Cavalo tratado com cannabis em SC coloca Brasil em estudo inédito mundial

Pesquisa conduzida por veterinários da UFSC que será publicado em revista científica internacional mostra que cavalo tratado com cannabis medicinal teve melhora significativa na dor, mobilidade e qualidade de vida.

Um caso clínico conduzido em Santa Catarina está chamando atenção da comunidade científica internacional e pode abrir novos caminhos para o uso da cannabis medicinal na medicina veterinária. O estudo envolvendo o cavalo Hope, um equino resgatado em estado grave e tratado com óleo rico em THC e CBD, será publicado na revista científica internacional Frontiers in Veterinary Science, uma das mais relevantes da área veterinária no mundo. Segundo os pesquisadores, trata-se do primeiro relato científico internacional a documentar o uso prolongado e seguro de THC em equinos.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores ligados à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ao programa clínico Pet Cannabis e às universidades italianas de Bologna e Teramo. A pesquisa também contou com apoio da associação Santa Cannabis, responsável pela doação dos produtos utilizados no tratamento.

Mais do que um estudo acadêmico, o caso de Hope acabou se tornando símbolo de uma nova fronteira terapêutica na veterinária. O animal, que chegou a ter a eutanásia considerada como única alternativa, viveu cerca de dez meses além do prognóstico inicial e apresentou melhora expressiva na alimentação, mobilidade, cicatrização e controle da dor durante grande parte do tratamento.

Hope era um cavalo macho castrado, com aproximadamente 400 kg, encontrado abandonado em um terreno baldio em Florianópolis (SC), em outubro de 2024. O estado do animal era considerado crítico. Ele apresentava desnutrição severa, lesões ulcerativas profundas em uma das patas, comprometimento articular e infecção óssea avançada.

Os exames apontaram um quadro extremamente delicado: sarcoide equino fibroblástico — um tipo agressivo de tumor cutâneo — associado à ruptura completa de tendão, osteomielite inicial e doença articular crônica. A dor era considerada refratária, ou seja, não respondia adequadamente aos tratamentos convencionais com opioides, anti-inflamatórios e corticoides.

Foto: Reprodução / GRU

Diante da gravidade do quadro e da impossibilidade cirúrgica, a eutanásia passou a ser cogitada pelos responsáveis pelo caso. Antes da decisão definitiva, porém, Hope foi encaminhado ao programa social clínico Pet Cannabis, onde iniciou um protocolo paliativo com cannabis medicinal.

O protocolo desenvolvido pelos pesquisadores utilizou óleos full spectrum ricos em THC e CBD, ambos na concentração de 100 mg/mL, administrados por via oral e também diretamente sobre as feridas do animal. O tratamento foi sendo ajustado gradualmente ao longo do acompanhamento clínico.

De acordo com os autores do estudo, os resultados começaram a aparecer em poucas semanas. Hope voltou a se alimentar normalmente, recuperou peso corporal, passou a deitar e levantar sozinho novamente e chegou até mesmo a trotar no início de 2025. Além disso, o comportamento de automutilação causado pela dor intensa e pelo prurido desapareceu rapidamente.

No artigo científico, os pesquisadores destacam que a terapia com canabinoides promoveu:

  • melhora sustentada da dor e mobilidade;
  • recuperação do apetite e condição corporal;
  • melhora significativa da cicatrização;
  • redução do tecido inflamado;
  • melhora da epitelização da pele;
  • redução do prurido e fim da automutilação;
  • ausência de efeitos adversos clinicamente relevantes.

Os autores afirmam ainda que exames laboratoriais não detectaram alterações relevantes durante o período regular de administração dos compostos.

Apesar da melhora clínica observada durante boa parte do tratamento, a doença continuou avançando. Nos meses finais, a infecção óssea deixou de responder aos antibióticos e a dor voltou a se tornar severa. Em setembro de 2025, a equipe optou pela eutanásia humanitária do animal.

Mesmo assim, os pesquisadores consideram que o tratamento atingiu plenamente o objetivo paliativo.

Segundo o estudo publicado pela Frontiers in Veterinary Science, a qualidade de vida do animal melhorou substancialmente durante a maior parte do período terapêutico, reforçando o potencial dos óleos ricos em THC e CBD como alternativa complementar no cuidado de cavalos com doenças crônicas e refratárias.

Foto: Divulgação

O pesquisador Rodrigo Zamith Cunha, um dos responsáveis pelo trabalho, afirmou que a aprovação do artigo em uma revista científica de classificação Q1 representa um marco importante para a medicina veterinária canabinoide.

Segundo ele, embora um caso clínico isolado não tenha força estatística suficiente para definir protocolos, o objetivo do estudo é justamente apresentar essa nova possibilidade terapêutica à comunidade científica internacional.

A repercussão do caso também colocou Santa Catarina no centro das discussões sobre cannabis medicinal veterinária. O estudo surge em um momento de crescimento das pesquisas envolvendo canabinoides aplicados à saúde animal, especialmente em tratamentos paliativos, controle de dor crônica e doenças inflamatórias.

Nos últimos anos, estudos internacionais vêm apontando o potencial terapêutico da cannabis em animais domésticos, principalmente no manejo de dor crônica, epilepsia, osteoartrite e inflamações. Entretanto, ainda existem poucos registros científicos envolvendo cavalos, especialmente com formulações ricas em THC.

O caso Hope passa a ser visto por especialistas como um importante ponto de partida para futuras pesquisas clínicas controladas envolvendo equinos e cannabis medicinal.

Além disso, o episódio reacende o debate sobre regulamentação veterinária no Brasil. Segundo Pedro Sabaciauskis, ligado à Santa Cannabis, a Anvisa avançou recentemente na regulamentação da cannabis veterinária, mas o foco atual ainda está concentrado no CBD, enquanto o THC segue cercado por restrições e debates científicos.

Com a publicação internacional do estudo, pesquisadores brasileiros esperam ampliar as discussões sobre protocolos terapêuticos, segurança clínica e possibilidades do uso medicinal da cannabis em animais de grande porte, especialmente em tratamentos paliativos onde os métodos convencionais já não apresentam resposta satisfatória.

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