Durante palestra na Feicorte 2026, o geneticista Tad Sonstegard apresentou avanços da tecnologia CRISPR que já permitiu o desenvolvimento de animais com resistência hereditária a vírus que causam prejuízos bilionários à produção bovina
A próxima revolução da pecuária pode não estar nos currais, nos confinamentos ou mesmo nos programas tradicionais de melhoramento genético. Ela está acontecendo dentro do DNA dos animais.
Essa foi a principal mensagem apresentada pelo especialista em genética molecular e edição gênica Tad Sonstegard durante a palestra “Novas Ferramentas de Seleção para Melhoramento Genético de Bovinos de Corte“, realizada no primeiro dia da Feicorte 2026, em Presidente Prudente (SP).
Considerado uma das maiores autoridades mundiais em genética animal, Sonstegard atua há mais de 11 anos como Chief Scientific Officer (CSO) da empresa de biotecnologia Acceligen. O pesquisador também foi diretor de pesquisas em genética molecular animal do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e é reconhecido por liderar o desenvolvimento da primeira ferramenta comercial de seleção genômica para bovinos.
Durante sua apresentação, ele destacou como a edição gênica de precisão deverá exercer profundo impacto sobre a pecuária mundial nas próximas décadas, permitindo a criação de animais mais eficientes, adaptados e, principalmente, resistentes a doenças.
Um dos exemplos mais avançados dessa nova fronteira tecnológica foi apresentado em estudo conduzido por pesquisadores do USDA-ARS, Universidade de Nebraska-Lincoln, Universidade de Kentucky, Acceligen e Recombinetics, publicado na revista científica PNAS Nexus.
Combatendo um dos maiores inimigos da pecuária
A pesquisa teve como foco o combate ao Vírus da Diarreia Viral Bovina (BVDV), considerado um dos patógenos mais prejudiciais à bovinocultura mundial.
A doença provoca problemas respiratórios, distúrbios gastrointestinais, falhas reprodutivas, abortos e nascimento de animais persistentemente infectados, que se tornam fontes contínuas de disseminação viral nos rebanhos.
Os impactos econômicos são expressivos, acumulando prejuízos de bilhões de dólares todos os anos em diversos países produtores de carne e leite.
Embora existam vacinas há décadas, o vírus continua sendo um desafio sanitário global. Isso ocorre porque a imunização reduz os sintomas clínicos, mas não elimina completamente a transmissão do agente infeccioso.
Alterando a porta de entrada do vírus
Em vez de tentar combater o vírus após a infecção, os pesquisadores decidiram agir diretamente no mecanismo utilizado pelo BVDV para invadir as células bovinas.
Utilizando a tecnologia de edição gênica CRISPR, considerada uma das ferramentas mais precisas da biotecnologia moderna, os cientistas modificaram uma pequena região do gene responsável pela produção da proteína CD46, principal receptor utilizado pelo vírus para infectar o organismo.
A alteração envolveu apenas seis aminoácidos da proteína, numa intervenção extremamente específica. O objetivo era simples e sofisticado ao mesmo tempo: impedir que o vírus encontrasse sua “porta de entrada”, sem comprometer as funções biológicas normais do animal.
O nascimento de Ginger
A prova de conceito saiu dos laboratórios e chegou ao campo em julho de 2021, com o nascimento de Ginger, uma bezerra da raça Gir geneticamente editada.
Após uma série de avaliações rigorosas, incluindo exposição controlada ao vírus, Ginger demonstrou ser totalmente resistente ao vírus da diarreia viral bovina. Os pesquisadores observaram ausência de sintomas clínicos relevantes e uma redução drástica da replicação viral.
Mais importante ainda, não foram identificados efeitos adversos decorrentes da modificação genética.
A resistência passou para a próxima geração
O avanço mais recente, destacado por Sonstegard durante sua apresentação na Feicorte, foi a confirmação de que essa característica pode ser transmitida aos descendentes.
Ao atingir a idade reprodutiva, Ginger gerou seu primeiro filho, Gerry. Os testes comprovaram que o bezerro herdou a edição genética e manteve a resistência ao BVDV.
Para os pesquisadores, esse resultado representa um marco decisivo para a aplicação comercial da tecnologia, já que demonstra que o caráter protetivo pode ser disseminado por meio dos programas convencionais de reprodução e inseminação artificial.
Na prática, isso significa que a resistência genética pode ser incorporada gradualmente aos rebanhos comerciais, reduzindo a vulnerabilidade sanitária sem alterar outras características produtivas dos animais.
Menos antibióticos e mais sustentabilidade
Os benefícios da edição gênica vão além do desempenho produtivo.
Segundo os pesquisadores, a redução da incidência de doenças virais também contribui para diminuir o uso de antibióticos na pecuária, uma das principais preocupações globais relacionadas à resistência antimicrobiana.
Com menos infecções secundárias e menor necessidade de tratamentos terapêuticos, os sistemas produtivos tendem a se tornar mais sustentáveis, eficientes e alinhados aos princípios de Saúde Única (One Health), que integram saúde animal, humana e ambiental.
Embora a tecnologia ainda avance por etapas regulatórias em diversos países, os resultados obtidos até agora consolidam a edição gênica como uma das ferramentas mais promissoras para o futuro da produção animal.
Para Tad Sonstegard, a genética de precisão representa uma nova etapa do melhoramento animal, capaz de acelerar ganhos que antes levariam décadas para serem alcançados apenas pela seleção convencional. 
Feicorte segue até sexta-feira
A Feicorte 2026 continua até sexta-feira, dia 26 de junho, no Recinto de Exposições Jacob Tosello, em Presidente Prudente (SP). Considerada uma das principais feiras da cadeia produtiva da carne bovina da América Latina, o evento reúne produtores, pesquisadores, empresas, técnicos e lideranças do agronegócio para debater as principais tendências que deverão moldar o futuro da pecuária brasileira e mundial.
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