Senado aprova renegociação bilionária de dívidas rurais, mas Governo Federal já demonstra resistência ao projeto

Senado aprova renegociação bilionária de dívidas rurais, mas Governo Federal já demonstra resistência ao projeto

PL 5.122/2023 prevê até 13 anos para pagamento e carência de 3 anos, mas ainda depende de nova votação na Câmara e enfrenta oposição do Executivo. Afinal, os produtores poderão contar com esse benefício da renegociação de dívidas rurais?

O Senado Federal aprovou nesta quarta-feira (10) o Projeto de Lei nº 5.122/2023, que autoriza a utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para financiar a renegociação de dívidas de produtores rurais, cooperativas e associações afetadas pelas sucessivas crises enfrentadas pelo agronegócio nos últimos anos.

A proposta foi recebida com expectativa por milhares de produtores rurais em todo o país, especialmente aqueles que enfrentam dificuldades financeiras decorrentes de perdas climáticas, elevação dos custos de produção, queda nos preços das commodities e aumento das taxas de juros.

Entre os principais benefícios previstos estão a possibilidade de pagamento em até 13 anos, carência mínima de três anos e juros reduzidos, que variam entre 3,5% e 7,5% ao ano, dependendo do enquadramento do produtor.

Além disso, o texto permite a renegociação de operações de crédito rural, CPRs, financiamentos contratados para liquidação de dívidas rurais e até mesmo débitos junto a cooperativas, cerealistas e fornecedores de insumos.

No entanto, apesar da aprovação no Senado, o projeto ainda está longe de representar uma solução definitiva para o endividamento rural brasileiro.

Segundo o advogado especialista em Direito Bancário do Agronegócio, Dr. Marco Paiva, é importante que os produtores compreendam que o projeto ainda não possui eficácia imediata.

“Existe uma expectativa positiva em torno da proposta, mas é fundamental que o produtor tenha cautela. O texto ainda precisa retornar à Câmara dos Deputados porque sofreu alterações no Senado. Somente após nova aprovação e eventual sanção presidencial poderemos falar em uma lei efetivamente em vigor”, explica.

Outro ponto de atenção é que os benefícios não serão automáticos.

“Mesmo que o projeto seja aprovado em definitivo, ainda haverá regulamentação, definição dos critérios de enquadramento e análise individual das operações. Não se trata de uma anistia geral ou de um benefício concedido automaticamente a todos os produtores”, ressalta o especialista.

RESISTÊNCIA DO GOVERNO

A tramitação da proposta também revelou forte resistência do Governo Federal.

Nos bastidores, o Ministério da Fazenda classificou o projeto como uma possível “pauta-bomba”, em razão do elevado impacto fiscal estimado.

De acordo com projeções apresentadas pela equipe econômica, caso todos os potenciais beneficiários sejam contemplados, o custo para os cofres públicos poderá alcançar aproximadamente R$ 817 bilhões ao longo dos próximos 13 anos, com impacto estimado em cerca de R$ 150 bilhões apenas em 2027.

A preocupação ficou evidente durante as negociações realizadas na véspera e no próprio dia da votação.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, reuniu-se com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tentando evitar a apreciação de projetos considerados sensíveis para o equilíbrio fiscal. Posteriormente, representantes da Fazenda também participaram de reuniões com o relator da proposta, senador Renan Calheiros, e com a senadora Tereza Cristina.

Mesmo assim, o Senado decidiu avançar com a votação.

Antes da deliberação, o próprio presidente da Casa reconheceu publicamente que o texto não possuía apoio do Governo Federal nos moldes aprovados.

PRÓXIMOS PASSOS

Para Dr. Marco Paiva, a aprovação representa um importante reconhecimento da gravidade da crise financeira enfrentada pelo setor rural, mas ainda não resolve os problemas imediatos dos produtores.

“A aprovação do projeto demonstra que o Congresso Nacional reconhece a dimensão do endividamento rural. Porém, enquanto não houver conclusão do processo legislativo, o produtor que enfrenta execuções, cobranças, leilões ou dificuldades financeiras não pode permanecer inerte aguardando uma solução futura. Cada situação exige análise individual e, muitas vezes, já existem instrumentos administrativos e judiciais capazes de buscar a reestruturação das dívidas”, destaca.

O especialista reforça que os próximos meses serão decisivos para definir o futuro da proposta.

“A grande dúvida agora não é apenas se o projeto será aprovado definitivamente, mas quais alterações poderão ser feitas ao longo da tramitação e qual será o grau de resistência do Governo Federal diante do impacto fiscal estimado. Esse será o principal debate daqui para frente”, conclui.

Enquanto isso, produtores rurais de todo o país acompanham os desdobramentos do PL 5.122/2023, que pode se tornar uma das maiores iniciativas de renegociação de dívidas da história do agronegócio brasileiro.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM