Governo suspende novas autorizações de caça – licenças estão vencendo e daqui há pouco vamos ficar sem armas com autorização para fazer o controle – e Javali põe em risco safra recorde de grãos.
Por conta da publicação do Decreto Federal nº 11.615, de 21 de julho de 2023, que definiu critérios para aprovação da emissão das autorizações para o controle de fauna, o Ibama suspendeu preventivamente as novas autorizações de manejo em vida livre nas modalidades de caça ativa, ceva ou espera, até que se proceda as adequações necessárias junto ao Exército Brasileiro. Segundo o Presidente da Associação Brasileira de Caçadores ( www.aquitemjavali.com.br ), Rafael Salerno afirma que a medida favorece a multiplicação do javali, que é muito rápida – de 6 a 10 filhotes por gestação.
Segundo ele disse ao Estadão, hoje o animal avança pelo Centro-Oeste, “justamente a região com menor número de caçadores”. Cada fêmea abatida, segundo ele, representa 200 javalis a menos em 4 anos. Sendo assim, os animais estão com mais de um milhão de novos hectares para infestar. Essa é a estimativa de quanto os javalis avançaram no território brasileiro em mais um mês de novas autorizações de caça suspensas e não emissão de novos CRs de caça no Brasil, enquanto a família do “Chicão” comemora, assistimos uma tragédia ambiental, agrícola e sanitária como nunca antes vista nesse país.
Introdução no Brasil
Oriundo da Eurásia e do norte da África, o javali, o Sus scrofa consiste no ungulado em forma feral de maior distribuição geográfica no planeta (GROVES & GRUBB, 1993), o javali foi introduzido na américa do sul em primeira instância entre meados dos séculos XV e XVI para servir como fonte de alimentação barata para os colonos que aqui se assentavam (ZADIK, 2005).
No Brasil, a introdução do javali aconteceu em três momentos distintos e em diferentes localidades (PEDROSA et al., 2015). A primeira vez em que os javalis e seus congêneres acabaram sendo introduzidos na natureza foi por volta do século XIX, no pantanal, quando porcos domésticos que eram criados por fazendeiros locais escaparam para a natureza e se tornaram asselvajados (DESBIEZ et al., 2011). Em meados do ano de 1989, no Rio Grande do Sul, alguns animais também foram trazidos clandestinamente do Uruguai e Argentina com objetivos comerciais devido ao alto valor da carne (mais de 10 vezes cara do que a carne de porco), mais tarde, com a proibição da importação dos javalis e a abertura de criadouros legalizados pelo IBAMA que trouxeram mais animais de criadores comerciais do Canadá e França, vários javalis foram deliberadamente soltos no ambiente natural (DEBERDT & SCHERER, 2007; PEDROSA et al, 2015
Atualmente, graças a sua alta capacidade de adaptação a diferentes ambientes (OLIVER et al., 1993), vasta quantidade de alimento e água disponíveis na maior parte do ano em grande parte do território nacional, o javali e seus híbridos, segundo Pedrosa et al (2015), encontram-se inseridos em todos os biomas brasileiros . Com abrigo, água e alimento, formando o triângulo necessário para a sua expansão (MEDINA, WALLAU E REIS, 2015). O javali já ocupa uma área de 17,6% do território brasileiro com uma taxa de expansão anual de pelo menos 149.567 km²/ano (SALVADOR, 2012).
Javali põe em risco a produção agropecuária e o meio ambiente
A história se repete por praticamente todas as regiões do país. Um bando de javalis [ou “javaporcos”, mistura de animais domésticos com javalis] passa por uma propriedade e provoca uma verdadeira devassa. Nascentes e pequenos cursos d`água são pisoteados, dezenas de hectares de lavouras sofrem danos e filhotes de animais são mortos.
Literalmente, um rastro de destruição. Longe de ser um privilégio aos observadores da fauna, topar com uma vara desses animais exóticos é uma verdadeira dor de cabeça. São prejuízos financeiros, ambientais, sanitários e até mesmo risco à integridade física de seres humanos. Afinal, os javalis possuem grande porte e temperamento bastante agressivo.

O javali se reproduz rápido, não é fácil de ser controlado, se desloca com facilidade”, avalia. O javali pode percorrer até 70 quilômetros por dia, o que torna muito difícil o mapeamento e controle das populações. “Eles andam em bandos grandes. Geralmente as fêmeas ficam juntas com os animais jovens e os machos andam sozinhos, só se juntam à vara quando chega a hora da reprodução”, explica Leandro Lipinski, professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Por serem onívoros, ou seja, comem plantas, insetos e até pequenos animais, os javalis têm ampla capacidade de adaptação ao meio. “Ter javalis significa um problema sério com a fauna nativa por competição de alimento. Imagine que temos pinhões suficientes para os catetos, que são uma espécie aqui do Paraná. Se entra o javali, não vai ter suficiente para os catetos. O animal nativo tem que ter habitat, disponibilidade de alimento e prolificidade [capacidade de reprodução] e um animal exótico de impacto tão grande quanto o javali mexe em tudo isso”, completa Lipinski.
O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado pelo IBGE, mostra que a safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas deve registrar novo recorde em 2023, totalizando 313,3 milhões de toneladas. Trata-se de um valor 19,0% maior ou mais 50,1 milhões de toneladas que a obtida em 2022 (263,2 milhões de toneladas). Na comparação com julho, a estimativa assinalou alta de 1,4%, com acréscimo de 4,4 milhões de toneladas.
Entretanto, conforme anunciado por diversos produtores e agentes do mercado de grãos, a incerteza quanto ao controle dessa praga em importantes regiões produtoras de grãos, coloca em risco área a ser plantada para a próxima safra, além claro da produtividade dessas regiões afetadas pelos ataques dos javalis as lavouras.
Considerando o Plano de Manejo e Controle do Javali (Sus scrofa), que tem como objetivo prevenir novas introduções e conter a expansão territorial e demográfica da espécie, reduzindo impactos negativos ao meio ambiente, prevenindo danos sanitários na produção comercial e promovendo ações que visam a reparação dos danos decorrentes da invasão, com o apoio da sociedade, vimos manifestar a preocupação frente aos impactos com a suspensão de autorizações para manejo nas modalidades de caça ativa, ceva ou espera emitidas pelo Sistema de Informação de Manejo de Fauna (Simaf), anunciada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mesmo que preventiva e temporariamente.
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