Vírus da língua azul reaparece na Irlanda e acende alerta máximo no rebanho europeu

O vírus da língua azul e transmitido por mosquitos não oferece risco à saúde humana, mas preocupa pecuaristas por perdas produtivas e impactos reprodutivos em bovinos e ovinos.

A língua azul (Bluetongue) voltou a acender um alerta sanitário no setor pecuário europeu. Uma vaca de um rebanho no condado de Wexford, na República da Irlanda, teve infecção confirmada pelo vírus da língua azul (BTV), enquanto um quinto caso suspeito está sendo investigado em uma fazenda em Portavogie, no Condado de Down, na Irlanda do Norte.

O episódio em Wexford se torna o caso mais recente confirmado na região, após registros anteriores na Irlanda do Norte em dezembro, e reforça o avanço da doença em território britânico e irlandês — um movimento que vinha sendo considerado provável, dada a circulação do vírus em diversos países da Europa.

O ministro irlandês da Agricultura, Martin Heydon, classificou a confirmação como uma notícia indesejável, mas ressaltou que ela não chega a ser inesperada.

Segundo ele, o avanço do vírus já vinha sendo observado na Europa continental, na Grã-Bretanha e, mais recentemente, na Irlanda do Norte, criando um cenário de maior risco de entrada e disseminação também na República da Irlanda.

Heydon também chamou atenção para o efeito do clima nesse tipo de ocorrência, afirmando que o aumento de temperaturas favorece a disseminação do vírus, justamente por ampliar a atividade dos insetos vetores.

A língua azul é uma doença transmitida principalmente por mosquitos do gênero Culicoides, que funcionam como ponte entre animais infectados e animais saudáveis.

Apesar do impacto na pecuária, o ministro reforçou um ponto essencial: a doença não representa ameaça ao público nem compromete a segurança alimentar, por não ser uma enfermidade considerada de risco direto para humanos.

Em declaração sobre o momento epidemiológico, Heydon avaliou que a situação climática atual atua como uma espécie de barreira natural.

Ele destacou que a queda sazonal das temperaturas tende a reduzir o nível de atividade dos insetos, o que significa que é improvável, neste momento, que a infecção se espalhe amplamente.

Mesmo assim, a resposta sanitária segue em curso. O governo informou que investigações continuam em andamento, com coleta de novas amostras para compreender melhor o quadro e mapear a situação.

A meta, conforme o ministro, é ampliar o entendimento sobre a real dinâmica epidemiológica do vírus no país: onde ele apareceu, qual a origem mais provável e qual o risco de novos focos.

Diante do surgimento do caso confirmado e da investigação em curso na Irlanda do Norte, o governo irlandês passou a reforçar com mais força a necessidade de avaliação preventiva.

Martin Heydon instou os agricultores a vacinarem seus animais, desde que isso faça sentido para o cenário de cada propriedade.

O ministro orientou especialmente que produtores de gado bovino e ovino conversem com seus veterinários para definir se a vacinação é necessária e viável:

“Incentivo os criadores de gado bovino e ovino a discutirem com seus veterinários particulares se a vacinação é apropriada para suas circunstâncias.”

A recomendação se apoia no fato de que a prevenção não depende apenas de “aplicar vacina”, mas de definir timing, categoria animal, fase reprodutiva e custo-benefício, algo que muda de fazenda para fazenda.

A confirmação da língua azul não gerou apreensão apenas por ser um foco isolado, mas por representar um sinal claro de risco sanitário mais amplo.

O presidente da Associação Irlandesa de Fornecedores de Leite para Laticínios (ICMSA), Denis Drennan, afirmou à emissora RTÉ que a notícia é “extremamente preocupante”, principalmente para a família envolvida e para toda a comunidade agropecuária local.

O receio entre produtores vai além do “vírus em si” e se estende para:

  • perdas diretas (mortalidade, queda de produtividade)
  • impacto reprodutivo (abortos e anomalias fetais)
  • restrições de movimentação (logística e mercado)
  • aumento de custos (vacinação, manejo, testes e biossegurança)

Enquanto a Irlanda confirma o caso em Wexford, a Irlanda do Norte investiga um novo possível foco em Portavogie. A informação ganha peso por ser o primeiro caso suspeito detectado em 2026.

O caso foi levantado após a identificação de sinais da doença durante testes realizados antes da movimentação de animais, uma prática que se torna ainda mais rigorosa em regiões sob restrição sanitária.

Portavogie está localizada dentro de uma Zona de Controle Temporário, onde produtores precisam cumprir requisitos adicionais para transportar animais considerados de maior risco.

Entre os animais de alto risco na zona, estão categorias específicas de:

  • bovinos
  • ovinos
  • caprinos
  • lhamas
  • alpacas
  • cervos

Ou seja: qualquer movimentação, venda, remanejamento de lote ou transporte exige atenção redobrada, porque pode virar um ponto de disseminação silenciosa.

Analistas do setor destacam que a confirmação na República da Irlanda, somada ao novo caso suspeito na Irlanda do Norte, tende a ampliar uma sensação de alerta generalizado.

Mesmo que o frio ajude temporariamente, a preocupação central é o calendário: a primavera está próxima, e com ela aumenta a circulação de mosquitos e o risco de expansão do vírus.

Além disso, a avaliação sobre vacinar ou não vacinar ocorre num momento em que muitos produtores estão com margens pressionadas, enfrentando custos elevados.

A decisão não é simples por três motivos principais:

  1. Planejamento em relação à reprodução
    A vacinação precisa ser programada considerando fases críticas como cobertura, gestação e parição.
  2. Custo adicional em um momento de orçamento apertado
    Muitos produtores já lidam com aumento de despesas como combustível, ração e fertilizantes.
  3. Medo de perdas em animais valiosos
    Como o vírus pode causar anomalias fetais e comprometer a próxima safra de bezerros e cordeiros, propriedades com genética valorizada tendem a agir com maior cautela.

Com a temporada de partos se aproximando, cresce o temor de perdas econômicas relevantes, principalmente em rebanhos leiteiros e ovinos voltados a reposição e seleção genética.

O vírus da língua azul, citado no caso como BTV-3, é uma doença que afeta animais de casco fendido e outras espécies suscetíveis.

Entre os principais animais atingidos estão:

  • bovinos
  • ovinos
  • caprinos
  • cervos
  • camelídeos, como lhamas e alpacas

O vírus pode causar sintomas relevantes e debilitantes, entre eles:

  • úlceras e feridas ao redor da boca e do rosto
  • dificuldade para engolir
  • dificuldade respiratória
  • febre
  • claudicação (mancar)
  • anomalias fetais
  • natimortos

Mesmo quando o animal sobrevive, a doença pode gerar impactos indiretos, como queda de desempenho e prejuízos produtivos.

O avanço do BTV-3 não começou agora. O surto mais recente teve início na Holanda, em 2023, onde dezenas de milhares de ovelhas morreram, evidenciando a gravidade da doença em determinadas situações.

Com o tempo, mosquitos carregados pelo vento a partir do continente europeu passaram a infectar rebanhos também no sudeste da Inglaterra, demonstrando como o fator climático e a dispersão por vetores podem acelerar a chegada do vírus a novas regiões.

Ainda assim, especialistas destacam que o impacto do BTV-3 pode variar bastante conforme o local e o perfil do rebanho, já que:

  • há animais que apresentam poucos sinais clínicos
  • alguns conseguem se recuperar
  • outros, especialmente ovinos, podem sofrer quadros severos

Com um caso confirmado na República da Irlanda e um novo suspeito na Irlanda do Norte, o cenário exige atenção redobrada para três pontos-chave:

  • monitoramento e testagem dos rebanhos, especialmente em áreas sob controle
  • planejamento de vacinação, considerando custo, reprodução e risco regional
  • controle de movimentação, para evitar que o vírus se espalhe por transporte de animais

Ainda que o frio reduza a pressão de curto prazo, o setor sabe que a chegada de meses mais quentes pode mudar rapidamente o panorama.

Em um contexto de pecuária cada vez mais global e conectada, a língua azul reforça a importância da vigilância sanitária contínua — não apenas para conter surtos, mas para proteger produtividade, genética e mercado.

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