Neve intensa, gelo e frio extremo derrubam energia, afetam rebanhos, travam a logística e colocam lavouras sob risco em grande parte dos EUA.
Uma das maiores tempestades de inverno da história recente dos Estados Unidos avançou sobre o país, atingindo 28 estados, do Novo México ao Maine, com neve intensa, gelo generalizado e frio recorde. O sistema, identificado como tempestade Fern, cobriu amplas áreas agrícolas com acúmulos superiores a 30 centímetros, interrompeu serviços essenciais e elevou o nível de risco para produtores rurais.
De acordo com Eric Snodgrass, pesquisador sênior da Nutrien Ag, o evento se destacou tanto pela extensão territorial quanto pela força do gelo e da neve, formando uma faixa contínua de impactos desde o Sul até o Nordeste dos EUA. O fenômeno reuniu, em um único sistema, tempestades de neve e de gelo que afetaram corredores produtivos estratégicos.
O acúmulo de gelo sobre redes elétricas provocou interrupções generalizadas no fornecimento de energia, com impacto direto sobre propriedades rurais, sistemas de aquecimento, ordenha e armazenamento. As estimativas iniciais indicaram mais de 782 mil clientes sem eletricidade, concentrados principalmente no Sudeste dos EUA.
Os estados mais afetados foram Alabama, Tennessee, Mississippi e Maine. Mesmo após a passagem inicial da tempestade, mais de 550 mil consumidores permaneciam sem energia, ampliando a vulnerabilidade de rebanhos e elevando os custos operacionais dos produtores.
Além da neve e do gelo, a Fern foi marcada por temperaturas entre 30 °C e 40 °C abaixo da média histórica, com sensações térmicas extremamente perigosas. Em regiões do Meio-Oeste, especialmente em áreas de forte produção leiteira, foram registradas sensações térmicas próximas de -55 °C.
Esse cenário provocou estresse térmico severo nos animais, com potencial impacto sobre desempenho produtivo, consumo de alimento, ganho de peso e saúde geral do rebanho. A combinação de vento, frio intenso e gelo elevou a necessidade de manejo emergencial nas propriedades.
Em diversas regiões, produtores rurais passaram o fim de semana reforçando estratégias de proteção ao gado, com aumento no fornecimento de ração e grãos energéticos para ajudar os animais a manterem a temperatura corporal. O manejo buscou garantir acesso constante a alimento e água, além de reduzir a exposição direta ao vento e ao gelo.
Relatos do noroeste da Louisiana indicam que, embora o frio seja extremo para os produtores, os bovinos demonstram maior capacidade de adaptação, especialmente quando recebem suplementação adequada. Ainda assim, o esforço operacional foi elevado, com jornadas contínuas para evitar perdas.
A tempestade também reduziu o ritmo do transporte de grãos, afetando o escoamento por caminhões e barcaças em importantes rotas fluviais e rodoviárias. Paralelamente, usinas de etanol e de processamento de soja diminuíram a produção, em resposta ao aumento do custo do gás natural, intensificado pela demanda energética do inverno rigoroso.
Esse cenário pressiona margens, encarece a cadeia produtiva e pode gerar reflexos tanto no mercado interno quanto nas exportações.
O trigo de inverno é outro ponto de atenção, especialmente em estados como o Kansas. A preocupação se deve ao fato de que o frio intenso foi antecedido por temperaturas acima da média, o que pode ter reduzido a resistência das plantas.
A presença de uma camada de neve sobre o solo atua como fator de proteção parcial, ajudando a isolar as lavouras do ar extremamente frio. No entanto, os possíveis danos só poderão ser confirmados na primavera, quando o desenvolvimento das plantas revelar eventuais perdas.
As projeções indicam que o vórtice polar foi deslocado e permanece estacionado entre a região dos Grandes Lagos e a Baía de Hudson, mantendo o ar ártico canalizado para o interior da América do Norte. Com isso, a tendência é de persistência do frio intenso até o fim do mês, com possibilidade de avanço até o início de fevereiro.
O padrão atmosférico observado guarda semelhanças com 2014, quando o vórtice polar se manteve ativo por um período prolongado. Naquele ano, o frio extremo causou prejuízos expressivos à agropecuária, afetando lavouras, rebanhos e a logística agrícola.
Com a repetição desse comportamento climático, agricultores e pecuaristas seguem em estado de alerta máximo, monitorando lavouras, reforçando o manejo dos animais e se preparando para um dos invernos mais rigorosos da última década nos Estados Unidos.
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