Fim da cota da China pode travar exportações e pressionar o boi gordo, aponta presidente da Abiec

Roberto Perosa afirma que cota da China pode se esgotar entre maio e junho e projeta impacto direto na arroba, com possível queda nas exportações e pressão sobre os preços no Brasil

A possibilidade de esgotamento da cota de exportação de carne bovina brasileira para a China já acende um sinal de alerta no setor. A avaliação foi feita pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, durante um encontro com jornalistas realizado na sede da entidade, nesta terça-feira (5), em São Paulo.

De acordo com o dirigente, mantido o atual ritmo de embarques, o limite estabelecido pela cota da China para exportações ao mercado chinês deve ser atingido entre o final de maio e meados de junho. Trata-se de um ponto crítico, já que a China segue como o principal destino da carne bovina brasileira e concentra grande parte da demanda internacional pelo produto.

Durante a conversa, Perosa destacou que o setor já se movimenta para evitar um impacto mais brusco caso haja interrupção dos embarques dentro da cota. A principal alternativa, segundo ele, é tentar redirecionar parte desse volume ao mercado interno no segundo semestre, estratégia que, na prática, depende diretamente da capacidade de consumo da população brasileira.

No entanto, o próprio presidente da Abiec fez um alerta importante sobre esse cenário. Segundo ele, o avanço do consumo doméstico tem encontrado limitações, especialmente entre as famílias de menor renda. Dados apresentados ao governo federal mostram que houve uma redução de aproximadamente 10% no consumo de alimentos nesse público — movimento que, segundo o setor, está associado ao aumento dos gastos com apostas online .

Esse ponto, inclusive, foi levado ao centro do debate político. Representantes da cadeia da carne e da Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas) se reuniram, na segunda-feira (4), com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, para discutir possíveis medidas. Entre as propostas apresentadas estão o combate a plataformas ilegais de apostas e a limitação da publicidade desse tipo de serviço, visando reduzir o impacto sobre o orçamento das famílias.

Apesar das dificuldades, Perosa ponderou que o consumo de carne bovina ainda não sofreu queda direta e, em alguns momentos, até apresenta crescimento. Ainda assim, na avaliação dele, esse avanço poderia ser mais robusto caso não houvesse esse desvio de renda das famílias.

No cenário externo, o presidente da Abiec também traçou um panorama de risco. Caso o Brasil não consiga redirecionar o volume excedente para outros destinos, as exportações de carne bovina podem recuar cerca de 10% em 2026, o que tende a gerar reflexos imediatos dentro da porteira.

Entre os principais efeitos esperados estão pressão sobre o mercado do boi gordo, redução no ritmo de abates e possível queda nos preços da arroba nos próximos meses — um movimento que pode impactar diretamente a rentabilidade do pecuarista.

Diante disso, a diversificação de mercados ganha ainda mais relevância. Perosa citou que países como Japão, Coreia do Sul e Turquia estão no radar como potenciais compradores, sendo o mercado japonês o mais avançado nas negociações. Uma missão técnica do Japão, inclusive, esteve recentemente no Sul do Brasil para avaliar o sistema sanitário nacional.

Ao mesmo tempo, ele destacou limitações importantes. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, o Brasil já ultrapassou a cota disponível, o que faz com que os embarques atuais ocorram fora do limite tarifário, reduzindo a competitividade da carne brasileira naquele mercado.

Outro ponto abordado pelo presidente da Abiec foi o ambiente geopolítico. O conflito no Oriente Médio — região que responde por cerca de 15% das exportações brasileiras — já começa a impactar os embarques, com queda nos volumes enviados e aumento dos custos logísticos, especialmente no frete marítimo .

Mesmo diante desse cenário mais desafiador – com o fim da cota da China, a leitura do setor é de que parte dessas pressões tende a ser temporária. A expectativa é de uma normalização gradual do fluxo comercial internacional ao longo dos próximos meses, embora o comportamento da demanda chinesa siga como principal variável para o mercado do boi gordo e nas exportações de carne bovina no Brasil.

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