BrasilAgro cancela venda milionária de fazenda na Bahia após comprador entrar em RJ

Rescisão de venda de fazenda da BrasilAgro na Bahia expõe impacto da recuperação judicial no agro e acende alerta sobre avanço da inadimplência e restrição de crédito no setor

A BrasilAgro anunciou ao mercado a rescisão do contrato de venda de parte da Fazenda Rio do Meio, localizada em Correntina (BA), após o comprador entrar em processo de recuperação judicial. A decisão foi tomada de forma consensual entre as partes, sem litígio, conforme fato relevante divulgado pela companhia.

O contrato original, firmado em setembro de 2021, previa a venda de uma área total de 4.559 hectares — sendo 3.212,12 hectares úteis — por um valor equivalente a 746.579 sacas de soja. À época, a operação chamou atenção no mercado por envolver uma das regiões mais valorizadas do Matopiba, fronteira agrícola que concentra investimentos relevantes em expansão produtiva.

Segundo a companhia, parte da negociação chegou a ser efetivada. Cerca de 365,75 hectares úteis já foram pagos e transferidos ao comprador, enquanto outros 627,87 hectares ainda poderão ser escriturados, desde que sejam cumpridas condições previstas no acordo de rescisão. No entanto, a maior parcela da área — 2.218,5 hectares úteis — deve retornar ao portfólio da BrasilAgro como propriedade para investimento.

A empresa destacou que a inadimplência do comprador, agora em recuperação judicial, foi determinante para a decisão. Com a rescisão, a expectativa é de impacto contábil relevante: haverá redução dos recebíveis anteriormente registrados, cujo valor presente era estimado em R$ 47,1 milhões ao fim de 2025.

Negócio que simbolizava valorização do Matopiba

Quando anunciada, a venda da Fazenda Rio do Meio foi interpretada como mais um movimento estratégico da BrasilAgro para captura de valor em ativos agrícolas, prática recorrente da companhia, que atua na compra, desenvolvimento e posterior comercialização de propriedades rurais.

A região de Correntina, no oeste baiano, é considerada uma das mais promissoras do Matopiba, com forte presença de agricultura tecnificada, especialmente soja, milho e algodão. A negociação reforçava o apetite de investidores por terras produtivas na região, impulsionado por ganhos de produtividade e valorização fundiária.

Apesar da frustração da operação, a rescisão sem litígio evita disputas judiciais prolongadas e permite à companhia reorganizar seu portfólio de ativos. A reincorporação da área abre espaço para novas estratégias, seja para exploração direta, arrendamento ou futura alienação em condições mais favoráveis.

A BrasilAgro informou ainda que seguirá atualizando o mercado sobre eventuais desdobramentos do caso, incluindo a conclusão do acordo perante o Judiciário e demais órgãos competentes.

O episódio também acende um alerta no setor: mesmo em regiões consolidadas e com ativos de alta qualidade, o risco financeiro dos compradores — especialmente em cenários de alavancagem — pode comprometer operações relevantes no mercado de terras agrícolas.

colheitadeira descarregando soja no caminhao - fotao
Foto: Wenderson Araujo

O caso da BrasilAgro não é isolado e se insere em um movimento mais amplo que vem ganhando força no agronegócio brasileiro: o aumento expressivo dos pedidos de recuperação judicial por produtores rurais e empresas ligadas ao setor. Nos últimos anos, especialmente após a elevação dos juros, a volatilidade das commodities e a pressão sobre custos de produção, muitos grupos passaram a enfrentar dificuldades para honrar compromissos financeiros assumidos em ciclos anteriores mais favoráveis.

Esse cenário tem provocado um efeito em cadeia relevante. Operações estruturadas — como compra de terras, barter, crédito privado e financiamentos atrelados à produção — começam a apresentar rupturas, elevando o risco sistêmico no agro. Casos como o da Fazenda Rio do Meio evidenciam que não apenas produtores, mas também empresas listadas e investidores institucionais estão diretamente expostos a esse ambiente de maior inadimplência.

Outro impacto direto está na retração do crédito. Instituições financeiras, tradings e fundos têm adotado posturas mais conservadoras, com maior rigor na análise de risco, exigência de garantias mais robustas e, em muitos casos, redução na oferta de capital. Esse movimento tende a afetar principalmente produtores mais alavancados ou com menor histórico de governança, dificultando o acesso a recursos justamente em um momento de necessidade de recomposição de caixa.

Além disso, o aumento das recuperações judiciais pressiona o mercado de terras agrícolas. Ativos que antes eram altamente líquidos passam a enfrentar maior cautela por parte dos compradores, o que pode desacelerar a valorização fundiária em algumas regiões — especialmente aquelas com forte expansão recente, como o Matopiba. Ao mesmo tempo, abre-se espaço para oportunidades oportunísticas, com investidores buscando adquirir áreas a preços mais ajustados ao novo ciclo.

Por fim, especialistas apontam que o atual momento deve funcionar como um divisor de águas para o setor. A tendência é de maior profissionalização na gestão financeira das propriedades rurais, uso mais estratégico de instrumentos de hedge e uma reavaliação do nível de alavancagem considerado saudável. Em um ambiente mais seletivo, eficiência operacional e disciplina financeira passam a ser tão determinantes quanto produtividade no campo.

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