Mesmo com oferta enxuta no campo, frigoríficos adotam postura mais cautelosa, testam preços menores para o boi gordo e observam o avanço das cotas de exportação para a China antes de ampliar as compras de gado
O mercado físico do boi gordo entrou em uma nova fase de pressão. Depois de semanas de sustentação nas principais praças pecuárias, o movimento mais recente indica que os frigoríficos passaram a testar recuos graduais nos preços da arroba, mesmo sem uma oferta folgada de animais terminados no campo.
A virada de humor tem dois fatores centrais: a cautela das indústrias diante do mercado externo, especialmente por causa da China, e a tentativa dos frigoríficos de recompor suas escalas sem estimular uma retenção ainda maior por parte dos pecuaristas. Na prática, o mercado vive uma queda de braço: de um lado, compradores tentando reduzir referências; do outro, produtores segurando os lotes à espera de manutenção nos preços.
China segue determinando o ritmo da arroba
Segundo análise da Safras & Mercado, a China voltou a ocupar o centro das decisões no mercado brasileiro de carne bovina. O analista Fernando Henrique Iglesias aponta que parte dos frigoríficos já sinaliza interrupção ou redução da produção voltada ao mercado chinês, em meio ao avanço das cotas de exportação.
O alerta ocorre após a divulgação de que 100% da cota australiana para exportação de carne bovina à China já teria sido atingida. No caso brasileiro, a expectativa é de um novo aviso indicando o preenchimento de 80% da cota de 1,1 milhão de toneladas destinada ao Brasil para embarques ao país asiático.
Esse cenário tende a aumentar a ociosidade nas plantas frigoríficas, reduzindo a necessidade imediata de compra de gado para abate. Em outras palavras, mesmo com escalas ainda curtas, a indústria ganha argumento para comprar menos e pressionar mais.
Agrifatto vê viés de baixa, mas oferta ainda limita quedas maiores
Na avaliação da Agrifatto, “parece que o jogo virou” no mercado do boi gordo. A consultoria observa que a pressão baixista ganhou espaço ao longo da semana, facilitando negócios abaixo das referências médias em algumas praças.
Na quinta-feira, 18 de junho, as cotações recuaram em 3 das 17 regiões monitoradas pela Agrifatto: Goiás, Minas Gerais e Maranhão. No dia anterior, a consultoria já havia identificado queda em outras seis praças: Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Apesar disso, o movimento ainda não representa uma virada ampla de oferta. Segundo a Agrifatto, o volume negociado não foi suficiente para alongar as escalas dos frigoríficos, que seguem próximas de oito dias de abate na média nacional. Esse dado mostra que a oferta de boiadas terminadas continua ajustada, sem sobra relevante no mercado.
Frigoríficos testam o mercado do boi gordo sem apertar demais
A estratégia das indústrias, segundo a Agrifatto, tem sido promover recuos graduais. Os frigoríficos buscam encaixar suas programações de abate antes de novas tentativas de baixa, mas evitam pressionar demais os preços de balcão para não estimular uma retenção ainda maior dos pecuaristas.
Esse é o ponto mais sensível do momento. Com escalas curtas e produtores resistentes, uma queda muito agressiva poderia travar os negócios. Por isso, a pressão ocorre de forma pontual, praça por praça, conforme a necessidade de compra de cada indústria.
Scot aponta estabilidade em São Paulo
No mercado paulista, a Scot Consultoria avalia que alguns frigoríficos ficaram fora das compras de boiadas gordas por já estarem abastecidos para a semana. Agora, essas indústrias aguardam o comportamento das vendas de carne bovina para decidir se voltam às compras com mais força.
Segundo a Scot, a oferta de boiadas não aumentou e atende à demanda, embora sem folga. Com menor ritmo comprador e sem avanço relevante na disponibilidade de animais, o mercado ficou estável em São Paulo.
Pelos dados da consultoria, o boi gordo destinado ao mercado interno paulista segue em R$ 348/@, enquanto a vaca gorda está em R$ 322/@, a novilha terminada em R$ 335/@ e o boi padrão exportação em R$ 353/@, em preços brutos e a prazo.
Cotações mostram recuos pontuais
Levantamento da Safras & Mercado aponta queda nas médias da arroba em diferentes estados. Em São Paulo, a referência passou de R$ 348,67 para R$ 346,75. Em Goiás, saiu de R$ 326,25 para R$ 325,36. Em Minas Gerais, recuou de R$ 326,18 para R$ 325,59. Em Mato Grosso do Sul, passou de R$ 342,27 para R$ 341,82. Já em Mato Grosso, caiu de R$ 346,69 para R$ 345,47.
Apesar das quedas, os números mostram um mercado ainda longe de uma derrocada. A pressão existe, mas encontra limite na disponibilidade curta de gado terminado e na postura mais firme de parte dos pecuaristas.
Atacado ainda busca recuperação
No atacado, a carne bovina segue em acomodação, mas com expectativa de alguma recuperação no curto prazo. Segundo Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, o consumo em junho permanece favorável, especialmente às vésperas dos jogos da seleção brasileira.
Ainda assim, a carne bovina enfrenta um desafio importante: a competitividade em relação às proteínas concorrentes, principalmente a carne de frango. Esse fator limita repasses mais fortes ao consumidor e reduz a margem de manobra dos frigoríficos.
No atacado, as referências citadas pela consultoria são de R$ 27,00/kg para o quarto traseiro, R$ 21,50/kg para o quarto dianteiro e R$ 20,00/kg para a ponta de agulha.
Mercado futuro também recua
A cautela também apareceu na B3. Depois de uma leve alta na terça-feira, os contratos futuros do boi gordo voltaram a cair na quarta-feira, reforçando o clima de incerteza entre os agentes do mercado pecuário.
O vencimento junho de 2026 encerrou cotado a R$ 340,95/@, com queda de 0,99% em relação ao fechamento anterior. O movimento indica que o mercado financeiro também passou a precificar um ambiente mais pressionado para a arroba no curto prazo.
O que o produtor deve observar agora
Para o pecuarista, o momento exige atenção redobrada. O mercado não está confortável para a indústria, mas também não está plenamente favorável ao vendedor. As escalas curtas ainda dão poder de negociação ao produtor, porém a menor demanda dos frigoríficos e a incerteza sobre a China reduzem o espaço para altas consistentes.
O ponto decisivo será o comportamento das exportações nas próximas semanas. Caso a demanda chinesa perca ritmo por causa das cotas, os frigoríficos podem ampliar a ociosidade e manter pressão sobre os preços. Por outro lado, se a oferta de animais continuar curta e o consumo doméstico reagir, a queda pode ser limitada.
Neste momento, o mercado do boi gordo não aponta para uma queda generalizada e descontrolada, mas mostra uma mudança clara de postura: a indústria voltou a testar preços menores, e a China segue sendo o principal termômetro da arroba brasileira.
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