Levantamento inédito revela que a irrigação no Brasil possui potencial para expandir em mais de 47 milhões de hectares a agricultura irrigada, elevando produção, gerando empregos e fortalecendo a segurança alimentar do agronegócio brasileiro.
O Brasil pode estar diante de uma das maiores oportunidades estruturais para ampliar sua produção agropecuária nas próximas décadas. Um novo estudo desenvolvido pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), em parceria com pesquisadores da USP/Esalq, aponta que a irrigação no Brasil reúne condições técnicas para expandir em mais de cinco vezes sua atual área, criando um novo ciclo de produtividade dentro do agronegócio nacional.
Hoje, a agricultura irrigada ocupa cerca de 8,2 milhões de hectares, mas o levantamento indica que esse número poderia alcançar aproximadamente 55,8 milhões de hectares, consolidando a irrigação como uma das principais ferramentas para enfrentar oscilações climáticas, aumentar produtividade e reduzir riscos no campo.
“O El Niño é uma preocupação para os produtores. Onde há previsão de impactos de ondas de calor, na região central em direção ao Nordeste, o produtor que quer irrigar traz essa preocupação. Está no radar do produtor e da indústria também”, diz Luiz Paulo Heimpel, Vice-presidente da Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação da Abimaq (CSEI).
Irrigação no Brasil já se tornou peça estratégica para o produtor rural
Em um cenário cada vez mais marcado por eventos climáticos extremos, a irrigação deixou de ser apenas um diferencial tecnológico e passou a ocupar papel central na estratégia produtiva de milhares de propriedades rurais brasileiras.
Segundo os dados do estudo, áreas agrícolas que utilizam irrigação registram, em média, 30% mais produtividade quando comparadas aos cultivos de sequeiro, além de oferecerem maior previsibilidade operacional ao produtor.
A preocupação ganha ainda mais relevância diante dos efeitos climáticos previstos para os próximos ciclos agrícolas, especialmente com eventos como ondas de calor, estiagens prolongadas e mudanças no regime de chuvas que vêm pressionando diversas regiões produtoras do país.
Expansão poderia avançar sobre pastagens e áreas agrícolas já existentes
O estudo aponta que o potencial adicional de expansão da irrigação brasileira ultrapassa 47 milhões de hectares extras, distribuídos entre áreas já agrícolas, pastagens e regiões com disponibilidade hídrica subterrânea.
A divisão apresentada pelos pesquisadores mostra:
- 26,7 milhões de hectares em áreas agrícolas de sequeiro
- 26,7 milhões de hectares em áreas atualmente ocupadas por pastagens
- 2,4 milhões de hectares em regiões com disponibilidade hírica subterrânea
Na prática, isso significa que boa parte da expansão poderia acontecer sem necessidade de abertura de novas fronteiras agrícolas, utilizando áreas já produtivas, porém com menor eficiência produtiva.
Regiões já despontam como polos de crescimento da irrigação
O levantamento identificou sete regiões brasileiras que concentram boa infraestrutura e despontam como grandes polos de expansão da agricultura irrigada nos próximos anos.
Entre elas estão municípios como:
- Barreiras e Santa Maria da Vitória (Bahia)
- Unaí e Patos de Minas (Minas Gerais)
- Sorriso (Mato Grosso)
- Cruz Alta e São Luiz Gonzaga (Rio Grande do Sul)
Atualmente, essas regiões representam juntas mais de 37% de toda a área irrigada nacional via pivô central, mostrando que o avanço da tecnologia tende a se concentrar inicialmente em áreas já consolidadas no agronegócio brasileiro.
Impacto vai muito além da produtividade dentro da porteira
Os ganhos econômicos da irrigação não se limitam apenas ao aumento da produção agrícola.
De acordo com a pesquisa da ABIMAQ e USP/Esalq, municípios com polos irrigados apresentam indicadores econômicos significativamente superiores quando comparados a outras regiões rurais.
Os dados mostram que:
- A renda média pode ser até 68% maior em algumas regiões
- Municípios irrigados apresentam menor dependência de programas sociais
- O PIB per capita pode ser até 256% superior em comparação a municípios rurais semelhantes
No Mato Grosso, por exemplo, alguns polos analisados ultrapassam R$ 182 mil de PIB per capita, um dos maiores níveis econômicos observados entre as regiões avaliadas.
Cada hectare irrigado gera riqueza e fortalece o agro brasileiro
As simulações econômicas realizadas pelos pesquisadores indicam que cada incorporação de aproximadamente 1.600 hectares irrigados pode gerar efeitos diretos quase imediatos sobre a economia regional.
Entre os impactos identificados estão:
- Crescimento de aproximadamente R$ 8,27 milhões no valor agregado agropecuário no curto prazo
- Expansão de empregos formais no meio rural
- Aumento de renda nas cadeias produtivas locais
- Redução da vulnerabilidade econômica em municípios agrícolas
No longo prazo, o impacto econômico pode se aproximar de R$ 14 milhões adicionais por região analisada.
Principal desafio da irrigação no Brasil ainda está no financiamento e na infraestrutura
Apesar do enorme potencial identificado – Brasil pode multiplicar por 5 área irrigada, especialistas alertam que a expansão da irrigação brasileira depende diretamente de avanços estruturais que ainda limitam investimentos no setor.
Entre os principais gargalos apontados pelo estudo estão:
- Falta de linhas de crédito competitivas
- Alto custo de energia elétrica no campo
- Necessidade de infraestrutura hídrica
- Burocracia em outorgas de uso da água
- Escassez de mão de obra qualificada em algumas regiões
A avaliação do setor é de que a irrigação precisa passar a ser tratada como tema estratégico dentro da política agrícola nacional, especialmente diante do avanço das mudanças climáticas e da crescente pressão global por segurança alimentar.
O futuro do agro brasileiro passa pela água
Se o país conseguir superar os gargalos estruturais e acelerar investimentos, a irrigação no Brasil pode se tornar um dos maiores motores silenciosos de crescimento do agronegócio nas próximas décadas.
Mais do que aumentar produtividade, a tecnologia pode garantir estabilidade ao produtor rural, reduzir perdas causadas pelo clima e elevar a competitividade brasileira em um momento em que produzir mais com eficiência se tornou uma exigência global.
Para o agro brasileiro, a água pode ser justamente o ativo que separa crescimento limitado de uma nova revolução produtiva no campo.
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