Com mais de R$ 46 milhões em protestos, bloqueios judiciais superiores a R$ 7,5 milhões e dificuldades para manter a alimentação de suínos, BMG Foods obtém suspensão de execuções por 60 dias
A crise financeira da BMG Foods ganhou um novo e preocupante capítulo nesta semana. A Justiça do Paraná concedeu à empresa uma tutela de urgência cautelar antecedente à recuperação judicial, suspendendo por 60 dias as execuções movidas por credores enquanto a companhia tenta negociar seu passivo em um procedimento de mediação envolvendo 94 credores.
A decisão foi proferida pela 1ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba após a empresa relatar um quadro de forte deterioração financeira, marcado por mais de 1.500 títulos protestados que somam mais de R$ 46 milhões, além de bloqueios judiciais superiores a R$ 7,5 milhões já realizados contra suas contas e ativos.
Segundo o processo, a situação chegou a afetar diretamente as operações da companhia, que alegou dificuldades para adquirir ração, medicamentos e insumos veterinários para seus plantéis de suínos. A empresa informou à Justiça que a restrição financeira já provocava aumento da mortalidade dos animais e risco de colapso sanitário e ambiental.
Outro fator apontado pela BMG Foods foi a apreensão de 13 caminhões e 13 furgões frigoríficos considerados essenciais para a logística da operação. A empresa também sustentou que o agravamento da crise poderia levar ao vencimento antecipado de contratos internacionais e à execução de garantias por credores estrangeiros.
Na decisão, a magistrada reconheceu a gravidade da situação e determinou a suspensão das execuções por 60 dias, além de declarar como essenciais ativos como plantéis de suínos, matrizes, estoques, insumos e ração, impedindo novas constrições sobre esses bens durante o período de proteção.
Sinais da crise já vinham sendo observados pelo mercado
Embora a decisão judicial represente uma medida prévia à recuperação judicial, os indícios de deterioração financeira da BMG Foods já vinham sendo acompanhados pelo mercado há meses.
No início de junho, reportagem do The AgriBiz revelou que o grupo paraguaio Concepción, controlador da BMG Foods, havia contratado a consultoria Pantalica Partners e escritórios especializados em reestruturação financeira para negociar dívidas em diferentes países. A publicação informou que a empresa deixou de pagar juros de uma linha de crédito junto ao Bank of America e já avaliava alternativas que poderiam culminar em recuperação judicial ou extrajudicial.
Os números divulgados pela reportagem chamaram atenção. O grupo encerrou 2025 com dívida líquida de aproximadamente US$ 820 milhões e precisava honrar cerca de US$ 65 milhões em compromissos de curto prazo entre junho e julho, mantendo apenas US$ 23,1 milhões em caixa.
A própria direção da companhia admitiu que a rápida expansão dos negócios contribuiu para o atual cenário de pressão financeira. Nos últimos anos, a BMG ampliou fortemente sua presença no setor frigorífico brasileiro por meio de arrendamentos de plantas e investimentos em operações de bovinos e suínos.
Dívida de US$ 800 milhões e disputa judicial ampliaram alerta
Meses antes, outra reportagem já apontava a fragilidade financeira do grupo. Recentemente a empresa informou que a dívida consolidada do Concepción girava em torno de US$ 800 milhões, dos quais aproximadamente US$ 244 milhões venciam no curto prazo.
As informações davam conta de que a empresa vinha promovendo uma forte reestruturação operacional, incluindo a devolução de frigoríficos arrendados, redução do quadro de funcionários de quase 6 mil para cerca de 2,5 mil colaboradores e corte de aproximadamente 40% da necessidade de capital de giro.
O mesmo levantamento apontou ainda a redução da capacidade operacional da companhia, que teria passado de cerca de 120 mil cabeças abatidas por mês para um patamar próximo de 50 mil cabeças mensais.
Além das dificuldades financeiras, a BMG também enfrentou disputas judiciais com parceiros do setor, em um ambiente marcado por boi gordo em patamares elevados, juros altos, margens comprimidas e crescente dificuldade de acesso a crédito.
Cenário preocupa fornecedores e mercado
No pedido apresentado à Justiça, a BMG Foods atribuiu a crise a uma combinação de fatores, incluindo inadimplência de clientes, ciclo financeiro prolongado, alta do boi gordo, excesso de oferta de suínos, impactos cambiais e restrições comerciais em mercados internacionais.
O processo também menciona reclamações de fornecedores e prestadores de serviços, além da preocupação com possíveis efeitos em contratos internacionais da companhia.
Embora a recuperação judicial ainda não tenha sido protocolada, a concessão da tutela cautelar é vista por especialistas como um dos últimos instrumentos de proteção antes do eventual ingresso formal em um processo de reestruturação judicial.
A decisão da Justiça evidencia que a crise da BMG Foods ultrapassou a esfera financeira e passou a representar riscos operacionais, logísticos e sanitários, ampliando a preocupação de credores, fornecedores, pecuaristas e agentes do mercado que acompanham a situação de um dos maiores grupos frigoríficos em atuação no Brasil.
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