Fenômeno climático El Niño pode provocar quebra de safra, dificultar transporte de grãos no Norte do país e ampliar os desafios financeiros enfrentados pelos produtores rurais na temporada 2026/27.
A possibilidade crescente de formação de um forte El Niño nos próximos meses já começa a preocupar o agronegócio brasileiro. Um novo levantamento divulgado pelo Santander aponta que o fenômeno climático pode gerar impactos relevantes na produção agrícola, no escoamento de grãos e até no desempenho financeiro de empresas ligadas à infraestrutura logística do setor.
Segundo projeções da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), existe atualmente mais de 80% de probabilidade de formação do El Niño após junho de 2026, com chances superiores a 65% de que o evento atinja intensidade forte entre outubro e dezembro.
Produção agrícola pode sofrer com maior irregularidade climática
Apesar de o Centro-Oeste não ser historicamente a região mais impactada pelo fenômeno, especialistas alertam que o El Niño costuma alterar o padrão das chuvas, concentrando volumes em períodos mais curtos e aumentando a instabilidade da produtividade nas lavouras.
Entre os principais riscos apontados estão possíveis perdas na segunda safra de milho, maior dificuldade no planejamento das operações agrícolas e aumento da pressão sobre a geração de caixa dos produtores rurais.
O cenário preocupa principalmente em um momento em que muitos agricultores já operam com custos elevados, especialmente com fertilizantes, defensivos e crédito mais caro.
Hidrovias do Norte entram no radar de preocupação
Outro ponto de atenção está na logística brasileira. O relatório destaca que, durante eventos de El Niño, o nível do Rio Tapajós, uma das principais rotas do chamado Arco Norte, tende a registrar redução média de aproximadamente 0,9 metro abaixo do normal.
Na prática, isso pode dificultar a navegação de embarcações responsáveis pelo escoamento de milhões de toneladas de grãos, afetando diretamente empresas que dependem desse corredor logístico para exportação.
A situação gera preocupação porque o Arco Norte vem ganhando importância estratégica nos últimos anos, principalmente para estados como Mato Grosso, que utilizam essa rota para reduzir custos e acelerar embarques ao mercado internacional.
Exportações e fretes também podem sentir os impactos do El Niño
A análise também aponta reflexos no transporte rodoviário. Em cenários de El Niño, uma eventual quebra na produção tende a reduzir a demanda por fretes, pressionando negativamente os preços do transporte de grãos em corredores estratégicos de Mato Grosso.
Rotas importantes como Sorriso-Miritituba e Sorriso-Rondonópolis podem registrar desaceleração significativa no crescimento dos fretes, afetando parte da cadeia logística do agronegócio.
Mato Grosso pode colher menos e exportar menos
Nas projeções-base apresentadas pelo banco, Mato Grosso deve produzir aproximadamente 100,5 milhões de toneladas entre soja e milho na safra 2026/27, o que representaria uma queda de cerca de 4% na comparação anual.
As exportações combinadas desses dois grãos também podem recuar aproximadamente 11%, ficando próximas de 49,2 milhões de toneladas, caso o cenário climático se confirme.
Campo entra em modo de atenção
Embora ainda exista incerteza sobre a intensidade final do fenômeno, o mercado já começa a acompanhar com cautela os próximos meses. Se o El Niño realmente se consolidar em um evento forte, o Brasil poderá enfrentar um cenário de maior volatilidade climática justamente em um momento delicado para custos, produtividade e planejamento da próxima safra.
Para o produtor rural, o recado é claro: monitorar o clima, revisar estratégias e acompanhar os sinais do mercado passa a ser ainda mais importante daqui para frente.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.