Alerta no campo: Como proteger o gado do frio intenso e evitar mortes por hipotermia

Com a análise de pesquisadores da Embrapa e especialistas de mercado, entenda o impacto do estresse térmico por frio na pecuária de corte e saiba como blindar seu rebanho contra prejuízos fatais

A oscilação climática e a chegada de frentes polares severas às regiões produtoras trazem à tona um dos maiores desafios sazonais da pecuária nacional: a necessidade urgente de proteger o gado do frio intenso.

Mais do que uma ação isolada de bem-estar animal, a prevenção contra a hipotermia bovina constitui uma estratégia econômica de alto impacto para mitigar perdas catastróficas no pasto. Relatórios técnicos da Embrapa e dados de órgãos estaduais de defesa sanitária revelam que surtos de frio repentinos, quando combinados com chuva e ventos fortes, podem dizimar centenas de cabeças de gado em poucas horas se o pecuarista não adotar um planejamento preventivo de infraestrutura e nutrição.

O diagnóstico dos especialistas: Por que a hipotermia mata o gado a pasto?

A hipotermia em bovinos ocorre quando a temperatura corporal do animal cai abaixo dos níveis fisiológicos normais, comprometendo suas funções vitais. De acordo com o difusor de tecnologia da Embrapa Gado de Corte, Haroldo Pires de Queiroz, o fenômeno não decorre unicamente da queda no termômetro.

“Estudos técnicos comprovam que a hipotermia é causa de mortalidade quando bovinos malnutridos, com pouca disponibilidade e qualidade de forragem, e na ausência de abrigo, são expostos a uma mudança climática brusca, com queda de temperatura combinada a chuvas e ventos fortes”, explica o especialista.

Quando o pelo do animal fica encharcado, ele perde sua capacidade de isolamento térmico por completo. Sob a ação de ventos moderados a fortes, a sensação térmica despenca, elevando a chamada Temperatura Crítica Inferior (TCI). Nessas condições, o gado entra em estresse por frio severo, gerando vasoconstrição periférica, bradicardia e, em casos extremos, falência múltipla dos órgãos.

Escore corporal inadequado amplia a necessidade de proteger o gado do frio intenso

O planejamento para enfrentar o inverno rigoroso começa muito antes das primeiras geadas. O médico-veterinário, agrônomo e pesquisador em nutrição da Embrapa, Luiz Orcírio de Oliveira, aponta que o escore de condição corporal (ECC) é o principal termômetro biológico de resistência do animal.

Para que as estratégias para proteger o gado do frio intenso tenham pleno efeito, o ideal é evitar que os animais entrem no período crítico com notas inferiores a 4 (em uma escala de 1 a 9) ou 3 (na escala de 1 a 5). Animais magros carecem de depósitos de gordura subcutânea, que funcionam tanto como isolante térmico quanto como combustível metabólico emergencial para a produção de calor corporal.

Sem essa reserva energética, o gado deita sobre o solo úmido, perde calor por condução e entra rapidamente em estado irreversível de choque térmico.

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Foto: Amauri Nazário Pinheiro

Zebuínos vs. Taurinos: A vulnerabilidade de raças ao estresse térmico

A composição racial do rebanho brasileiro exige atenção redobrada do produtor. As raças zebuínas (Bos indicus), como o Nelore, predominantes no país, apresentam uma adaptação evolutiva fantástica ao calor tropical, o que ironicamente as torna mais suscetíveis ao frio extremo em comparação às raças europeias (Bos taurus).

Os zebuínos possuem pele e pelos significativamente mais finos, além de menor capacidade basal de termogênese (produção de calor interno) sob estresse por frio. Por esse motivo, as perdas históricas registradas em estados como Mato Grosso do Sul — que contabilizou mais de 2.600 mortes de bovinos por frio em um único inverno, segundo dados oficiais da Iagro — concentram-se fortemente em planteis de base zebuína criados em pastagens totalmente abertas.

A engenharia de campo para proteger o gado do frio intenso

A mitigação dos danos climáticos exige intervenções estruturais nas pastagens. A principal recomendação dos consultores de campo é a implantação de barreiras físicas e biológicas contra o vento.

Os sistemas silvipastoris e os quebra-ventos naturais (fileiras de árvores densas nas divisórias de piquetes) reduzem a velocidade do vento em até 70%, alterando o microclima local e fornecendo refúgio térmico crucial. Adicionalmente, para os lotes mais vulneráveis — como vacas em terço final de gestação e bezerros recém-nascidos —, o confinamento provisório em piquetes-maternidade limpos, secos e providos de cama de palha espessa reduz drasticamente a perda de calor por condução.

Risco clínico e medidas de mitigação no campo

Categoria AnimalFator de Risco PrincipalEstratégia de Manejo RecomendadaImpacto Esperado
Bezerros Recém-nascidosAlta perda de calor por condução e baixa imunidade.Piquetes maternidade secos com cama de palha e abrigos cobertos.Redução de até 90% na mortalidade neonatal por frio.
Bovinos Magros (ECC < 4)Ausência de gordura de reserva para queima metabólica.Suplementação energética densa (NDT alto) no final da tarde.Manutenção do status metabólico e aquecimento ruminal.
Zebuínos a PastoPelos finos e alta sensibilidade ao vento úmido.Uso de quebra-ventos florestais e vedação de pastos densos.Proteção contra o efeito windchill (resfriamento pelo vento).

A análise de mercado da Scot Consultoria e o impacto no bolso do produtor

Do ponto de vista macroeconômico, a perda de rebanho por hipotermia reflete diretamente nas margens de lucro da atividade e na dinâmica de oferta do mercado físico. Analistas da Scot Consultoria reforçam de forma recorrente que a mortalidade de animais adultos compromete anos de investimentos genéticos e atrasa o ciclo de descarte e engorda, gerando uma contração inesperada na oferta de boi gordo e pressionando as indústrias frigoríficas locais.

O custo para implementar cercas vivas, adensar a suplementação mineral/energética e realizar rondas sanitárias preventivas na madrugada é substancialmente menor do que o prejuízo decorrente da perda física de um lote. A prevenção, portanto, consolida-se como o melhor investimento para blindar o fluxo de caixa da propriedade rural frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas globais.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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