Com potencial de movimentar R$ 16 bilhões por ano, o turismo rural amplia o perfil de compradores, diversifica investimentos e reposiciona a terra como ativo estratégico no Brasil
É inegável que a produção de alimentos, em especial a pecuária e a agricultura, é o motor do agronegócio em qualquer canto do mundo. Consequentemente, a oferta de terras para essas finalidades move ainda o setor imobiliário, mas essa realidade não pode virar uma redução do potencial gigantesco que toda essa cadeia oferece aos investidores. Na semana passada, trouxe aqui algumas reflexões sobre o porquê de não existir “terra ruim”, e isso vai além de melhorar as técnicas de produção. Há também as diversas possibilidades para extrair o máximo de cada hectare disponível por aí, sendo o turismo rural uma das grandes portas de entrada, atualmente, para compradores de propriedades no Brasil.
O que antes era visto apenas como atividade complementar se tornou, em mercados maduros como os dos Estados Unidos e Europa, um modelo híbrido de negócio e valorização imobiliária rural. Para os norte-americanos, os tradicionais ranchos e farm stays deixaram de ser apenas propriedades produtivas e passaram a incorporar hospitalidade como parte do modelo de negócio. Na Itália, os agriturismos transformaram fazendas históricas em destinos desejados, sem perder a essência agrícola. Em Portugal, o enoturismo, enquanto na França as vinícolas também elevaram o conceito de propriedade rural a uma experiência completa, que mostra o produto desde a terra até a mesa.
Em nosso país, essa tendência está começando a ganhar força e pode representar uma transformação estrutural no perfil de comprador de terras. É de conhecimento global que, no Brasil, existe uma diversidade natural e cultural incomparável, com as terras ainda com preço atrativo frente a esses mercados mais maduros. Não é por acaso que já podemos notar uma grande demanda estrangeira por terras brasileiras nos últimos anos, além dos próprios investidores nacionais já terem entendido que a busca ativos reais e diversificação no mercado imobiliário rural se tornou uma estratégia segura.
E sim, há muita oferta. São Paulo, por exemplo, é o estado em que mais avança com alternativa, sendo responsável por cerca de 74% das mais de 2200 terras com aptidão para turismo e lazer disponíveis atualmente no Chãozão. Isso nos mostra outro movimento recente, ainda silencioso mas extremamente poderoso, que já acontece nas grande metrópoles: a busca por qualidade de vida, que deixou de ser discurso e virou prioridade. Seja pelo avanço do trabalho remoto, que dá aos profissionais o poder de escolher onde viver ou pelas famílias que desejam uma segunda residência conectada à natureza.
Ou seja, o turismo rural amplia o funil do mercado imobiliário rural, pois atrai compradores urbanos que, antes, jamais considerariam adquirir uma propriedade no campo, justamente por associar, de cara, à produção. Existe, portanto, um propósito humano. Um lifestyle, a partir da busca por experiências autênticas.
Estimativas do Ministério do Turismo apontam que o turismo rural já movimenta cerca de R$ 16 bilhões por ano no Brasil. Mais do que o número, o que chama atenção é a dinâmica que se forma a partir dele. De um lado, investidores e produtores que passam a enxergar na propriedade rural uma oportunidade de estruturar um negócio turístico. Na outra ponta, um público urbano em busca de maior qualidade de vida. Esses dois movimentos se fortalecem mutuamente e ampliam o alcance do campo para além da produção.
Acredito que estamos apenas no início dessa curva no Brasil. O turismo rural não é apenas uma fonte complementar de renda, ele é um catalisador que cria novos perfis de compradores, diversifica investimento e reposiciona o valor da terra. Quando experiência e propriedade rural passam a caminhar juntas, o mercado deixa de ser exclusivamente produtivo e passa a incorporar hospitalidade e estratégia patrimonial. E isso, inevitavelmente, impacta a próxima fase de valorização do campo brasileiro.
*Por Geórgia Oliveira, CEO do Chãozão
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