Com quase 400 focos registrados, avanço da doença no Paraná preocupa produtores; especialistas da Embrapa alertam para falhas no manejo preventivo e o desafio da resistência química na safra 2025/26.
O monitoramento fitossanitário da safra brasileira de soja atingiu um patamar de gravidade inédito nos últimos ciclos. Segundo dados consolidados pelo Consórcio Antiferrugem, a incidência de ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) triplicou no país em comparação ao ciclo anterior.
Até o momento, foram confirmados 379 focos da doença, um salto alarmante frente às ocorrências da safra 2024/25, sinalizando que a pressão de inóculo no campo pode comprometer o teto produtivo de importantes regiões exportadoras.
O epicentro da crise: Paraná e a vulnerabilidade regional
O estado do Paraná consolidou-se como o território mais afetado pela disseminação do fungo, concentrando 156 casos registrados. A situação é particularmente aguda no município de Palotina, que já reportou 10 focos. Geograficamente, o estado funciona como um corredor para os esporos, que encontram nas condições de microclima e na continuidade das áreas plantadas o ambiente ideal para a replicação exponencial.
Analistas do setor destacam que a ferrugem asiática não avançou apenas pela biologia, mas também por uma “janela de oportunidade” aberta pelo clima. As chuvas recorrentes durante o período de entressafra (inverno) permitiram que os esporos sobrevivessem em plantas guaxas, garantindo uma carga inicial de patógenos muito alta logo no início do plantio da safra principal.
A falácia do clima seco e os erros de manejo
Um dos maiores desafios apontados por especialistas da Embrapa Soja é a negligência estratégica no manejo preventivo. Durante veranicos ou períodos de baixa umidade, muitos produtores optam por interromper o calendário de aplicações. No entanto, a ferrugem asiática é altamente oportunista: basta um curto intervalo de umidade foliar ou orvalho persistente para que a infecção ocorra.
A pesquisadora Cláudia Godoy alerta para a natureza biotrófica do fungo. “O patógeno depende exclusivamente de tecido vivo. Sem o rigor do vazio sanitário e a eliminação de plantas voluntárias, o inóculo permanece latente, antecipando a entrada da doença na lavoura”, explica. A resistência do produtor em manter o manejo preventivo sob condições de estresse hídrico tem se provado um erro custoso, dado que a cura, após a instalação visual da doença, é praticamente impossível com a tecnologia atual.
O gargalo da eficiência no controle da ferrugem asiática
Para além do clima, o Brasil enfrenta o desafio da perda de sensibilidade do fungo aos principais grupos químicos (triazóis, estrobirulinas e carboxamidas). O monitoramento da rede de ensaios de fungicidas indica que a eficácia de alguns produtos tem caído drasticamente ano após ano.
Neste cenário, a escolha de fungicidas não pode ser baseada apenas no custo por hectare, mas sim na robustez técnica e na rotação de princípios ativos. A recomendação atual para mitigar a ferrugem asiática envolve o uso obrigatório de fungicidas multissítios associados aos produtos de sítio-específico, visando proteger as moléculas e garantir que o controle químico ainda seja uma ferramenta viável para as próximas safras.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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