Estudos apontam que 70% da reatividade bovina é moldada pelo ambiente; entenda como o manejo racional pode “curar” a vaca brava e evitar perdas de até 15% no ganho de peso
No dia a dia da lida, todo pecuarista já cruzou com aquela vaca brava que não aceita o manejo, pula a cerca e coloca a equipe em risco. O que muitos ainda ignoram, no entanto, é que o coice e a correria pesam diretamente no bolso.
Mais do que um problema de temperamento, a reatividade bovina é um gargalo de produtividade que a ciência animal agora ensina a resolver com estratégia, e não com força.
Genética ou trauma?
Para entender se a vaca brava tem cura, o primeiro passo é separar o instinto da genética. Segundo estudos consolidados pelo Grupo ETCO (USP/Jaboticabal) e pela Embrapa, o comportamento bovino possui uma herdabilidade que gira entre 20% e 40%. Ou seja: uma parte da agressividade vem de berço, mas a maior fatia — cerca de 70% — é resultado do ambiente e da forma como o animal é tratado desde o pé da vaca.
Bovinos que apresentam o fenótipo de vaca brava possuem uma amígdala cerebral mais ativa e níveis elevados de cortisol. Esse animal vive em estado de alerta. Se o manejo no curral for baseado em gritos, choques e pauladas, o cérebro do animal entende que o ser humano é um predador, tornando o comportamento reativo um hábito crônico de sobrevivência.
O prejuízo que a reatividade deixa na balança
Ter uma vaca brava no lote não é apenas perigoso; é anti-econômico. O estresse constante consome a energia que deveria ser transformada em carne ou leite. Dados da Associação Nacional dos Confinadores (ASSOCON) revelam um cenário preocupante para quem mantém animais reativos:
- Ganho de Peso Médio Diário (GMD): Animais estressados podem ganhar até 15% menos peso do que os dóceis sob o mesmo regime alimentar.
- Qualidade da Carcaça: O estresse pré-abate esgota as reservas de glicogênio, resultando na temida carne DFD (Escura, Firme e Seca), que sofre cortes severos no preço pago pelo frigorífico.
- Saúde do Rebanho: O cortisol alto baixa a imunidade, tornando o lote mais suscetível a doenças.
Afinal, a vaca brava tem cura ou o destino é o descarte?
A ciência é categórica: na maioria das vezes, a vaca brava tem cura por meio do condicionamento e manejo racional. A transição não é mágica, mas técnica. Especialistas como a Dra. Temple Grandin provaram que, ao respeitar a “zona de fuga” e o “ponto de equilíbrio” do animal, é possível reduzir a reatividade em poucas semanas.
O uso de bandeiras no lugar de ferrões e o silêncio no lugar dos gritos mudam a percepção do animal sobre o manejador. Porém, há uma ressalva técnica importante: animais com genética de agressividade extrema, que não respondem ao manejo gentil após tentativas insistentes, devem ser descartados seletivamente. Manter esse tipo de animal compromete a segurança da fazenda e a genética das próximas gerações.
O lucro é dócil
O veredito da ciência é que a “cura” para a vaca brava começa na atitude do pecuarista. Ao investir em bem-estar animal e treinar a equipe para o manejo nada nas mãos, a fazenda deixa de gastar com remédios e conserto de cercas para lucrar com arrobas mais pesadas. No agronegócio moderno, tranquilidade no curral é sinônimo de dinheiro no bolso.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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