Empresa troca exportação de uva por bebidas e mira faturar R$ 500 milhões no agro brasileiro

Com foco na produção de uva, industrialização e expansão global, empresa do Vale do São Francisco acelera plano de crescimento no agronegócio.

O sertão nordestino deixou de ser apenas uma potência da fruticultura irrigada para se transformar também em um importante polo agroindustrial. Em Petrolina (PE), no coração do Vale do São Francisco, a Timbaúba está redesenhando sua estratégia de negócios ao trocar a exportação de frutas in natura pela produção de bebidas prontas para consumo, em um movimento que pode levar a companhia a atingir um faturamento de R$ 500 milhões até 2030.

A empresa, tradicionalmente conhecida pela exportação de uva de mesa, agora aposta fortemente em sucos integrais, água de coco, bebidas à base de açaí e novos refrescos voltados ao mercado brasileiro. O objetivo é agregar valor à matéria-prima produzida no campo e ampliar margens em um setor cada vez mais competitivo.

Depois de fechar 2025 com faturamento de R$ 172 milhões, a Timbaúba projeta crescimento de 22% em 2026, alcançando cerca de R$ 210 milhões em receita. A meta mais ambiciosa, porém, é praticamente triplicar esse valor nos próximos anos.

Segundo Sydney Tavares, CEO da companhia, o avanço depende da presença em diferentes categorias de bebidas e do fortalecimento da distribuição nacional.

“Se nós queremos crescer, precisamos estar em todas as categorias”, afirmou o executivo em entrevista à EXAME.

Mudança estratégica transformou operação agrícola

A virada da Timbaúba aconteceu após a empresa perceber que o mercado de frutas frescas apresentava limitações operacionais e margens mais pressionadas. A produção de uva de mesa exigia alto padrão estético, intensa mão de obra e grande sensibilidade logística.

A solução encontrada foi migrar para variedades voltadas à indústria de bebidas, permitindo mecanização em larga escala e maior previsibilidade produtiva.

A mudança alterou completamente o modelo de produção da fazenda. Hoje, a empresa possui cerca de 2.500 hectares, sendo aproximadamente mil hectares irrigados, destinados principalmente à produção de matéria-prima para bebidas naturais.

Além da mecanização, outro fator estratégico é a possibilidade de produção contínua durante o ano inteiro, algo favorecido pelas condições climáticas do Vale do São Francisco.

“Hoje conseguimos colher e produzir durante o ano inteiro”, destacou Tavares.

Vale do São Francisco ganha protagonismo na agroindústria

A trajetória da Timbaúba também reforça a importância crescente do Vale do São Francisco dentro do agronegócio brasileiro. A região, historicamente reconhecida pela exportação de manga e uva para Estados Unidos e Europa, vem ampliando sua atuação industrial e agregando valor à produção agrícola local.

A industrialização da fruta virou o principal motor de expansão da companhia. O que antes era exportado em caixas agora sai das fábricas em forma de bebidas embaladas e distribuídas em todo o Brasil.

A entrada definitiva da Timbaúba no varejo ocorreu em 2017, abrindo espaço para uma expansão acelerada da marca nacionalmente. Atualmente, a empresa já está presente em todos os estados brasileiros, embora ainda considere que existe grande espaço para ampliar sua distribuição.

Hoje, São Paulo é o principal mercado consumidor da companhia, enquanto o Nordeste ainda representa cerca de 40% do volume comercializado.

Empresa já está entre as maiores do segmento

Com a nova estratégia, a Timbaúba conseguiu conquistar espaço relevante no mercado nacional de bebidas naturais. Atualmente, a companhia detém cerca de 6% do mercado brasileiro de sucos integrais e já figura entre as cinco maiores empresas do segmento no país.

Para sustentar o crescimento, a empresa anunciou um plano de investimentos de aproximadamente R$ 100 milhões nos próximos cinco anos. Os recursos serão direcionados principalmente para:

  • renovação de áreas produtivas;
  • ampliação industrial;
  • modernização tecnológica;
  • expansão logística;
  • desenvolvimento de novas categorias de bebidas.

Entre as apostas da empresa está o lançamento de uma nova linha de refrescos voltada ao consumidor que busca bebidas mais acessíveis financeiramente. A estratégia acompanha mudanças no comportamento das famílias brasileiras diante do aumento do custo de vida e da busca por alternativas mais baratas aos sucos integrais.

A expectativa da companhia é que essa nova categoria represente cerca de 5% do faturamento já em 2026 e alcance até 30% da receita nos próximos cinco anos.

Japão vira vitrine internacional para marca brasileira

Além do crescimento interno, a Timbaúba também intensifica sua presença internacional. Atualmente, cerca de 10% do faturamento da empresa já vem das exportações.

Os produtos da companhia chegam a mercados da América do Norte, Europa, África e Ásia. Entre os destinos internacionais, o Japão se tornou um dos mais estratégicos para a empresa brasileira.

Inicialmente, a Timbaúba exportava apenas suco integral de uva em garrafas de vidro. Depois, passou a embarcar bebidas à base de açaí produzidas no próprio Vale do São Francisco.

Segundo o CEO, o mercado japonês funciona como uma espécie de vitrine para expansão em outros países asiáticos.

“O Japão é um belo cartão de visita para abrir outras frentes na Ásia”, afirmou Tavares.

China entra no radar e empresa mira novos mercados

A China também começou a ganhar relevância dentro da estratégia internacional da companhia. Além disso, a Timbaúba avalia ampliar a exportação da nova linha de refrescos para países da África e América do Sul, considerados mercados promissores pelo perfil de consumo e potencial de crescimento.

O avanço da empresa reforça uma tendência cada vez mais forte dentro do agronegócio brasileiro: transformar commodities agrícolas em produtos industrializados de maior valor agregado, reduzindo dependência das exportações de produtos in natura e aumentando competitividade no varejo global.

No caso da Timbaúba, o movimento mostra como o Vale do São Francisco segue evoluindo de um polo agrícola tradicional para uma referência nacional em agroindústria, inovação e bebidas naturais.

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