Conheça o Hanwoo: raça milenar que rivaliza com o Wagyu e produz uma das carnes mais caras da Ásia

Originário da Coreia do Sul, a raça milenar Hanwoo, carne altamente marmorizada e um sistema de rastreabilidade que transformou a raça em símbolo nacional e referência mundial em qualidade.

Durante décadas, quando o assunto era carne bovina premium na Ásia, o protagonismo ficou praticamente restrito ao Wagyu japonês. Mas uma raça ainda pouco conhecida no Brasil vem ganhando cada vez mais destaque no mercado internacional de carnes nobres: o Hanwoo, bovino nativo da Península Coreana que carrega uma história de aproximadamente 5 mil anos e hoje é considerado um dos maiores patrimônios pecuários da Coreia do Sul.

Mais do que uma raça produtiva, o Hanwoo representa uma construção cultural, econômica e genética. Os animais foram fundamentais para o desenvolvimento agrícola coreano durante séculos e, somente a partir da década de 1960, passaram a ser selecionados intensivamente para produção de carne de alta qualidade. O resultado é uma carne que se tornou símbolo de status no país e uma das mais valorizadas da gastronomia asiática.

O Hanwoo é considerado uma das mais antigas raças bovinas ainda existentes. Pesquisas sobre domesticação bovina no Leste Asiático indicam que sua presença na Península Coreana remonta a cerca de 5 mil anos, período em que os animais eram utilizados principalmente para trabalhos agrícolas, transporte e atividades ligadas à subsistência rural.

Por muito tempo, a carne bovina teve participação limitada na alimentação da população coreana. Fatores culturais, religiosos e econômicos faziam com que os bovinos fossem mais valorizados como força de trabalho do que como fonte de proteína.

A transformação começou com a modernização da economia sul-coreana. À medida que a mecanização substituiu os animais no campo, programas nacionais de melhoramento genético passaram a direcionar o Hanwoo para produção de carne premium.

Foto: Yang Sang-hyun

Uma das curiosidades que mais desperta interesse entre criadores e especialistas é a relação histórica entre Hanwoo e Wagyu.

Estudos genéticos mostram que os bovinos nativos da Coreia e do Japão possuem proximidade histórica e compartilham antigas origens asiáticas. Pesquisas apontam afinidade genética entre o Hanwoo e os ancestrais dos bovinos japoneses, embora as duas raças tenham seguido caminhos evolutivos próprios ao longo dos séculos.

Por isso, muitos pesquisadores consideram o Hanwoo uma das importantes referências genéticas dentro do conjunto de bovinos asiáticos que contribuíram para a formação das linhagens que deram origem ao Wagyu moderno. No entanto, atualmente são raças distintas, com características próprias e programas de seleção independentes.

Se a história impressiona, é na qualidade da carne que o Hanwoo construiu sua fama mundial.

A raça é reconhecida pelo elevado nível de marmoreio — aquelas finas camadas de gordura distribuídas entre as fibras musculares — que proporcionam maciez, suculência e sabor intenso. Essa característica fez com que a carne Hanwoo se tornasse uma das mais desejadas da alta gastronomia asiática.

Frequentemente comparada ao Wagyu japonês, a carne Hanwoo apresenta uma diferença importante: o equilíbrio entre gordura e proteína.

Enquanto alguns cortes de Wagyu são conhecidos por níveis extremamente elevados de gordura intramuscular, o Hanwoo tende a apresentar um perfil mais equilibrado, mantendo alto padrão de marmoreio sem atingir os mesmos níveis extremos observados em determinadas linhagens japonesas. Isso resulta em uma experiência gastronômica diferente, valorizada por consumidores que buscam sabor intenso aliado a uma textura menos gordurosa.

Foto: Divulgação

Ao contrário do Wagyu, que conquistou mercados em diversos continentes, a carne Hanwoo ainda é relativamente rara fora da Coreia do Sul.

O principal motivo é simples: a demanda interna é enorme.

O consumidor sul-coreano valoriza fortemente a produção nacional e está disposto a pagar preços elevados pela carne da raça. Isso faz com que grande parte da produção permaneça dentro do país, reduzindo significativamente os volumes destinados à exportação.

Na prática, isso transformou o Hanwoo em um produto premium de oferta limitada, aumentando ainda mais sua reputação nos mercados de carnes especiais.

Outro aspecto que chama atenção no sistema produtivo sul-coreano é o rigor no controle da cadeia produtiva.

Cada animal recebe uma identificação individual que permite acompanhar todo o histórico produtivo, sanitário e comercial ao longo da vida. O sistema permite rastrear informações desde a fazenda de origem até o consumidor final, reforçando a segurança alimentar e a confiança do mercado.

Em um momento em que mercados internacionais exigem cada vez mais transparência e rastreabilidade da produção pecuária, o modelo adotado pela Coreia do Sul é frequentemente citado como referência mundial.

Carne Hanwoo Foto: Shutterstock

Embora o Brasil possua um dos maiores rebanhos bovinos do planeta e seja líder global nas exportações de carne bovina, o caso do Hanwoo mostra como a construção de valor pode ir além da escala produtiva.

A Coreia transformou uma raça nativa em símbolo nacional, investindo durante décadas em genética, rastreabilidade, certificação e posicionamento de mercado. O resultado foi a criação de uma marca de alto valor agregado reconhecida pelos consumidores.

Para a pecuária brasileira, especialmente em segmentos de carnes premium, o exemplo reforça a importância de unir genética, qualidade de produto, identidade regional e transparência na cadeia produtiva.

Enquanto o mundo conhece cada vez mais o Wagyu japonês, o Hanwoo surge como uma prova de que tradição, seleção genética e valorização da origem podem transformar uma raça milenar em uma das carnes mais desejadas do planeta.

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