sobre cumprir regras.
A verdadeira pergunta é: quem vai definir as regras da produção agropecuária brasileira daqui para frente? Nós ou os europeus?
Porque, em muitos momentos, o debate deixa de ser apenas técnico e passa a envolver interesses econômicos, geopolíticos e comerciais.
A cobrança europeia por rastreabilidade não é novidade. O que mudou foi o nível de exigência sobre controle, comprovação e monitoramento da cadeia produtiva.
E a cada nova exigência, aumentam também os custos dentro da porteira.
Mais auditorias. Mais tecnologia. Mais burocracia. Mais responsabilidade sobre o produtor — justamente o elo que menos captura valor dentro da cadeia do agronegócio.
A pergunta que poucos gostam de fazer publicamente é simples:
O prêmio pago pela Europa realmente compensa tudo aquilo que ela exige do produtor brasileiro?
Porque, em muitos casos, outros mercados compram volume, pagam rápido e exigem menos interferência sobre o modelo produtivo nacional.
Particularmente, penso que o maior desafio não seja decidir se o acordo é bom ou ruim para o agro brasileiro.
O verdadeiro desafio é entender se estamos preparados para defender nossos próprios interesses sem abrir mão da nossa autonomia produtiva.
O Brasil construiu uma das agropecuárias mais eficientes do mundo produzindo em ambiente tropical, enfrentando dificuldades logísticas, insegurança jurídica e oscilações econômicas que poucos países suportariam.
O produtor brasileiro já provou sua capacidade de competir.
A questão agora é saber até que ponto vale aceitar exigências externas sem transformar o campo em um ambiente cada vez mais caro, burocrático e distante da realidade de quem produz.
O mercado europeu pode, sim, abrir portas importantes.
Mas nenhum acordo será realmente vantajoso se o produtor continuar assumindo a maior parte da pressão enquanto outros ficam com a maior parte do valor.
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